Economia

REFORMA TRIBUTÁRIA

IVA do Brasil pode ir a 28% e ser o maior do mundo, segundo pesquisa do Ipea

Previsão inicicial era de que a alíquota ficasse em no máximo 25%. Hoje, o maior IVA do mundo é da Hungria, de 27%

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Com base na proposta de Reforma Tributária aprovada na Câmara, a alíquota efetiva do novo tributo brasileiro para taxar o consumo de bens e serviços ficaria em 28,4%, aponta nota técnica do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Seria a maior do mundo para um IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Hoje, a maior do gênero é a da Hungria, de 27%.

A alíquota brasileira vai ser definida em lei complementar. A expectativa inicial era que ficasse em 25%, mas efeitos de regimes favorecidos, alíquotas reduzidas e isenções incluídas no texto antes da votação pela Câmara devem pressionar por uma alíquota maior.

O estudo do Ipea é o primeiro a medir os possíveis efeitos da reforma, a partir do cruzamento de dados da Receita Federal para a arrecadação setorial e as exceções negociadas pelos deputados, tomando o cuidado de manter a carga tributária.

Os detalhes da simulação constam na Carta de Conjuntura intitulada "Propostas de Reforma Tributária e seus impactos: Uma avaliação comparativa", do pesquisador João Maria Oliveira, que acompanha de perto o andamento do texto no Congresso.

Oliveira trabalha com modelos de projeção e usou a técnica para mostrar os impactos da revisão tributária na economia nacional, avaliando efeitos sobre crescimento, emprego e produtividade, por exemplo.

Os parâmetros de dois cenários tiveram como base as reformas apresentadas em duas PECs (Propostas de Emenda à Constituição): a PEC 45, com IVA único e nenhuma exceção, que entrou pela Câmara e previa alíquota de 25%, e a PEC 110, com dois tipos de IVA, apresentada no Senado, com alíquota de 26,9%.

Para o terceiro cenário, Oliveira projetou a alíquota a partir da proposta negociada na Câmara. A estimativa mantém a carga tributária atual e considera os efeitos de regimes favorecidos, alíquotas reduzidas e isenções que foram incluídas no texto até uma semana antes da votação pela Câmara —o que elevou a alíquota para 28,4%. As exceções inseridas de última hora não entraram nessa conta.

"A conclusão óbvia é que, quanto mais exceções forem oferecidas, maior será a alíquota efetiva para quem fica fora da exceção", afirma Oliveira.

Manter os benefícios da Zona Franca de Manaus e Simples foi o que mais pesou para elevar a alíquota, explica Oliveira, mas também fazem diferença exceções para setores muito demandados, como transporte.

Mesmo que fosse mantida em 25%, a alíquota ainda seria elevada para a média mundial. Esse é o percentual na Dinamarca, Noruega e Suécia, considerados Estados de bem-estar social, que oferecem serviços públicos de primeira linha. Em países com reformas mais recentes, a alíquota costuma ser bem menor, caso de Austrália, com 10%, e Nova Zelândia, com 15%.

Oliveira pondera que, ainda assim, as projeções confirmam que a reforma vai mudar radicalmente, para melhor, o ambiente de negócios no Brasil.

Em todos os cenários, por exemplo, há crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). O melhor resultado ocorreria com a PEC 45, que teve entre os autores o economista Bernard Appy, hoje secretário extraordinário de Reforma Tributária do Ministério da Fazenda.

Considerando o cenário em que a proposta da PEC 45 começasse a valer em 2027, o PIB teria um crescimento adicional de 5,7% até 2036, gerado pelo impacto das mudanças nos tributos.

"Essa era a reforma ideal, mas não foi politicamente viável ", diz Oliveira.

No caso da PEC 110, o crescimento seria de 4,48% até 2032, quando o estímulo perderia fôlego. O texto que saiu da Câmara aponta que o crescimento nesse mesmo período seria de 2,39%.

