Economia

MATO GROSSO DO SUL

Queda da importação de gás natural reduz arrecadação e pressiona contas públicas

Redução contínua do volume e do valor do gás importado ao longo da última década fez a base do ICMS no Estado encolher

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A queda da importação de gás natural em Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas um movimento do comércio exterior e passou a representar um problema fiscal concreto para o Estado.

Ao longo da última década, a redução contínua do volume e do valor do gás importado, historicamente vindo da Bolívia, provocou um encolhimento da base de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que tem alíquota de 17% incidente sobre o combustível e sempre teve peso relevante nas receitas estaduais.

Dados da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), com base em informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), mostram que, embora o gás natural siga como o principal item da pauta de importações, sua participação vem diminuindo de forma consistente.

Em 2024, o gás natural respondeu por 41,3% do total importado pelo Estado, mas registrou retração de 11,1% em relação a 2023. No acumulado de 2025, a queda superou 30%.

Conforme já publicado pelo Correio do Estado, essa retração afeta diretamente o caixa do governo estadual. O governador Eduardo Riedel já reconheceu que a redução do volume de gás importado tem impacto direto na arrecadação. 

“A crise de receita do Estado está vinculada à diminuição do volume de gás importado da Bolívia. Porque esse ICMS é integral de Mato Grosso do Sul. Nós vamos fechar com R$ 1,2 bilhão de arrecadação a menos pela diminuição do [volume de] gás”, afirmou Riedel em entrevista ao Correio do Estado.

A tendência de queda não é recente. Em meados da década passada, o gás natural chegou a representar mais de 70% de todas as importações realizadas por Mato Grosso do Sul.

Em 2015, o valor importado superava US$ 2,2 bilhões por ano, com volumes acima de 8 milhões de toneladas, garantindo forte arrecadação ao Estado. A partir de 2017, no entanto, esse cenário começou a se alterar, com quedas graduais tanto do volume quanto do valor financeiro.

Em 2019, a retração se tornou mais evidente, especialmente no volume importado. Em 2020, o recuo foi maior e o valor caiu para cerca de US$ 961 milhões, contra mais de US$ 1,26 bilhão no ano anterior, acompanhado de redução expressiva na quantidade de toneladas importadas. Nos anos seguintes, mesmo com oscilações de preço, Mato Grosso do Sul não conseguiu retomar os patamares históricos.

Segundo o secretário Jaime Verruck, titular da Semadesc, a redução do gás boliviano é um movimento estrutural. “A Bolívia vem reduzindo gradativamente a oferta de gás, e isso impacta diretamente Mato Grosso do Sul, tanto do ponto de vista energético quanto da arrecadação”, afirmou.

e acordo com ele, a queda no volume importado diminui a base de incidência do ICMS e pressiona o equilíbrio fiscal do Estado.

Arrecadação com o gás natural era bilionária na década passadaArrecadação com o gás natural era bilionária na década passada - Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

RETRAÇÃO

Considerando a alíquota de 17% de ICMS, Mato Grosso do Sul arrecadava cerca de US$ 389 milhões (R$ 1,373 bilhão, considerando que o dólar era cotado a R$ 3,53) com a importação de gás natural em 2015, quando o valor importado somava US$ 2,289 bilhões. 

Com a redução do volume e do valor importado, essa arrecadação caiu para aproximadamente US$ 137 milhões (R$ 739 milhões, considerando que o dólar era cotado a R$ 5,40) em 2025, com base em um valor de US$ 807,9 milhões, o que representa uma perda anual estimada em US$ 252 milhões (R$ 1,360 bilhão) na base do imposto.

O montante ficou significativamente abaixo do registrado em 2024, quando o Estado importou cerca de US$ 1,160 bilhão em gás natural. Naquele ano, a arrecadação com ICMS atingiu US$ 197,2 milhões (o equivalente a R$ 1,063 bilhão), resultando em uma perda estimada de R$ 295,7 milhões na comparação entre os dois períodos.

Ao longo de 10 anos, Mato Grosso do Sul saiu de um patamar de importações bilionárias de gás para valores próximos ou inferiores a US$ 1 bilhão ao ano. Essa redução acumulada representa perda significativa de arrecadação, especialmente considerando a alíquota de 17% do ICMS incidente sobre o combustível.

Além do impacto direto, há reflexos indiretos na indústria, que depende do gás como insumo e acaba reduzindo produção e investimentos.

O cenário tende a se agravar nos próximos anos. Conforme já alertou o Correio do Estado, a importação de gás da Bolívia pode ser encerrada até 2030. Para Riedel, a perspectiva exige planejamento.

“Preocupa, com certeza. Nós já estamos trabalhando em alternativas, conversando com as empresas, conversando sobre o fluxo de gás invertido, se possível for. A MSGás e o secretário Jaime [Verruck] têm buscado discutir com o mercado de gás toda essa situação. E, claro, a rede de gás está consolidada na Estado e em ampliação, e essa rede será utilizada”, disse Riedel sobre a perspectiva do fim do fornecimento do gás boliviano até 2030.

