Ciência

Cientistas monitoram o Atlântico diante da possibilidade de um evento raro em 100 anos

Temperaturas das águas estão entre as mais altas já medidas.

O Oceano Atlântico pode encerrar 2026 sem registrar um único furacão, algo que não ocorre há mais de um século. Apesar de as temperaturas das águas estarem entre as mais altas já medidas, a temporada deste ano não produziu nenhum sistema dessa magnitude.

Alex DaSilva, especialista principal em furacões da AccuWeather, avaliou que esse comportamento torna a temporada uma das mais incomuns da história moderna. Agosto e setembro costumam ser os meses de pico para a formação de ciclones tropicais na bacia atlântica, mas passaram sem que um único furacão se desenvolvesse.

Se a tendência se confirmar até o encerramento oficial da temporada, em 30 de novembro. 2026 será o primeiro ano da era de monitoramento satelital a terminar sem furacões — um marco sem precedentes desde 1966, quando os Estados Unidos implementaram o acompanhamento sistemático por satélite.

Um histórico com ressalvas

A última vez que o Atlântico completou um ano calendário sem furacões foi em 1914, com um precedente anterior em 1907.

Contudo, a comunidade científica internacional adverte que esses registros antigos têm limitações. No início do século XX, não havia tecnologia satelital, e tempestades formadas em áreas remotas ou despovoadas do oceano podiam passar despercebidas pelos observadores em terra ou pelos navios mercantes.

As medições rigorosas e contínuas começaram apenas em 1966, quando os Estados Unidos implementaram o acompanhamento sistemático por satélite. Por isso, se a ausência de furacões se confirmar até 30 de novembro, este será o primeiro ano da era satelital a encerrar com zero furacões.

Por que não há furacões apesar do oceano quente

O paradoxo apontado pelos cientistas é que a falta de furacões não resulta da ausência de energia térmica. Segundo registros da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, as temperaturas superficiais do Atlântico estão entre as segundas mais altas já documentadas. Dois outros fatores, porém, inibiram a formação de tempestades tropicais.

Um potente evento de Super El Niño no Pacífico gerou ventos do oeste muito intensos na alta atmosfera atlântica. Eles desarticularam qualquer sistema convectivo incipiente antes que pudesse se organizar. Ao mesmo tempo, o ar seco do Saara e o movimento contínuo de ar descendente nas camadas superiores completaram as condições que inibiram a formação de furacões.

Perspectivas para o encerramento da temporada

Com a chegada de outubro, as possibilidades estatísticas de formação de furacões caem drasticamente. Dos três eventos anteriores de Super El Niño registrados na história recente, apenas um gerou um furacão no Atlântico após 1º de outubro.

DaSilva disse que a possibilidade de o ano terminar sem furacões é cada vez maior, mas os especialistas recomendam cautela até o encerramento formal da temporada, em 30 de novembro.

Como o Super El Niño bloqueia furacões no Atlântico

Quando um Super El Niño ocorre no Pacífico, ele cria ventos muito intensos nas camadas altas da atmosfera acima do Atlântico. Esses ventos interrompem a organização dos sistemas de tempestade tropical e os desarticulam antes que ganhem força suficiente para se transformar em furacões.

Esse efeito de corte se chama "cisalhamento de vento". Além disso, o ar seco que vem do Saara africano e o padrão contínuo de ar descendo das camadas superiores da atmosfera completam o bloqueio: não há umidade suficiente nem movimento ascendente de ar para que as tempestades se desenvolvam.

Juntos, esses três fatores criam condições praticamente impossíveis para furacões nascerem, independentemente de quanto calor o oceano tenha.

O que significa na prática um ano sem furacões no Atlântico

Se 2026 encerrar sem um único furacão, isso representará um recorde desde o início das medições por satélite, em 1966. Isso não significa que o Oceano Atlântico ficou mais seguro ou que o aquecimento das águas deixou de ser um problema. Pelo contrário, as temperaturas estão entre as mais altas jamais registradas.

O que mudou foi a combinação de fatores atmosféricos que bloqueou a formação de ciclones neste ano.