EXCEÇÕES ACIMA DA MÉDIA GLOBAL

Conceitualmente, o Imposto de Valor Agregado costuma ser um só e valer para todos os setores, com poucas exceções. A versão brasileira será dual —haverá um para a União, e outro para estados e municípios — e o número de exceções extrapolou o usual.

O IVA brasileiro não chega a ser uma jabuticaba, mas tem particularidades, explica a portuguesa Rita De La Feria, professora de Direito Tributário na Universidade de Leeds, na Inglaterra. La Feria acompanha reformas no mundo todo, incluindo o Brasil.

Já participou de audiência no Congresso sobre o tema. Em alguns países, como Portugal, Timor Leste, Angola e Uzbequistão, atuou na elaboração da legislação tributária.

"O IVA vai ser uma revolução para o sistema do Brasil, pois adota as melhores práticas em vigor, vai permitir que o brasileiro saiba o que paga e foi adaptado às condições federativas locais, o que não era uma coisa fácil de resolver, pois o país tem três níveis de governo, algo incomum", explica La Feria.

"No entanto, não há muitas experiências no mundo com o IVA dual. A mais notória é a do Canadá. Mesmo Alemanha e Espanha, que têm sistemas federativos, adotam o IVA único. O Brasil vai sentir o efeito disso ao longo dos anos", pondera.

Ela explica que trabalhar com duas legislações sempre abre margem para interpretações, dificultando a aplicação da norma no dia a dia e abrindo espaço para questionamentos entre fisco e contribuintes. A proposta que foi para o Senado tenta reduzir o ruído ao determinar que algumas regras serão idênticas para os dois IVAs.

A maior diferença, no entanto, é o número de exceções. O Brasil já tem uma das maiores cargas tributárias do mundo, e ninguém esperava uma alíquota muito baixa na largada da reforma, mas as exceções pioraram o cenário.

"Incluíram muitos regimes especiais, e um número grande de produtos terá alíquota reduzida", afirma. "Ainda não se sabe o desenho jurídico exato dessas exceções, mas já podemos afirmar que o resultado ficou descolado dos IVAs mais avançados."
As exceções nos novos IVAs, explica, são concentradas em poucos itens considerados de difícil tributação. Caso do spread (diferença entre a taxa de captação e dos empréstimos) de bancos, algumas transações imobiliárias e serviços públicos de saúde e educação.

Entre os segmentos que levam isenções costumam estar serviços postais, transporte de doentes e projetos culturais.
La Feria conta que, no aspecto das exceções, o IVA do Brasil fica mais parecido com os modelos antigos.

"É o caso dos IVAs europeus, que têm muitas exceções, isenções e taxas reduzidas que foram sendo criadas ao longo dos anos e que, por isso, agora têm alíquotas maiores", afirma. "Mas entendo que essa foi a reforma politicamente possível no Brasil e espero que o Senado não aumente as exceções, pois é automático: quanto menor a base da tributação, maior a alíquota", diz.

O Ministério da Fazenda já esta mapeando itens para debater no Senado na tentativa de reduzir a pressão sobre a alíquota, mas mantém o discurso com valores menores.

Appy evita falar em números, e quando lhe perguntam do risco de a alíquota ir a 30%, ele responde que não acredita nesse cenário. A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, estimou que, por causa das exceções, a alíquota poderia ficar entre 26% e 27%. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse acreditar que "no tempo" a alíquota pode ser menor do que 25%.

ALTERNATIVAS PARA FREAR AUMENTO

O advogado Luiz Gustavo Bichara resume o pensamento dos tributaristas ao afirmar que o governo precisa dar mais clareza sobre como as negociações estão impactando a alíquota.

"A reforma é boa, não há dúvidas, todos queremos, mas tem uma incerteza muito grande sobre o valor final, e, do jeito que estamos indo, vamos ter, na comparação mundial, a maior alíquota do mundo", diz.

Bichara considera positiva a proposta do relator no Senado, Eduardo Braga (MDB-AM), de definir uma trava para a alíquota dos novos tributos. Seria uma salvaguarda ao aumento da carga tributária.

