Morar perto de árvores e vegetação pode reduzir o risco de demência em idosos. Um estudo conduzido pela Stockholm University acompanhou 2.993 adultos com 60 anos ou mais durante até 16 anos e descobriu que, quanto mais vegetação havia perto das residências, menor era a probabilidade de desenvolver a doença neurodegenerativa.
A pesquisa reforça uma questão raramente considerada no planejamento do envelhecimento saudável: o ambiente imediato da casa importa tanto quanto a proximidade da família ou de serviços. Muitos pensam em bairros com infraestrutura urbana consolidada, mas as árvores fora da janela e a grama ao redor do edifício passam despercebidas, embora façam diferença no cotidiano de quem envelhece.
Como o estudo foi conduzido
Os pesquisadores acompanharam 2.993 residentes do distrito de Kungsholmen, em Estocolmo, que entraram na pesquisa entre 2001 e 2004. Nenhum deles tinha demência ao ingressar no estudo. Médicos, enfermeiros e psicólogos examinaram os participantes regularmente, e qualquer diagnóstico de demência era confirmado por um segundo médico e, em caso de desacordo, por um neurologista independente.
Após uma média de quase 10 anos, 477 dos participantes desenvolveram demência. A equipe liderada por Cecilia Stenfors. Professora associada de psicologia da Stockholm University, e por Jing Wu, do Aging Research Center do Karolinska Institutet, usou imagens de satélite para medir a vegetação ao redor de cada casa durante a estação de crescimento.

Proximidade determina o benefício
A análise considerou três perímetros ao redor das residências: 100, 250 e 500 metros. O resultado mais expressivo apareceu na zona mais próxima — 100 metros de casa. Para cada aumento de vegetação nessa faixa, o risco de demência caiu cerca de 20%.
A medição capturou o que as pessoas encontram naturalmente no dia a dia: ao buscar o correio, comprar alimentos ou simplesmente sair para tomar ar. Diferentemente de parques distantes, essa vegetação fica acessível mesmo em dias em que uma caminhada mais longa pareça cansativa.
Quando os pesquisadores examinaram áreas mais amplas, as reduções de risco foram menores e menos certas, sugerindo que o contato frequente e próximo com a natureza é o fator protetor. Entre mulheres, a mesma vegetação adicional próxima às casas associou-se a uma redução de risco cerca de 31% maior.
Entre homens, a redução estimada foi de cerca de 7%, incerta demais para ser considerada um vínculo relevante.
Uma questão de planejamento urbano
O estudo não prova que plantar uma árvore erradique a demência. Mas aponta uma possibilidade relevante para idosos e suas famílias: o ambiente em que vivem pode influenciar a saúde cerebral no longo prazo.
A relação entre vegetação próxima e menor risco de demência manteve-se mesmo após os pesquisadores controlarem idade, atividade física, ruído de tráfego, educação, tabagismo, renda do bairro e poluição do ar. Estudos anteriores já haviam ligado a vegetação próxima às casas em Estocolmo a um sono melhor e a menos prescrições de antidepressivos, fatores associados a menor risco de demência.
A vegetação também pode oferecer proteção contra ruído de tráfego e poluição. A distribuição desigual de vegetação entre moradores do mesmo bairro cria diferenças no acesso ao verde urbano.
Para gestores públicos e planejadores urbanos, os resultados indicam que pequenos fragmentos de natureza próximos às casas podem oferecer um caminho prático para reduzir riscos de demência em populações que envelhecem. A pesquisa, porém, incluiu apenas moradores de um distrito geralmente rico de Estocolmo.
Por isso, os autores pedem estudos em uma faixa mais ampla de rendas e ambientes urbanos para verificar o alcance dos achados. Isso é especialmente relevante no Brasil, onde 8,5% dos idosos convivem com demência — uma proporção que cresce com a idade, e o estudo foi publicado na revista Alzheimer's & Dementia.



