Pesquisadores mapearam o rebaixamento do solo em 465 cidades ao redor do mundo. E descobriram que a Cidade do México lidera o ranking de afundamento, com trechos específicos cedendo aproximadamente 217 milímetros — ou 21 centímetros — por ano.
O levantamento, publicado na revista Nature, analisou dados coletados entre 2014 e 2023 em regiões da Ásia, da Ásia Central e Ocidental e da América do Norte. O fenômeno ameaça construções, eleva o risco de inundações e revela como o subsolo das grandes cidades está em transformação contínua.
Ao longo de menos de um século. A capital mexicana já afundou mais de 12 metros — evidência de um processo que se acelerou com o crescimento urbano e o aumento das demandas por água.
Como o solo se movimenta
O estudo utilizou dados de InSAR, obtidos por radar orbital, para captar com precisão as variações na superfície terrestre. A mediana do rebaixamento em toda a Cidade do México é de 8 milímetros por ano. Bem abaixo dos picos registrados em áreas específicas onde construções e atividades humanas intensas se concentram sobre o subsolo.
Embora a capital mexicana seja o caso mais crítico, outras cidades importantes apresentaram estabilidade no mesmo período. Boston, Nova Iorque, Londres, Pequim, Tóquio, Seul, Sydney, Montevidéu e Nápoles registraram taxas anuais entre 0,1 e 1,9 milímetros — um patamar considerado baixo nessa escala de medição.
Essa diferença entre municípios reflete como a geologia local e o padrão de uso dos recursos subterrâneos moldam o ritmo do afundamento.
Os principais culpados do afundamento
A extração intensa de água subterrânea é o principal fator do colapso do solo na Cidade do México. O lençol freático encolhe aproximadamente 40 centímetros por ano, enquanto cerca de 40% da água distribuída à população é perdida em vazamentos. Essa pressão dupla força o bombeamento cada vez mais profundo.
O peso das infraestruturas urbanas e a retirada de minerais e gases naturais amplificam o problema.
Fatores naturais também desempenham um papel relevante, e a compactação de sedimentos, comum em cidades construídas sobre deltas de rios, planícies aluviais e regiões costeiras, contribui para o movimento descendente do terreno. Períodos prolongados de seca aumentam essa pressão ao reduzir a disponibilidade de água na superfície, obrigando as cidades a intensificar o bombeamento subterrâneo.
Impactos visíveis nas estruturas urbanas
O rebaixamento do solo já deixou marcas visíveis no patrimônio da Cidade do México. O monumento Anjo da Independência teve 14 degraus adicionados para compensar o afundamento do terreno — uma solução paliativa que ilustra a magnitude do fenômeno.
Estudos recentes mostram que o solo cede mais de 2 centímetros por mês em algumas áreas específicas, velocidade que coloca em risco fundações, tubulações e toda a infraestrutura urbana.
Por que faltam soluções globais
Apesar da gravidade do problema, a compreensão sobre o afundamento global permanece fragmentada. Pesquisas anteriores utilizaram métodos distintos, abrangeram períodos diferentes e concentraram-se em um pequeno número de cidades — obstáculos que dificultam comparações confiáveis em escala mundial.
Regiões construídas sobre solos mais compactos tendem a sofrer menos com esse movimento. Mas a falta de registros padronizados sobre essas áreas dificulta a formulação de políticas públicas voltadas às regiões de maior risco. Sem comparação global confiável, fica mais complexo direcionar recursos e implementar intervenções urgentes onde o solo cede mais rapidamente.
O mapeamento realizado pela Nature representa um passo importante para mudar esse cenário e alertar cidades ao redor do mundo sobre um risco crescente e frequentemente ignorado.