Para ter um IVA menor, o governo precisaria olhar a reforma como um todo, avalia o advogado Bruno Santos, pesquisador do NEF FGV-SP (Núcleo de Estudos Fiscais da Fundação Getulio Vargas de São Paulo), criado para avaliar a relação entre tributação e desenvolvimento.

"Canadá e Suíça, por exemplo, têm IVAs menores, porque tributam menos o consumo e mais a renda", afirma Santos. "O Brasil tem uma tributação muito baixa sobre a renda e, se o governo mantiver a carga tributária, terá a oportunidade de fazer o mesmo quando a reforma chegar à renda."

A reforma do Imposto de Renda, cita Santos, seria uma alternativa. No cronograma do Ministério da Fazenda, ela ocorrerá ainda no segundo semestre deste ano.

EXCEÇÕES AO IVA

Reforma permite que um número significativo de segmentos adote regime diferenciado à regra geral
Regimes tributários específicos para:
- Combustíveis e lubrificantes
- Sociedades cooperativas
- Serviços de hotelaria
- Restaurantes
- Aviação regional
- Parques de diversão e parques temáticos
- Serviços financeiros, operações com bens imóveis, planos de assistência à saúde e concursos
- Operações contratadas pela administração pública direta, por autarquias e por fundações públicas
Regimes tributários favorecidos para:
- Zona Franca de Manaus
- Áreas de Livre Comércio
- Simples Nacional
- Regimes aduaneiros especiais e ZPEs (Zonas de Processamento de Exportação)

EXCEÇÕES À ALÍQUOTA ÚNICA DO IVA

O texto aprovado na Câmara também adota descontos para número expressivo de segmentos
- 100% de redução para
- Cesta básica nacional (CBS e IBS)
- Produtos hortícolas, frutas e ovos (CBS e IBS)
- Prouni, serviços de educação superior (CBS)
- Perse, serviços do setor de eventos (CBS até 28/02/27)
60% de redução para
- Serviços de educação
- Dispositivos médicos e de acessibilidade para pessoas com deficiência
- Serviços de saúde
- Medicamentos e produtos de cuidados básicos à saúde menstrual
- Serviços de transporte público coletivo
- Insumos agropecuários, alimentos destinados ao consumo humano e produtos de higiene pessoal
- Produções artísticas, culturais, jornalísticas e audiovisuais nacionais e atividades desportivas
- Produtos agropecuários, aquícolas, pesqueiros, florestais e extrativistas vegetais in natura
- Bens e serviços relacionados à segurança e soberania nacional, segurança da informação e segurança cibernética
Isenções para
- Serviços de transporte coletivo rodoviário, ferroviário e hidroviário, de caráter urbano, semiurbano, metropolitano, intermunicipal e interestadual
- Entidades religiosas, templos de qualquer culto, incluindo suas organizações assistenciais e beneficentes
- Isenção ou redução em até 100% para atividades de reabilitação urbana de zonas históricas e de áreas críticas de recuperação e reconversão urbanística (CBS e IBS)
Fonte: Machado Meyer
 

Demissão em Massa

Justiça do Trabalho manda Casas Bahia restabelecer contratos de 130 demitidos em MS

Decisão alcança desligamentos feitos durante reestruturação da rede; empresa fechou sete lojas em Mato Grosso do Sul e terá cinco dias para restabelecer os vínculos.

19/08/2026 18h31

Unidade da Casas Bahia; Justiça do Trabalho determinou o restabelecimento provisório dos contratos de trabalhadores atingidos pelas demissões em massa da rede.

Unidade da Casas Bahia; Justiça do Trabalho determinou o restabelecimento provisório dos contratos de trabalhadores atingidos pelas demissões em massa da rede. Foto: Divulgação Casas Bahia.

