Uma faixa de areia a mais de 150 quilômetros da costa da Nova Escócia tornou-se o único endereço possível para a canadense Zoe Lucas. Formada em artes, ela trocou o ateliê pelo estudo da vida selvagem em Sable Island, no Atlântico Norte, onde vive há cerca de 50 anos.
O contato com o local começou por acaso, quando Lucas trabalhava como assistente de cozinha nas férias da faculdade. Ela se deparou com fotografias antigas da ilha e ficou fascinada pela paisagem isolada. Essa curiosidade, somada a um convite de pesquisa sobre focas, mudou o rumo de toda a sua vida adulta.
De estudante de arte a voluntária de pesquisa
Antes de se tornar pesquisadora, Lucas estudava no Nova Scotia College of Art and Design, em Halifax. Em 1974, uma oportunidade com uma equipe da Universidade Dalhousie que investigava focas a levou de volta à ilha, desta vez como voluntária de campo.
As temporadas sucessivas de trabalho a aproximaram cada vez mais do território. Ela chegou a liderar um projeto de restauração do solo local enquanto concluía um mestrado em Belas-Artes e dava aulas, dividindo-se entre dois mundos distintos.
A virada definitiva para a vida na ilha
Em 1982, Lucas abandonou de vez a carreira acadêmica em artes para se dedicar integralmente aos projetos de Sable Island. A partir daquele momento, passou a viver entre oito e dez meses por ano na ilha, uma rotina que mantém há décadas.
Seus trabalhos de campo incluem o monitoramento do lixo que se acumula no ambiente marinho e o estudo da relação entre tubarões e focas. A história natural dos cavalos selvagens que habitam a ilha também recebeu atenção contínua ao longo dos anos.
Registros de fauna e flora local
Ela busca nas praias aves marinhas contaminadas por petróleo e cetáceos encalhados como parte da rotina de monitoramento. Também registra a biodiversidade terrestre, incluindo musgos, líquens e invertebrados encontrados na ilha.
Para conter a erosão das dunas, Lucas transplantou capim de praia para estabilizar a areia. Ela também catalogou espécies vegetais nativas e produziu levantamentos sobre abelhas e outros insetos responsáveis pela polinização local, e parte dos resultados foi publicada em revistas científicas especializadas.
Organizações criadas para proteger o território
A experiência acumulada em campo deu origem a iniciativas formais de conservação. Em 2002, surgiu a Friends of the Green Horse Society, entidade sem fins lucrativos voltada a sustentar pesquisas sobre a biodiversidade da ilha.
Em seguida, ela se tornou pesquisadora associada do Nova Scotia Museum e, em 2008, recebeu um doutorado honorário da Universidade Dalhousie. Lucas também está entre os fundadores do Sable Island Institute e preside a organização multidisciplinar, que ampliou o alcance do trabalho iniciado anos antes.
Sable Island é marcada por neblina frequente, clima rigoroso e histórico de naufrágios, mas é conhecida principalmente pela população de cavalos selvagens. A ilha recebeu maior atenção institucional e foi colocada, em dezembro de 2013, sob a proteção da legislação canadense de parques nacionais como Reserva de Parque Nacional. Lucas monitora a vida marinha da ilha há cinco décadas.
Se Zoe mora sozinha em uma ilha remota, como ela não fica deprimida?
Segundo relato de Zoe ao jornal Daily Mail, a solidão não é um problema porque ela passa boa parte do tempo observando e fazendo anotações sobre os cavalos selvagens, sua principal distração. Além disso, ela não está completamente isolada: recebe suprimentos a cada duas semanas e mantém contato regular com as pessoas que levam alimentos e materiais.
Ela também pode sair da ilha e visitar parentes em terra firme quando quiser, o que lhe permite fazer pausas no isolamento. Para Zoe, a pesquisa e a observação da vida selvagem ocupam seu tempo e proporcionam propósito contínuo.


