Economia

Energia

MS pode ter o gás natural mais barato do Brasil

Se por um lado a abertura do mercado representa um risco de perda de receita com ICMS sobre a importação, por outro torna o Estado competitivo

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O marco regulatório do gás, o Projeto de Lei 4.476/2020 quer possibilitar a abertura do mercado. O mercado hoje dominado pela Petrobras deve ser aberto para várias empresas, o que deve dificultar a medição do volume que passa pelos dutos. 

Na prática, o Estado perde em arrecadação, mas ganha competitividade, porque pode oferecer o gás mais barato do País.

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A constatação é do secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Jaime Verruck. Segundo ele, apesar da queda na arrecadação com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do gás natural, o PL traz desenvolvimento.

“Primeiro nós somos favoráveis ao PL do gás. A gente tem de olhar sob uma perspectiva de desenvolvimento, então teremos impacto sim, porque temos a perspectiva na regulamentação, que é a queda do preço do gás. Com o preço do gás caindo diretamente, nós teríamos uma diminuição da arrecadação. Um outro ponto que muda é a relação compra/molécula/preço, que faz com que Mato Grosso do Sul tenha potencial de ter o gás mais barato do País com a compra direta da Bolívia. Estamos olhando isso como uma oportunidade de trazer para Mato Grosso do Sul indústrias intensivas de gás”, contextualiza Verruck.

O plenário do Senado aprovou o projeto no dia 10 de dezembro, como houve modificações no texto original, a proposta volta à Câmara dos Deputados para nova análise e apreciação.

O PL do Gás vai substituir a legislação atual sobre o tema (Lei 11.909, de 2009). O projeto substitui o modelo jurídico atual para exploração do serviço de transporte de gás natural e para a construção de gasodutos, trocando a concessão (modelo em que a empresa precisa vencer um leilão promovido pelo governo) pela autorização – quando a empresa apresenta um projeto após a chamada pública e aguarda a aprovação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).  

Conforme informações da Agência Senado, o texto também prevê mecanismos para viabilizar a desconcentração do mercado de gás, no qual atualmente a Petrobras participa com 100% da importação e do processamento e cerca de 80% da produção. 

A ANP deverá acompanhar o mercado para estimular a competitividade, usando mecanismos como cessão compulsória de capacidade de transporte, escoamento da produção e processamento, obrigação de venda, em leilão, de parte dos volumes de comercialização 

De acordo com o relator da matéria no Senado, Eduardo Braga (MDB-AM), destravar o mercado do gás natural é muito importante para o Brasil. “O País não pode ficar para trás do resto do mundo que adotou o gás natural como a fonte de energia para a transição de uma matriz energética de base fóssil para fontes limpas e renováveis”, disse.  

Braga ainda explicou que hoje esse combustível já representa 12% da matriz energética do País e que estimativas do BNDES apontam para a potencial duplicação da oferta interna de gás natural nos próximos 10 anos, originários principalmente da produção do pré-sal.

QUEDA

O ICMS do gás natural já representou 30% da arrecadação de Mato Grosso do Sul. Mesmo em queda, o volume, que é importado da Bolívia e nacionalizado em Mato Grosso do Sul, gerou o montante de R$ 1,1 bilhão para os cofres do Estado no ano passado.  

Segundo o secretário, com o novo mercado de gás natural, a queda da arrecadação já era esperada. “O impacto na arrecadação é esperado com o novo mercado e mesmo atualmente já tem tido uma redução. E agora definido que a importação desse gás é de Mato Grosso do Sul, desde que a empresa esteja aqui instalada, estamos vendo como uma oportunidade para avaliar como o Estado pode se apropriar de uma matriz, onde o gás sul-mato-grossense poderá ser um dos mais baratos do Brasil”, considera Verruck.

VENDA

Outra mudança que traz impacto para Mato Grosso do Sul é o anúncio da venda da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG). A Petrobras iniciou a etapa de divulgação de oportunidade no dia 23 de dezembro.

Nesta etapa inicial, a Petrobras divulgará um documento com as principais informações sobre a oportunidade, assim como os critérios de elegibilidade para seleção de participantes. A estatal é dona de 51% da TBG e pretende se desfazer de toda a participação.

Para o secretário Jaime Verruck, a venda da TBG vai influenciar diretamente no valor do gás natural. “Isso só demonstra as grandes mudanças pelas quais o mercado de gás vem passando, o objetivo do governo federal é a queda de preço no mercado”, justificou.

A venda da TBG faz parte do termo de compromisso de cessação (TCC), assinado pela Petrobras com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Jaime Verruck destacou que, com a venda, a Petrobras deverá abrir o espaço de no mínimo 10 milhões de metros cúbicos (m³), criando concorrência no mercado.

“A venda da TBG é mais uma ação de desregulamentação do mercado, criando concorrência no mercado de gás no Brasil, isso é fundamental. Essa ação vai fortalecer a aquisição direta de molécula com a Bolívia”, considerou.

