A caçula de 11 irmãos recebeu por sorteio a casa onde a família viveu em Gourim, aldeia isolada na Serra da Arada, em São Pedro do Sul, Portugal. Quase 30 anos depois de deixar a aldeia, ela recuperou o imóvel e o transformou em hospedagem para quem busca dias de silêncio na montanha.
O sorteio ocorreu no início dos anos 2000, quando os herdeiros precisaram decidir o que fazer com a propriedade da família. Em vez de vender a construção, os irmãos sortearam o imóvel entre si, e a caçula foi contemplada.
Uma infância marcada pela simplicidade
A rotina em Gourim girava em torno do trabalho manual na terra. A família vivia sem eletricidade nem água encanada, uma realidade da região serrana nas décadas de 1960 e 1970. António Martins e Custódia Rita criaram os 11 filhos nessas condições.
A mãe morreu em 1984, um ano depois do pai, que morreu em 1983. Na sequência, os irmãos deixaram a aldeia. Aos 11 anos, ela foi viver com parentes e passou a trabalhar como empregada doméstica em troca de moradia, até reunir recursos para comprar um imóvel próprio em Viseu.

O abandono da aldeia ao longo dos anos
Depois que a família Martins partiu, Gourim ficou praticamente deserta. Em declaração ao Diário do Litoral, a proprietária contou que eles foram os últimos moradores da aldeia, que ficou sem moradores durante anos.
Sem uso, a casa conservou apenas a estrutura, e as paredes originais resistiram ao tempo. Depois de quase três décadas sem moradores, foi essa estrutura que a nova dona encontrou ao assumir o imóvel.
A reforma que resgatou a construção
A topografia foi feita em 2009, e a reforma começou no ano seguinte. A obra enfrentou um obstáculo logístico: a estrada de terra até Gourim não permitia a entrada de guindastes nem de máquinas pesadas comuns em grandes reformas.
A solução foi transportar os materiais de construção em um trator. Os trabalhadores fizeram boa parte do serviço de forma artesanal. A reconstrução levou cerca de um ano e manteve a distribuição original dos espaços da casa.

De moradia de família a destino turístico
No começo do projeto, a proprietária pretendia apenas reunir os parentes na antiga casa de vez em quando, sem plano comercial para a reforma. Com o tempo, percebeu o potencial do imóvel recuperado para receber visitantes em busca de sossego na serra.
Batizada de Casa Margou, a hospedagem reúne quatro quartos, duas salas, cozinha e uma área externa com piscina, preservando a arquitetura típica da região. Uma das salas tem lareira, e a outra oferece vista para a paisagem montanhosa.
A propriedade recebe hóspedes que querem se desconectar da rotina urbana e passar alguns dias cercados pela Serra da Arada, sem sinal de celular na região. A Casa Margou recebe quatro experiências por ano, uma em cada estação, e também aceita reservas para estadias particulares de, no mínimo, duas noites, por meio de plataformas como o Airbnb.



