Em Campo Grande e em todo o Estado, 88,82% dos votantes aprovaram a paralisação; categoria cobra reajuste salarial, benefícios e melhores condições de trabalho.
Os bancários de Mato Grosso do Sul vão paralisar as atividades por 24 horas nesta quinta-feira (20), como parte de uma mobilização nacional da categoria em meio ao impasse nas negociações com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). Em Campo Grande e em todo o Estado, a suspensão dos trabalhos foi aprovada por 88,82% dos participantes de uma assembleia realizada nesta semana.
A mobilização ocorre em meio à Campanha Nacional dos Bancários de 2026 e tem como objetivo pressionar as instituições financeiras por avanços nas negociações.
Entre as principais reivindicações estão aumento real dos salários, reajuste dos benefícios, valorização da Participação nos Lucros e Resultados (PLR), melhores condições de trabalho e novas contratações.
A paralisação foi aprovada em assembleia virtual realizada na noite de segunda-feira (17) pelos trabalhadores da base do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Campo Grande e Região (SEEBCG-MS).
Na votação, 97,76% dos participantes rejeitaram a proposta apresentada pela Fenaban, enquanto 88,82% aprovaram a paralisação das atividades durante todo o dia 20 de agosto, acompanhada de manifestações.
A mobilização em Mato Grosso do Sul faz parte do Dia Nacional de Paralisação, organizado por entidades representativas dos bancários em diferentes regiões do país.
Negociações começaram em julho
As negociações entre a categoria e a Fenaban começaram em 2 de julho. Desde então, representantes dos trabalhadores e dos bancos vêm discutindo a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho e as reivindicações da campanha salarial deste ano.
O movimento ganhou força depois da sétima rodada de negociação. Na ocasião, conforme as entidades sindicais, a Fenaban não apresentou um índice de reajuste para salários e demais verbas e colocou na mesa propostas que provocaram reação dos trabalhadores.
Entre elas estava a possibilidade de criação de três faixas salariais com reajustes diferenciados, sem definição dos percentuais e dos critérios que seriam utilizados em cada grupo.
Outro ponto contestado foi a proposta de congelamento do piso de ingresso, que deixaria sem reajuste o salário inicial de novos bancários.
A rejeição foi expressiva também em outras regiões. Na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, 97,66% dos participantes votaram contra a proposta apresentada pela Fenaban e 89,34% aprovaram a paralisação desta quinta-feira.
Bancos recuam, mas paralisação é mantida
Depois das assembleias que aprovaram a mobilização, representantes dos trabalhadores e dos bancos voltaram à mesa de negociação na terça-feira (18).
Na nova rodada, a Fenaban recuou das propostas de reajustes diferenciados por faixas salariais e de congelamento do piso de ingresso, dois dos pontos que haviam provocado maior resistência entre os trabalhadores.
O recuo, entretanto, não foi suficiente para interromper a mobilização. As entidades sindicais mantiveram a paralisação desta quinta-feira e cobram avanços nos demais pontos da campanha.
A principal discussão continua relacionada à remuneração. Os trabalhadores reivindicam aumento real dos salários e das demais verbas, incluindo PLR, vale-alimentação e vale-refeição, além da valorização do piso salarial.
A categoria também defende a criação de um piso para trabalhadores da área de tecnologia da informação.
Categoria cobra contratações e melhores condições
A campanha salarial não se restringe às questões financeiras. Os bancários também reivindicam mudanças nas condições de trabalho dentro das instituições.
Entre as demandas estão o combate às chamadas metas abusivas, medidas contra o assédio no ambiente profissional e restrições ao monitoramento permanente dos funcionários por sistemas tecnológicos utilizados para acompanhar produtividade e resultados.
Os sindicatos afirmam ainda que é necessário ampliar o número de trabalhadores nas instituições financeiras. A reivindicação por novas contratações é apresentada como uma forma de reduzir a sobrecarga dos funcionários e, ao mesmo tempo, diminuir filas e melhorar o atendimento aos clientes.
Outro eixo da campanha envolve igualdade de oportunidades. A categoria reivindica medidas para reduzir diferenças salariais e ampliar as possibilidades de ascensão profissional para mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e integrantes de outros grupos historicamente sub-representados.
Na área de tecnologia, uma das propostas defendidas pelos trabalhadores é o fortalecimento de programas de qualificação e a ampliação da presença de mulheres nos departamentos de TI das instituições financeiras.
Bancários citam lucro bilionário do setor
Para justificar a cobrança por aumento real e melhores condições de trabalho, os sindicatos contrapõem as reivindicações aos resultados financeiros apresentados pelo setor bancário.
Dados divulgados pelas entidades representativas apontam que os bancos brasileiros registraram lucro de R$ 171 bilhões em 2025, dos quais aproximadamente R$ 124 bilhões ficaram concentrados nas cinco maiores instituições financeiras do país.
A presidenta do Sindicato dos Bancários de Campo Grande-MS e Região, Neide Rodrigues, argumenta que os resultados demonstram que as instituições têm condições financeiras de atender às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores.
A presidenta do Sindicato dos Bancários de Campo Grande-MS e Região, Neide Rodrigues, destacou que os lucros registrados pelos bancos demonstram, na avaliação da categoria, que as instituições financeiras têm condições de atender às reivindicações dos trabalhadores.
Segundo ela, os resultados são fruto do trabalho dos bancários e reforçam a cobrança por valorização e ganho real na campanha salarial.
Sindicatos apontam fechamento de agências
A redução da estrutura física das instituições financeiras também está entre as preocupações apresentadas pela categoria durante a campanha.
Conforme dados divulgados pelas entidades sindicais, o Brasil tinha 22.786 agências bancárias em 2015. Em 2026, o número teria caído para 13.291, uma redução de aproximadamente 42% em pouco mais de uma década.
Nos bancos privados, de acordo com os sindicatos, a redução da rede física teria chegado a 60%. Somente entre janeiro e maio deste ano, 941 agências teriam encerrado as atividades.
As entidades também afirmam que, desde 2025, o setor bancário acumula a eliminação de aproximadamente 93,3 mil postos de trabalho.
Atualmente, segundo os números apresentados pela categoria, 2.649 municípios brasileiros não possuem agência bancária pública ou privada, quantidade equivalente a cerca de 48% das cidades do país.
Para os sindicatos, a redução da presença física dos bancos afeta principalmente os clientes que têm maior dependência do atendimento presencial, entre eles idosos, pessoas de baixa renda e pequenos comerciantes.
Paralisação não é greve por tempo indeterminado
Apesar da mobilização nacional, a decisão tomada pelos bancários é, neste momento, por uma paralisação de 24 horas, e não por uma greve por tempo indeterminado.
Em Campo Grande e região, a interrupção está prevista para esta quinta-feira (20), enquanto as negociações entre a categoria e a Fenaban continuam.
Com a mobilização, clientes que pretendem procurar atendimento presencial devem ficar atentos à possibilidade de alteração no funcionamento das unidades atingidas pelo movimento.
A paralisação será utilizada pela categoria como instrumento de pressão por uma nova proposta dos bancos.
Mesmo após o recuo da Fenaban em relação ao reajuste por faixas e ao congelamento do piso de ingresso, os representantes dos trabalhadores mantêm a cobrança por avanços nas cláusulas econômicas e nas condições de trabalho.