Ainda de acordo com o secretário, em breve a gestão estadual vai até a Bolívia para definir estratégias do acordo. “Estamos esperando a nova definição política da Bolívia em termos de gás. Vamos começar a definir estratégias e estimular a venda direta da Bolívia para Mato Grosso do Sul, para assim não ficarmos dependentes do mercado”, concluiu.  

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Levantamento

Em MS, 10% dos mais ricos concentram mais de um terço de toda a renda do Estado

Avanço econômico do Estado não foi acompanhado por uma redução significativa da desigualdade social

10/05/2026 15h30

Renda per capita dos 10% mais ricos de MS é de R$ 8.494

Renda per capita dos 10% mais ricos de MS é de R$ 8.494 FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Mato Grosso do Sul ficou mais rico em 2025, mas a desigualdade econômica continua sendo realidade no Estado. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na PNAD Contínua mostraram que o rendimento médio per capita (por pessoa) do 1% mais rico da população é 47 vezes maior que o registrado entre os 10% mais pobres. 

Segundo a pesquisa, em 2025, o rendimento médio per capita total em MS foi de R$ 2.369, o maior já registrado na série histórica. Isso coloca o Estado em 8º lugar em comparação às outras UFs do Brasil. 

A renda per capita é obtida pela soma de todas as rendas de uma família que mora em um domicílio, dividido pelo número de moradores. Assim, chega-se em um valor médio a partir das rendas adquiridas. 

A população 1% mais rica do Estado tem rendimento médio per capita de R$ 18.932 e para os 10% mais ricos,  o valor é de R$ 8.494. Em contrapartida, a parcela mais pobre da população vive com rendimento mensal de R$ 403 por pessoa. 

Na prática, isso significa que, enquanto uma parcela dos moradores sul-mato-grossenses vive com R$ 13 reais por dia, a elite econômica do Estado supera os R$ 18 mil mensais por integrante da família. 

O levantamento mostrou ainda que os 10% mais ricos do Estado concentram 36,3% da massa total dos rendimentos, que ficou em R$ 6,75 bilhões. Já os 10% mais pobres ficaram com apenas 1,7% da renda total estadual. 

Para se ter uma dimensão, para alcançar a mesma fatia de renda apropriada pelos 10% mais ricos é necessário somar os rendimentos de quase 70% dos mais pobres. 

Em números, o salário médio da parcela mais rica do Estado é de R$ 31.079, enquanto da parcela mais pobre é de R$ 750.

Estado mais rico

Apesar da desigualdade, Mato Grosso do Sul registrou, em 2025, o maior rendimento domiciliar per capita da série histórica da pesquisa, chegando a R$ 2.369. 

A massa total de rendimentos mensais também bateu recorde e alcançou R$ 6,75 bilhões. Desse total, o 1% mais rico, sozinho, concentra R$ 551 milhões por mês, o equivalente a 8,2% de toda a renda gerada no Estado. Já entre os 10% mais ricos, a soma equivale a R$ 2,45 bilhões mensais. 

A renda cresceu, mas a desigualdade mudou pouco nos últimos anos. O índice de Gini, que é o indicador utilizado para medir a concentração de renda, passou de 0,454 em 2024 para 0,457 em 2025. Quanrto mais próximo de 1, maior a desigualdade social. 

A pesquisa também mostrou que houve melhora na renda das faixas mais pobres ao longo da série histórica. Em 2012, início da pesquisa, os 10% mais pobres tinham rendimento per capita médio de R$ 305. Em 2025, o valor chegou a R$ 403, já corrigido pela inflação. 

As principais fontes de renda que compõem o rendimento mensal também mudou. Os rendimentos vindos de todos os trabalhos são a maioria no percentual, chegando a 80,7% em 2025, crescimento em relação a 2024, que foi de 79,5%. 

A participação da aposentadoria nos rendimentos também mudou, saindo de 11,2% em 2012, 13,3% em 2024 e caindo para 12,6% em 2025. 

Também caiu a participação da renda de programas sociais na composição do rendimento total. Em 2020, com a pandemia, houve um aumento significativo (5,4%), mas com a retomada do mercado de trabalho, o percentual diminuiu a partir de 2021, chegando a 2,9% em 2025, valor menor que o do ano passado, que ficou em 3,2%. 
 

pressão inflacionária

'Tempestade perfeita' para alimentos preocupa e é risco também para 2027

Há probabilidade de que o El Niño de 2026 seja forte em meados do ano, coincidindo com período seco no Sudeste, combinação que pode adicionar até 2 pontos porcentuais à alta do IPCA no acumulado do biênio

10/05/2026 10h00

 Seis itens figuram no topo da lista de maior peso, com elevada sensibilidade ao aumento do petróleo e repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque

Seis itens figuram no topo da lista de maior peso, com elevada sensibilidade ao aumento do petróleo e repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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Para além do choque dos efeitos da guerra, principalmente nos combustíveis, outro grupo começa a aparecer no radar como fonte de pressão inflacionária maior do que o previsto este ano e também no próximo.