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A Justiça do Trabalho determinou que o Grupo Casas Bahia restabeleça provisoriamente os vínculos dos trabalhadores atingidos pela onda de demissões promovida durante o fechamento de lojas em todo o país.

Em Mato Grosso do Sul, a reestruturação resultou no encerramento de sete unidades e na dispensa de aproximadamente 130 funcionários, conforme levantamento do Sindicato dos Empregados no Comércio de Campo Grande (SECCG).

A decisão foi proferida nesta terça-feira (18) pela juíza do Trabalho substituta Katarina Roberta Mousinho de Matos, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, em ação apresentada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) contra o Grupo Casas Bahia. O processo tem abrangência nacional. 

A magistrada suspendeu provisoriamente os efeitos jurídicos das dispensas coletivas realizadas nos dias 13 e 14 de agosto dentro da chamada “Fase 2” do Plano de Transformação da companhia.

A determinação também alcança desligamentos ocorridos entre os dias 15 e 17 que façam parte da mesma operação e não tenham sido precedidos de intervenção sindical. 

Com isso, a medida pode atingir diretamente os cerca de 130 funcionários desligados em Mato Grosso do Sul, desde que os trabalhadores estejam enquadrados nas condições estabelecidas pela decisão judicial.

No Estado, foram encerradas sete lojas: uma em Campo Grande, uma em Ponta Porã, uma em Naviraí, uma em Nova Andradina, uma em Três Lagoas e duas em Dourados. Os fechamentos fazem parte de uma reestruturação que atingiu 298 unidades em todo o Brasil.

Documentos da própria companhia analisados pela Justiça registram que as 298 lojas foram fechadas dentro da Fase 2 do Plano de Transformação, após avaliação de critérios como desempenho operacional, capital empregado e retorno econômico.

A empresa também informou que estava adequando sua estrutura organizacional e o quadro de funcionários ao novo tamanho da operação. 

Trabalhadores deverão voltar à folha de pagamento

Pela decisão, o Grupo Casas Bahia terá cinco dias, contados da intimação, para restabelecer provisoriamente os vínculos jurídicos e econômicos dos empregados atingidos pela decisão.

Os trabalhadores deverão ser reincluídos na folha de pagamento para receber os salários que vencerem a partir da ciência da determinação judicial, além de terem restabelecidos os benefícios previstos nos contratos.

Isso, no entanto, não significa que as lojas fechadas terão de reabrir nem que os funcionários retornarão aos mesmos locais onde trabalhavam.

A Justiça autorizou a companhia a aproveitar os empregados em atividades compatíveis nas unidades e estruturas que permanecem em funcionamento ou mantê-los em afastamento remunerado enquanto a medida estiver vigente. 

Caso a empresa não restabeleça os vínculos depois do prazo de cinco dias, poderá ser aplicada multa de R$ 500 por dia para cada trabalhador atingido, limitada inicialmente, por empregado, ao equivalente a dez remunerações mensais. 

Planos de saúde e outros benefícios assistenciais continuados que tenham sido cancelados exclusivamente em razão das demissões também deverão ser retomados em até 48 horas, mantendo as condições de custeio e coparticipação existentes anteriormente. 

A decisão ainda estabelece que eventuais verbas rescisórias já recebidas pelos trabalhadores não precisam ser devolvidas neste momento. Uma eventual compensação ou restituição será analisada posteriormente no processo. 

Sindicato relata demissões apenas verbais em MS

Em Mato Grosso do Sul, o fechamento das unidades provocou reação do Sindicato dos Empregados no Comércio de Campo Grande. De acordo com a entidade, alguns funcionários teriam sido informados sobre a demissão apenas verbalmente, sem a entrega imediata de documentos ou orientações sobre os procedimentos relacionados ao encerramento dos contratos.

Como divulgado pelo Correio do Estado ontem (18), o SECCG informou que pretende pedir mediação ao Ministério Público do Trabalho (MPT) para acompanhar a situação e buscar garantias de que os direitos dos empregados sejam respeitados.

