A consultoria Crédito e Mercado, a mesma que já havia indicado aplicações que resultaram em grandes prejuízos a institutos de previdência de Mato Grosso do Sul, volta ao centro de escândalo financeiro.
Conforme apurou o Correio do Estado, a empresa atuou como intermediária das aplicações feitas por fundos municipais no Banco Master, instituição que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central na terça-feira.
O colapso do banco provocou perdas aos fundos de pensão dos servidores municipais em pelo menos cinco prefeituras em Mato Grosso do Sul. O rombo é estimado em R$ 18 milhões, ampliando o histórico de prejuízos relacionados à atuação da consultoria.
A liquidação do Banco Master causou prejuízo bem superior ao inicialmente estimado em fundos de pensão de servidores públicos municipais no Estado.
Além dos municípios já mencionados em reportagem publicada na edição de ontem – Campo Grande, São Gabriel do Oeste e Angélica – , os institutos de previdência de Fátima do Sul e de Jateí também fizeram aplicações milionárias e agora devem entrar em uma fila para conseguir recuperar estes valores.
Os mais prejudicados são os servidores da prefeitura de Fátima do Sul. O Instituto de Previdência Social dos Servidores Municipais de Fátima do Sul (Iprefsul) tinha R$ 8,093 milhões aplicados no Master no final de setembro.
Isso equivale a 15% de tudo aquilo que o instituto dos servidores tem aplicado no sistema financeiro para bancar o pagamento das aposentadorias.
Servidores de Jateí, cidade vizinha a Fátima do Sul, também apostaram alto nos juros atrativos prometidos pelo banco Master e seus representantes, a consultoria financeira Crédito e Mercado. Eles aplicaram 6,7% de todas as suas economias no Master e no final de setembro estavam com saldo de R$ 2,837 milhões.
Em São Gabriel do Oeste, o saldo era de R$ 3,430 milhões (4,14% das economias do instituto). Os servidores de Angélica estavam com R$ 2,293 milhões (4,74%) e o instituto de Campo Grande estava com saldo de R$ 1,413 milhão no final de setembro (2,99%).
De acordo com um consultor financeiro ouvido pelo Correio do Estado, todos eles haviam aplicado em letras financeiras. Estas aplicações estão praticamente no final da fila e nem mesmo os R$ 250 mil cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) serão devolvidos, explicou o consultor que preferiu não ser mencionado.
O advogado André Borges reiterou que os investimentos não cobertos pelo FGC dificilmente serão ressarcidos.
“Há anos esse banco levanta suspeitas, com produtos agressivos e arriscados. Quem foi neles demonstrou ganância e desconhecimento. Investimentos acima da média do mercado sempre são muito arriscados – isso é bastante divulgado. Os imprudentes agora arcarão com o prejuízo, que poderá e será grande”.
PREJUÍZO
O prejuízo do IMPCG, inclusive, representa o segundo grande calote enfrentado pelo instituto em menos de 15 anos. Como divulgou o Correio do Estado em reportagem publicada ontem, o órgão já havia perdido cerca de R$ 50 milhões em 2013, após a derrocada do Banco Rural.
Agora, repete-se o cenário com uma aplicação de R$ 1,4 milhão no Master, feita por meio de letras financeiras com vencimento apenas em 2029, sem liquidez e sem cobertura do FGC, conforme determina a norma para este tipo de título.
A atuação da Crédito & Mercado, entretanto, é o elemento que mais chama atenção. A consultoria aparece como “vendedora” desses produtos junto a institutos municipais e é citada em diversos episódios anteriores de perdas milionárias.
Conforme apuração do Correio do Estado, foi a mesma empresa que convenceu institutos de pelo menos quatro municípios a aplicarem em fundos privados como Infinity e Texas, ambos também responsáveis por prejuízos às previdências municipais.
Em nota, a empresa afirmou ao Correio do Estado que não possui poder de decisão ou influência.
"A Crédito & Mercado Gestão de Valores Mobiliários Ltda. esclarece que não mantém qualquer vínculo societário, contratual ou operacional com o Banco Master S.A., tampouco possui poder de decisão ou qualquer influência sobre as aplicações financeiras realizadas pelos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) ou por quaisquer de seus clientes".