Segundo economistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a dinâmica benigna dos alimentos observada em 2025 pode dar lugar a dois anos seguidos de alta acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), impondo ainda mais dificuldade à tarefa do Banco Central de trazer o indicador à meta de 3%.

Mais do que a escalada dos preços de fertilizantes causada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, que bloqueou o escoamento de parte relevante da produção do insumo, entram na conta também intempéries climáticas que têm potencial de causar uma tempestade perfeita para a inflação.

Em primeiro lugar, há a probabilidade não desprezível de que o El Niño de 2026 seja forte. O evento, que ocorre em meados do ano, coincidiria com o período seco na região Sudeste.

Esta seria uma combinação que, em estimativas como a da Warren Investimentos de um cenário extremo, pode adicionar até 2 pontos porcentuais à alta do IPCA no acumulado do biênio.

Grupo de maior peso no índice oficial de inflação, que mede a variação de preços de uma cesta de consumo de famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, a parte de alimentação e bebidas representa mais de um quinto (21,3%) do IPCA.

Esse porcentual sobe a 24,3% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), cuja cesta abrange famílias com renda mensal entre um e cinco salários mínimos.

O estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, relata que os clientes do agronegócio da instituição estão bastante preocupados com o aumento dos fertilizantes.

"Eles já estão tentando travar preços em patamar mais alto. Uma parte diminui em lucro, e a outra é repassada. Teremos alimentos mais caros pela frente porque não tem como fugir da alta desse insumo."

Segundo estudo da Warren, seis itens figuram no topo da lista de maior peso que, além de possuírem elevada sensibilidade ao aumento do petróleo, mostram repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque. São eles:

  • Carnes;
  • Carnes e peixes industrializados;
  • Aves e ovos;
  • Leite e derivados;
  • Panificados, e
  • Óleos e gorduras.

Mas também há itens alimentares nos grupos de repasse com média velocidade, que ocorre entre dois e quatro meses, tais como: cereais, leguminosas e alimentação fora de casa, e, ainda, no grupo de repasse lento, que se dá cinco meses ou mais após o choque: farinha, féculas e massas e bebidas e infusões.

Até 2027

Assim, aponta Andréa Angelo, estrategista de inflação da plataforma de investimentos, estes preços representam uma parte significativa do impacto total - calculado em 1,7 ponto porcentual até 2027 -, do grupo de preços sensíveis à elevação do barril de óleo tipo Brent no IPCA.

Os efeitos, explica Angelo, vêm dos custos de deslocamento dos produtos, principalmente no leite, e também do avanço dos fertilizantes - que, no cenário da Warren, se concentram mais em 2026 do que no ano seguinte.

"Alimentos in natura capturam o efeito de fertilizantes mais caros de forma rápida. Mas na parte de grãos e commodities, dependendo de quanto a safra 2026/2027 encarecer devido ao choque, o impacto pode ser mais significativo em 2027", ponderou.

Essa é a visão de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, que está mais preocupado com a dinâmica dos alimentos no próximo ano do que no atual. Em suas estimativas, o IPCA de alimentação e bebidas pouco vai desacelerar entre 2026 e 2027, de 5,4% para ao redor de 5%, mas os riscos são para cima.

"Esse ano teremos uma pressão sazonal normal de alimentos, mas esse combo que pode afetar 2027 é mais preocupante, com o efeito adicional de fertilizantes que vamos precisar acompanhar, porque depende do andamento da guerra", disse Vale.

Caso o El Niño de fato escale para forte - possibilidade considerada por entidades como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU, e o Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo -, coincidir com o déficit hídrico na fase crítica do milho da segunda safra, de abril a junho, e o câmbio se depreciar, haverá um impacto de 0,39 a 0,49 ponto na inflação ao mês, estima o economista.

Nessa hipótese, a inflação acumulada em 12 meses de alimentação pode bater em 10% ainda este ano, diz. "Ainda não é o cenário mais provável, mas tem uma possibilidade não trivial." Mesmo o cenário-base é desafiador para o BC, apontou, por adicionar mais um elemento de risco em um IPCA já pressionado.

Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal aponta que, segundo seus cálculos, anos com formação do El Niño registraram inflação anual média de alimentos de 11,6%. Sem o fenômeno climático, o dado ficou em 6,1%.

"Culturas de safra curta, como legumes, verduras, frutas, podem ser impactadas. E aí teremos sim uma inflação maior de alimentos no segundo semestre", prevê. Se o evento começar em junho, o efeito nos preços fica mais concentrado este ano, diz Leal.

Caso o início se dê em agosto, a produção de alimentos in natura seria mais afetada em 2027. Nas estimativas da G5, a variação dos alimentos no domicílio vai avançar de 5% este ano a 7% no próximo.

 

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