"É lamentável ver uma rede tão importante para o comércio e para o emprego enfrentar essa situação. Aqui no nosso Estado, aproximadamente 130 famílias ficaram desassistidas, e o que mais nos preocupa é ver trabalhadores sendo dispensados apenas de forma verbal, sem nenhum documento, sem saber o que fazer", disse o presidente do SECCG, Carlos Santos.

Justiça aponta ausência de intervenção sindical

A discussão que levou à decisão judicial está concentrada justamente na participação dos sindicatos antes de uma demissão em massa.

A CNTC alegou à Justiça que a operação realizada entre 13 e 14 de agosto resultou no fechamento de 298 lojas, equivalentes a aproximadamente 30% da rede física, e no desligamento concentrado de cerca de 1,9 mil trabalhadores, sem intervenção sindical prévia. A ação foi protocolada no dia 17. 

Ao analisar o pedido, a magistrada considerou haver elementos suficientes, nesta fase inicial do processo, para sustentar a alegação de que a reestruturação teve dimensão coletiva e que os representantes dos trabalhadores não tiveram oportunidade de participar previamente do procedimento.

A decisão ressalva, entretanto, que a empresa ainda poderá apresentar provas de eventuais contatos sindicais anteriores que não estejam documentados nos autos. 

A decisão toma como referência entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) segundo o qual a intervenção sindical prévia é obrigatória em dispensas em massa.

Essa participação não significa que o sindicato precise autorizar as demissões, mas exige comunicação anterior e oportunidade efetiva de diálogo antes que os desligamentos sejam executados. 

Por isso, a Casas Bahia também foi impedida de realizar novas demissões coletivas relacionadas à Fase 2, inclusive eventual prolongamento, ampliação ou aceleração do plano, sem antes chamar as entidades sindicais competentes.

O descumprimento poderá gerar multa de R$ 10 mil por trabalhador dispensado. 

Empresa terá de detalhar demissões

Além de suspender os efeitos dos desligamentos, a Justiça determinou que a companhia apresente uma radiografia da reestruturação.

Em até 48 horas, deverá informar quais unidades foram fechadas, quantos empregados foram desligados em cada estabelecimento, o total de trabalhadores afetados pela Fase 2, as etapas ainda previstas e as alternativas de realocação analisadas. 

A empresa também deverá fornecer, sob sigilo, uma relação nominal dos trabalhadores envolvidos, com informações como estabelecimento de lotação, função, remuneração, data da dispensa e valores rescisórios apurados ou pagos. 

A magistrada determinou ainda a preservação de e-mails, mensagens corporativas, documentos de Recursos Humanos, planilhas, registros de rescisões, backups e outros dados relacionados à elaboração e execução do plano de reestruturação.

A eventual destruição ou não preservação desse material poderá resultar em multa de R$ 100 mil por dia, inicialmente limitada a R$ 5 milhões. 

Recuperação judicial

A crise ocorre no momento em que o Grupo Casas Bahia também busca proteção contra credores. Conforme registrado na decisão trabalhista, a companhia apresentou no domingo (16) pedido de recuperação judicial à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. 

Ao analisar a situação financeira da empresa, a Justiça do Trabalho apontou a existência de uma crise econômico-financeira efetiva. A decisão menciona capital circulante líquido e patrimônio líquido negativos, além de um prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões registrado no segundo trimestre de 2026.

Desse resultado, segundo informações apresentadas pela própria companhia e reproduzidas no processo, R$ 9,1 bilhões decorreram de eventos não recorrentes e sem efeito no caixa durante o trimestre. 

Apesar da situação, a magistrada considerou possível manter provisoriamente os contratos sem determinar a reabertura das 298 lojas e sem impedir que a empresa prossiga com sua reorganização.

A medida tem caráter provisório e poderá ser revista depois que a Casas Bahia apresentar sua manifestação. A própria decisão esclarece que ainda não existe julgamento definitivo sobre a nulidade das demissões, eventual estabilidade dos funcionários ou responsabilidade por danos coletivos. 