Ainda em nota, a empresa ressalta que sua atuação se limita à análise técnica de instrumentos, apenas quando demandada pelos RPPS, sem participação em processos de escolha, intermediação, oferta, distribuição ou recomendação de quaisquer produtos financeiros.
"A decisão sobre as aplicações financeiras compete exclusivamente à gestão dos RPPS, responsáveis por definir a alocação dos recursos dos segurados, dentro dos parâmetros de risco e retorno estabelecidos.A escolha de investimentos feita pelas RPPS, se dá através da lista exaustiva de instituições habilitadas a receber recursos publicada pela Secretaria de Previdência (SPREV)".
"Na época das aplicações escolhidas e feitas pelas IPREVs, o Banco Master encontrava-se devidamente autorizado a operar pelo Banco Central do Brasil e detinha rating de crédito BBB, atribuído por agências especializadas, em conformidade com os critérios regulatórios de avaliação de risco", reitera a nota.
INVESTIMENTOS
O instituto de Tacuru, por exemplo, havia investido em torno de R$ 2 milhões no Fundo Texas I e agora o saldo é da ordem de 10% daquele montante. Quando da aplicação, cada cota valia em torno de R$ 7 mil. Agora, não vale mais de R$ 920,00, conforme apuração do Correio do Estado.
Nos municípios de Itaquiraí, Mundo Novo e Dois Irmãos do Buriti, parte das poupanças que deveriam bancar as aposentadorias dos servidores também acabaram virando pó, mas desta vez por conta de investimentos feitos no fundo Infinity.
Em Itaquiraí, o saldo no final de abril de 2023 era de R$ 1,191 milhão. No mês seguinte, depois de vir a público a informação de que o fundo não tinha lastro, o valor encolheu para apenas R$ 65 mil. Em Mundo Novo, o prejuízo foi bem maior.
Os servidores estavam com saldo de R$ 6,532 milhões até abril de 2023 na aplicação. Porém, sobraram somente R$ 575 mil.
No município de Dois Irmãos do Buriti, a situação era parecida. Dos R$ 6,443 milhões, sobraram pouco mais de R$ 570 mil. E se não bastasse o calote que Angélica levou agora do Master, o instituto dos servidores já havia levado prejuízo em 2023 com o Infinity. O instituto havia aplicado R$ 633 mil; deste total, sobraram apenas R$ 49 mil.
INVESTIGAÇÃO
A consultoria já figurava no radar de autoridades nacionais. Reportagem da revista Veja, publicada no mês passado, revelou que a empresa aparece como influenciadora das aplicações feitas por fundos públicos no Banco Master em outros estados, incluindo o caso do Iprev de Maceió, que investiu R$ 117,9 milhões no banco após reuniões com representantes da consultoria.
Segundo a coluna, a empresa foi alvo da Operação Rebote, da Polícia Federal, deflagrada em 2023 para investigar prejuízos que se aproximavam de R$ 400 milhões no instituto de previdência de uma prefeitura do Rio de Janeiro.
"Em relação à investigação, é importante contextualizar: em 2023, o foco eram atos relacionados ao município de Goytacazes, cujos clientes da Crédito & Mercado eram atendidos entre 2016 e 2017. A Crédito & Mercado esclarece que não é objeto de qualquer investigação policial. A notícia mencionada refere-se a fatos ocorridos em 2016, envolvendo antigos sócios, que não integram mais o quadro societário da empresa", afirmou a empresa em nota.
Ainda segundo a empresa, desde aquele período, a Crédito & Mercado passou por profunda reformulação e significativas melhorias em seus processos internos.
"Cabe destacar que a Crédito & Mercado colaborou integralmente com as investigações da Polícia Federal, fornecendo todas as informações e documentos solicitados, sempre de forma transparente e cooperativa junto às autoridades. Desde então, não houve desdobramentos, retomadas de investigação ou qualquer necessidade de fornecer informações adicionais às autoridades", finaliza a nota da empresa.
(Colaborou Eduardo Miranda)
**Matéria atualizada em 21 de novembro para inclusão da nota enviada pela empresa Crédito & Mercado