Na prática, para as comunidades costeiras e países que dependem de previsões de furacões, um ano assim é excepcional. E não deve ser usado para concluir que furacões deixaram de existir ou que o risco diminuiu permanentemente. É um fenômeno extraordinário causado por condições climáticas específicas que não se repetem todos os anos.

Os especialistas reforçam que a cautela deve continuar até o fim oficial da temporada em 30 de novembro.

Reflexão

"Tirar o maior bem do maior mal": a reflexão de Machado de Assis sobre a arte de viver

A frase resume uma filosofia de vida.

18/10/2026 15h01

Foto: Reprodução

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Um trecho do romance Iaiá Garcia, escrito por Machado de Assis e publicado em 1878, é lembrado como um guia prático para lidar com perdas e contratempos. Dita pelo personagem Sr. Antunes, a frase resume uma filosofia de vida que combina aceitação e ação diante das dificuldades.

No terceiro capítulo da obra, o personagem defende que bons e maus momentos caminham sempre juntos na existência humana. Segundo essa lógica, cabe à pessoa buscar o melhor proveito possível mesmo nas situações mais adversas.

O que diz o personagem Sr. Antunes

O Sr. Antunes, pai de família marcado por dificuldades financeiras e afetivas, apresenta no diálogo uma visão madura dos reveses da vida. Para ele, não existe saída mágica para o sofrimento, mas há uma maneira inteligente de atravessá-lo.

A máxima que resume esse raciocínio ficou conhecida por condensar, em poucas palavras, uma postura ativa diante da adversidade: tirar proveito até da pior circunstância, sem fingir que ela não dói. Machado de Assis não propõe negar a dor, mas transformá-la em ponto de partida para crescer.

Semelhanças com a filosofia estoica

A ideia expressa pelo personagem se aproxima de um princípio difundido pelos antigos filósofos estoicos. Para essa corrente de pensamento, as pessoas não controlam tudo o que acontece ao redor, mas controlam integralmente a própria reação diante dos fatos.

Essa aproximação entre a literatura machadiana e a tradição filosófica reforça que converter sofrimento em amadurecimento depende de disciplina interna. Não é dom raro nem traço de personalidade: é prática que pode ser desenvolvida com repetição e atenção aos próprios pensamentos diante da crise.

Como aplicar a lição no dia a dia

Trabalho, relacionamentos e imprevistos financeiros testam essa capacidade de encontrar aprendizado nas dificuldades. Cada obstáculo pode trazer uma lição, que só aparece para quem se dispõe a observá-lo com calma.

Concentrar a energia no que depende da própria vontade é um dos caminhos práticos sugeridos por essa visão de mundo. Encarar cada dificuldade como um teste de paciência e substituir a queixa pela busca de soluções completam esse conjunto de atitudes.

Uma visão sem ilusões sobre a vida

O diálogo protagonizado pelo Sr. Antunes não promete proteção contra decepções nem finais felizes garantidos. A proposta é outra: toda experiência ruim deixa um ensinamento, desde que seja analisada com frieza e sem desespero.

Antes de ser publicado em livro, Iaiá Garcia circulou como folhetim, em capítulos publicados no jornal da época — formato comum entre os romances machadianos daquele período.

Mais de um século depois de escrito, o raciocínio do Sr. Antunes continua servindo como lembrete de que a forma como alguém reage a uma perda pesa tanto quanto a própria perda.

Reflexão

"O verdadeiro saber" começa por reconhecer os próprios limites, segundo Confúcio

Reflexão aparece nas Analectas.

18/10/2026 14h27

Foto: Pixabay/Pexels

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Para Confúcio, a verdadeira sabedoria não consistia em ter respostas para tudo, mas em reconhecer com clareza o que se conhece e os limites do próprio entendimento. Essa reflexão aparece nas Analectas, compilação de diálogos e ensinamentos reunidos pelos discípulos após a morte do filósofo.

Confúcio dirigiu a um de seus alunos, Zilu, a frase que resume essa ideia: "Saber que se sabe o que se sabe, e saber que não se sabe o que não se sabe — nisso consiste o verdadeiro conhecimento".