Diante desse contexto, o governo passou a apostar no gás argentino como alternativa estratégica. A possibilidade de importação a partir da Argentina é vista como uma chance de recompor parte das perdas acumuladas ao longo da última década.

“O gás argentino pode ser uma solução importante para garantir competitividade à indústria e também para recuperar receitas que o Estado vem perdendo”, afirmou Verruck.

A avaliação do governo é de que a diversificação da origem do gás é fundamental não apenas para garantir segurança energética, mas também para preservar a arrecadação. Sem uma nova fonte de suprimento, Mato Grosso do Sul corre o risco de perder uma das suas mais tradicionais bases de receita.

Enquanto a nova rota não se consolida, o Estado segue convivendo com um cenário de incerteza fiscal. 

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logística

Leilão da Malha Oeste destrava retomada de ferrovias para megafábricas de celulose

Com R$ 89,2 bilhões previstos na concessão, governo federal impulsiona construção de 248 km de shortlines em MS

17/02/2026 08h30

A Malha Oeste é a principal estratégia do governo estadual para melhorar a logística em MS

A Malha Oeste é a principal estratégia do governo estadual para melhorar a logística em MS marcelo victor

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O anúncio do leilão da Malha Oeste pelo governo federal consolidou o ambiente regulatório necessário para acelerar a construção das três linhas férreas privadas que vão atender as indústrias de celulose instaladas em Mato Grosso do Sul. Juntas, as shortlines somam 248 quilômetros de extensão e mais de R$ 5 bilhões em investimentos, com a função de alimentar a ferrovia estruturante e garantir o escoamento da produção até os portos marítimos.

Conforme já publicou o Correio do Estado, a concessão da Malha Oeste, trecho de 1.593 quilômetros entre Corumbá e Mairinque (SP), prevê R$ 89,2 bilhões em investimentos ao longo de 57 anos. Desse total, R$ 35,7 bilhões serão destinados a investimentos diretos, como trilhos, locomotivas e edificações, e R$ 53,5 bilhões à operacionalização, incluindo manutenção e veículos.

A perspectiva de retomada definitiva da ferrovia estruturante dá sustentação econômica às shortlines privadas, concebidas justamente para conectar as plantas industriais à malha nacional.

A ferrovia em estágio mais avançado é a que atenderá o Projeto Sucuriú, da Arauco, em Inocência. O traçado prevê 46 quilômetros até a Malha Norte. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), 28% da área necessária já foi desapropriada e 1% da estrutura física estava concluída desde dezembro do ano passado, quando começaram os trabalhos. O contrato de adesão foi assinado em abril do ano passado.

A infraestrutura foi projetada para movimentar até 3,5 milhões de toneladas por ano de celulose, com operação de trens de até 100 vagões, e investimentos estimados em R$ 2,8 bilhões.

Para viabilizar o fluxo de carga, a Arauco firmou contrato de R$ 770 milhões no início do ano com a montadora Randoncorp para o fornecimento de 750 vagões e 20 locomotivas. Os equipamentos deverão ser entregues ao longo de 19 meses, entre maio de 2026 e novembro de 2027.

No campo ambiental, as licenças prévia e de instalação foram concedidas em novembro do ano passado, com validade até 2029.

Mapa ferroviário de MS

Ferrovias já implantadas e planejadas no Estado

A Malha Oeste é a principal estratégia do governo estadual para melhorar a logística em MS

OUTROS PROJETOS

Outro projeto em andamento é a construção da linha férrea entre Três Lagoas e Aparecida do Taboado, com extensão de 88,9 quilômetros, pela Eldorado Celulose. O contrato de adesão foi assinado em dezembro de 2021. A autorização federal foi concedida três anos depois, em dezembro de 2024, e a instalação deve começar até dezembro deste ano, quando expira o prazo estabelecido.

A licença de autorização de operação vai até 2031, e o prazo para entrada definitiva em operação é dezembro de 2033.

Para viabilizar o empreendimento, a Eldorado recorreu ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aprovou em dezembro passado o valor de R$ 1,05 bilhão. O apoio ocorre por meio da subscrição de R$ 1 bilhão em debêntures de infraestrutura, com emissão coordenada pela própria instituição, além de financiamento de R$ 50 milhões pela linha Finem.

O pedido de licença ambiental foi feito em 2023, e a licença prévia foi concedida em julho de 2024, com validade até 2028.

O terceiro projeto de shortline é da Suzano. Autorizado pelo governo federal em março de 2023, o traçado prevê 111,7 quilômetros de ferrovia entre Três Lagoas e Aparecida do Taboado, com previsão de investimentos de R$ 1,27 bilhão.

Segundo a ANTT, a licença prévia começa a valer em março deste ano, a licença de instalação vai até março de 2028 e o prazo para entrada em operação está previsto para junho de 2032.