A Justiça também determinou a realização prioritária de audiência de conciliação, com participação da CNTC, do Grupo Casas Bahia, das entidades sindicais diretamente interessadas e do Ministério Público do Trabalho.

Mobilização Bancária

Bancários de MS param por 24 horas nesta quinta após impasse com bancos

Em Campo Grande e em todo o Estado, 88,82% dos votantes aprovaram a paralisação; categoria cobra reajuste salarial, benefícios e melhores condições de trabalho.

19/08/2026 17h31

Mobilização dos bancários antecede paralisação de 24 horas marcada para esta quinta-feira (20).

Mobilização dos bancários antecede paralisação de 24 horas marcada para esta quinta-feira (20). Foto: Divulgação.

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Os bancários de Mato Grosso do Sul vão paralisar as atividades por 24 horas nesta quinta-feira (20), como parte de uma mobilização nacional da categoria em meio ao impasse nas negociações com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). Em Campo Grande e em todo o Estado, a suspensão dos trabalhos foi aprovada por 88,82% dos participantes de uma assembleia realizada nesta semana.

A mobilização ocorre em meio à Campanha Nacional dos Bancários de 2026 e tem como objetivo pressionar as instituições financeiras por avanços nas negociações.

Entre as principais reivindicações estão aumento real dos salários, reajuste dos benefícios, valorização da Participação nos Lucros e Resultados (PLR), melhores condições de trabalho e novas contratações.

A paralisação foi aprovada em assembleia virtual realizada na noite de segunda-feira (17) pelos trabalhadores da base do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Campo Grande e Região (SEEBCG-MS).

Na votação, 97,76% dos participantes rejeitaram a proposta apresentada pela Fenaban, enquanto 88,82% aprovaram a paralisação das atividades durante todo o dia 20 de agosto, acompanhada de manifestações.

A mobilização em Mato Grosso do Sul faz parte do Dia Nacional de Paralisação, organizado por entidades representativas dos bancários em diferentes regiões do país.

Negociações começaram em julho

As negociações entre a categoria e a Fenaban começaram em 2 de julho. Desde então, representantes dos trabalhadores e dos bancos vêm discutindo a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho e as reivindicações da campanha salarial deste ano.

O movimento ganhou força depois da sétima rodada de negociação. Na ocasião, conforme as entidades sindicais, a Fenaban não apresentou um índice de reajuste para salários e demais verbas e colocou na mesa propostas que provocaram reação dos trabalhadores.

Entre elas estava a possibilidade de criação de três faixas salariais com reajustes diferenciados, sem definição dos percentuais e dos critérios que seriam utilizados em cada grupo.

Outro ponto contestado foi a proposta de congelamento do piso de ingresso, que deixaria sem reajuste o salário inicial de novos bancários.

A rejeição foi expressiva também em outras regiões. Na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, 97,66% dos participantes votaram contra a proposta apresentada pela Fenaban e 89,34% aprovaram a paralisação desta quinta-feira.

Bancos recuam, mas paralisação é mantida

Depois das assembleias que aprovaram a mobilização, representantes dos trabalhadores e dos bancos voltaram à mesa de negociação na terça-feira (18).

Na nova rodada, a Fenaban recuou das propostas de reajustes diferenciados por faixas salariais e de congelamento do piso de ingresso, dois dos pontos que haviam provocado maior resistência entre os trabalhadores.

O recuo, entretanto, não foi suficiente para interromper a mobilização. As entidades sindicais mantiveram a paralisação desta quinta-feira e cobram avanços nos demais pontos da campanha.

A principal discussão continua relacionada à remuneração. Os trabalhadores reivindicam aumento real dos salários e das demais verbas, incluindo PLR, vale-alimentação e vale-refeição, além da valorização do piso salarial.

A categoria também defende a criação de um piso para trabalhadores da área de tecnologia da informação.