A formulação pode soar repetitiva à primeira leitura, mas afirma que o conhecimento autêntico exige reconhecer com clareza onde termina a própria compreensão.

A vida e a influência de Confúcio na filosofia oriental

Confúcio nasceu em 551 a.C., no estado de Lu, território que hoje faz parte da província chinesa de Shandong, e morreu em 479 a.C. Viveu durante o período de Primavera e Outono, marcado por instabilidade política e competição entre governantes regionais pelo poder.

Confúcio foi um dos primeiros mestres chineses a ampliar o acesso à educação e a profissionalizar o ensino. Seus ensinamentos influenciaram profundamente a cultura da região e se espalharam por toda a Ásia oriental. Durante séculos, moldaram os princípios éticos, morais e sociais do confucionismo — tradição que marcou a vida intelectual e política da região.

Confúcio e Sócrates: duas tradições sobre os limites do saber

A reflexão de Confúcio sobre o conhecimento se aproxima de uma das ideias mais famosas da filosofia ocidental: a máxima socrática "só sei que nada sei". As duas formulações têm particularidades próprias, mas tratam da relação entre conhecimento e consciência dos próprios limites.

Nos dois casos, reconhecer que não se tem todas as respostas é o ponto de partida para examinar as próprias crenças e aprofundar a compreensão.

Para Sócrates, reconhecer a própria ignorância era o caminho para abandonar opiniões falsas e buscar o conhecimento verdadeiro. Confúcio, por sua vez, exigia identificar com precisão o que se sabe e o que não se sabe, e ambos partiam da humildade intelectual como fundamento da sabedoria.

Como a tomada de consciência da ignorância abre caminho para o verdadeiro conhecimento

Ao reconhecer que não sabe algo, a pessoa abandona as opiniões superficiais que carrega e fica livre para buscar respostas genuínas. Segundo Sócrates, a maioria das pessoas confunde opinião com conhecimento: acredita saber porque ouve algo repetido ou porque está acostumada com uma ideia.

Opinião e conhecimento não são a mesma coisa, e a opinião é particular e frágil, enquanto o conhecimento verdadeiro é universal e sólido.

A consciência da própria ignorância funciona como ponto de partida. Quando alguém admite não saber, sua mente fica aberta para questionar, investigar e descobrir. Sem esse reconhecimento, a pessoa fica presa a falsas certezas e não encontra motivação para buscar uma compreensão melhor.

Por isso, para Sócrates, saber que não se sabe é muito melhor do que saber mal — é o primeiro passo real rumo à verdade.

A filosofia como disciplina interior: o que ambos os filósofos compartilhavam além das palavras

Para Sócrates e Confúcio, a filosofia é uma atitude diante da vida, não apenas um sistema de ideias ou um conjunto de respostas prontas. Ela exige lucidez para distinguir o que foi realmente compreendido do que apenas se repete sem pensar, assim como a verdade da ilusão de verdade.

Essa distinção transforma a forma como a pessoa age e se relaciona com o mundo. Para ambos, essa transformação nasce da humildade intelectual, e o verdadeiro filósofo não é quem se apressa em responder tudo, mas quem aprende a se colocar em ordem diante da verdade.

Essa disciplina interior — o ajuste constante de si mesmo para se alinhar com o real — é o que faz a filosofia valer a pena, em qualquer civilização ou época.

Se Sócrates diz que sabe que nada sabe, como ele consegue questionar as pessoas e mostrar que estão erradas?

A resposta está em uma distinção importante: Sócrates não afirma que nada sabe de forma absoluta. Ele diz que não pode ter certeza total sobre nada, mas pode estar confiante a respeito de algumas coisas. Além disso, o conhecimento que reconhece ter é diferente daquele das autoridades que questiona.

Ao interrogar alguém que afirma ser sábio, Sócrates não usa um sistema completo de conhecimento. Usa a capacidade de identificar incoerências e contradições nas opiniões alheias. Expor o erro não exige que ele conheça tudo, mas que reconheça quando alguém confundiu opinião com verdade e esteja genuinamente disposto a buscar, junto com essa pessoa, uma resposta melhor.

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