No entanto, o processo de licença ambiental no Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), aberto em 2024, ainda não resultou na concessão das licenças prévia e de instalação, cenário diferente do observado nos projetos da Arauco e da Eldorado.

De acordo com o Ministério dos Transportes, “por se tratar de shortlines, essas ferrovias têm a função de alimentar a malha estruturante – no caso, a Malha Oeste – fortalecendo o fluxo de cargas e potencializando o escoamento da produção até os portos”, enfatizando, por meio de nota ao Correio do Estado, que “as autorizações em questão [para construção das linhas férreas privadas] não reduzem a demanda da Malha Oeste. Ao contrário, elas se conectam tanto à Malha Oeste quanto à Malha Norte, ampliando a integração da rede”.

INVESTIDORES

Após estruturar o modelo da concessão, o governo federal iniciou a etapa de apresentação do projeto a investidores. Conforme publicado pelo Correio do Estado na semana passada, a Malha Oeste será oferecida em um roadshow fechado a investidores chineses e brasileiros, como forma de testar o apetite do mercado antes da realização do leilão.

Conforme o titular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, além do roadshow nacional, Campo Grande também receberá uma apresentação oficial do projeto no dia 5 de março. O encontro reunirá representantes do governo federal, estadual e potenciais interessados, reforçando o protagonismo de Mato Grosso do Sul na articulação da ferrovia.

O cronograma segue avançando e a expectativa do governo é levar o projeto à B3 ainda neste ano. “No dia 5 de março, nós vamos fazer uma reunião em Campo Grande para eles apresentarem o projeto também. E o ministro falou para o governador aqui, agora, que vai para a B3 aí desse ano, a expectativa é em novembro”.

A modelagem prevê a divisão da ferrovia em blocos independentes, permitindo que grupos interessados escolham trechos específicos para exploração. A estratégia busca ampliar a competitividade e reduzir riscos de um empreendimento de grande porte.

O leilão, inicialmente previsto para julho, deve ocorrer em novembro, conforme declaração da ministra do Planejamento, Simone Tebet, na semana passada.

Com a concessão estruturada e as shortlines em fase de implantação, a Malha Oeste passa a ocupar papel central na nova configuração logística de Mato Grosso do Sul.

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Quebradeira do agro

BNDES aprova R$ 7,5 bilhões para renegociações de dívidas de produtores rurais

Ao todo, segundo o BNDES, 27.796 operações foram contratadas, alcançando produtores de 754 municípios de 22 Estados

16/02/2026 15h45

Divulgação

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O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 7,5 bilhões em operações de renegociação de dívidas rurais no âmbito do programa BNDES Liquidação de Dívidas Rurais, informou o banco de fomento em nota.

Ao todo, a linha possuía R$ 12 bilhões em recursos do Tesouro a serem desembolsados em prorrogações ou liquidação de dívidas de produtores rurais e cooperativas agropecuárias afetados por eventos climáticos adversos.

O programa foi aberto pelo BNDES em 16 de outubro de 2025 dentro do escopo da Medida Provisória 1.314, que criou uma linha de crédito subsidiada pelo Tesouro e operada pelo BNDES, e teve vigência até 10 de fevereiro.

Ao todo, segundo o BNDES, 27.796 operações foram contratadas, alcançando produtores de 754 municípios de 22 Estados. O tíquete médio dos contratos foi de R$ 270 mil.

“Com esse programa, o governo do presidente Lula permitiu a produtores rurais, pequenos e grandes, reorganizar suas contas, quitar débitos e ter as condições para voltar a produzir. E, ao contribuir para a retomada da produção, o programa também ajudou o país a registrar uma queda no valor da cesta básica no segundo semestre de 2025, com impactos positivos na inflação e na mesa das famílias brasileiras”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, na nota.

Do montante, R$ 4,8 bilhões de operações foram aprovadas para agricultores familiares e produtores de médio porte, enquadrados no Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) e no Programa Nacional de Apoio aos Médio Produtores (Pronamp), somando 25.041 operações.

O programa previa reserva de 40% dos recursos para produtores beneficiários do Pronaf e do Pronamp, o equivalente a R$ 4,8 bilhões, valor total alcançado nas operações. Outros R$ 2,7 bilhões foram contratados por demais produtores, totalizando 2 755 operações.

O BNDES Liquidação de Dívidas Rurais dispunha de prazo de pagamento de até nove anos, com um ano de carência.

Os recursos do programa eram direcionados à liquidação ou amortização de operações de crédito rural de custeio e investimento, bem como de Cédulas de Produto Rural - CPR, desde que os produtores tenham sido afetados por eventos climáticos em duas ou mais safras e atendam aos critérios do programa. O programa foi destinado a produtores rurais localizados em municípios com recorrência de eventos climáticos adversos reconhecidos pelo governo federal.

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