Categoria cobra contratações e melhores condições

A campanha salarial não se restringe às questões financeiras. Os bancários também reivindicam mudanças nas condições de trabalho dentro das instituições.

Entre as demandas estão o combate às chamadas metas abusivas, medidas contra o assédio no ambiente profissional e restrições ao monitoramento permanente dos funcionários por sistemas tecnológicos utilizados para acompanhar produtividade e resultados.

Os sindicatos afirmam ainda que é necessário ampliar o número de trabalhadores nas instituições financeiras. A reivindicação por novas contratações é apresentada como uma forma de reduzir a sobrecarga dos funcionários e, ao mesmo tempo, diminuir filas e melhorar o atendimento aos clientes.

Outro eixo da campanha envolve igualdade de oportunidades. A categoria reivindica medidas para reduzir diferenças salariais e ampliar as possibilidades de ascensão profissional para mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e integrantes de outros grupos historicamente sub-representados.

Na área de tecnologia, uma das propostas defendidas pelos trabalhadores é o fortalecimento de programas de qualificação e a ampliação da presença de mulheres nos departamentos de TI das instituições financeiras.

Bancários citam lucro bilionário do setor

Para justificar a cobrança por aumento real e melhores condições de trabalho, os sindicatos contrapõem as reivindicações aos resultados financeiros apresentados pelo setor bancário.

Dados divulgados pelas entidades representativas apontam que os bancos brasileiros registraram lucro de R$ 171 bilhões em 2025, dos quais aproximadamente R$ 124 bilhões ficaram concentrados nas cinco maiores instituições financeiras do país.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de Campo Grande-MS e Região, Neide Rodrigues, argumenta que os resultados demonstram que as instituições têm condições financeiras de atender às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de Campo Grande-MS e Região, Neide Rodrigues, destacou que os lucros registrados pelos bancos demonstram, na avaliação da categoria, que as instituições financeiras têm condições de atender às reivindicações dos trabalhadores.

Segundo ela, os resultados são fruto do trabalho dos bancários e reforçam a cobrança por valorização e ganho real na campanha salarial.

Sindicatos apontam fechamento de agências

A redução da estrutura física das instituições financeiras também está entre as preocupações apresentadas pela categoria durante a campanha.

Conforme dados divulgados pelas entidades sindicais, o Brasil tinha 22.786 agências bancárias em 2015. Em 2026, o número teria caído para 13.291, uma redução de aproximadamente 42% em pouco mais de uma década.

Nos bancos privados, de acordo com os sindicatos, a redução da rede física teria chegado a 60%. Somente entre janeiro e maio deste ano, 941 agências teriam encerrado as atividades.

As entidades também afirmam que, desde 2025, o setor bancário acumula a eliminação de aproximadamente 93,3 mil postos de trabalho.

Atualmente, segundo os números apresentados pela categoria, 2.649 municípios brasileiros não possuem agência bancária pública ou privada, quantidade equivalente a cerca de 48% das cidades do país.

Para os sindicatos, a redução da presença física dos bancos afeta principalmente os clientes que têm maior dependência do atendimento presencial, entre eles idosos, pessoas de baixa renda e pequenos comerciantes.

Paralisação não é greve por tempo indeterminado

Apesar da mobilização nacional, a decisão tomada pelos bancários é, neste momento, por uma paralisação de 24 horas, e não por uma greve por tempo indeterminado.

Em Campo Grande e região, a interrupção está prevista para esta quinta-feira (20), enquanto as negociações entre a categoria e a Fenaban continuam.

Com a mobilização, clientes que pretendem procurar atendimento presencial devem ficar atentos à possibilidade de alteração no funcionamento das unidades atingidas pelo movimento.

A paralisação será utilizada pela categoria como instrumento de pressão por uma nova proposta dos bancos.

Mesmo após o recuo da Fenaban em relação ao reajuste por faixas e ao congelamento do piso de ingresso, os representantes dos trabalhadores mantêm a cobrança por avanços nas cláusulas econômicas e nas condições de trabalho.

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