Ciência

Estudo estima que Super El Niño pode provocar mais de 800 mil mortes

Mais de dois terços dessa projeção, 19,5 mil mortes, devem ocorrer até abril de 2027.

Mortes extras ligadas ao calor em escala global podem chegar a 857,4 mil até março de 2027, em razão de um fenômeno climático batizado de Super El Niño. O Brasil aparece em sexto lugar no ranking dos países com maior número estimado de óbitos no período, com 26,7 mil mortes extras projetadas.

Mais de dois terços dessa projeção, 19,5 mil mortes, devem ocorrer até abril de 2027. Trata-se de projeções estatísticas, e não de mortes já registradas, usadas como parâmetro para medir o tamanho do impacto do calor extremo ligado ao fenômeno.

As projeções consideram mortes adicionais em comparação com a média do período de 1996 a 2005, por isso alguns países podem apresentar valores negativos, indicando estimativas abaixo da linha de base.

A estimativa aumentou porque as temperaturas de agosto e setembro superaram o esperado: agosto deste ano teve a maior média já registrada para o mês, e setembro ficou na segunda colocação histórica.

Índia, China e Nigéria lideram as estimativas

Mais 372,9 mil óbitos devem se somar até março, completando dez meses de monitoramento. A Índia concentra a maior estimativa entre os países analisados, com 160 mil mortes adicionais previstas para todo o período. Depois aparecem China, com 85,4 mil, e Nigéria, com 69,7 mil óbitos adicionais no mesmo intervalo.

Já para os próximos seis meses, a projeção muda de ordem: a Nigéria deve ter o maior número de mortes. Com 56,1 mil, à frente da Índia, que soma 55,2 mil nesse recorte. A Indonésia também desponta como ponto de atenção, com 29,3 mil mortes adicionais previstas para o mesmo semestre.

Como o fenômeno altera o clima global

A água na faixa central e tropical do Oceano Pacífico esquenta bem além da média histórica quando o El Niño se forma. Chuva mais intensa e tempestades tendem a atingir regiões dos Estados Unidos. Da América do Sul e da Europa, enquanto Austrália, Indonésia e o Sul da Ásia costumam sofrer com estiagem prolongada e secas severas.

Fumaça e calor pressionam a saúde

Na Indonésia, as condições associadas ao El Niño favorecem incêndios florestais, que tendem a piorar a qualidade do ar e agravar problemas respiratórios na população local. O aquecimento das águas do Pacífico libera calor para a atmosfera, elevando as temperaturas em escala global.

O Brasil figura entre os dez países com maior número absoluto de óbitos estimados pelo monitor da Universidade de Chicago e da Universidade de Michigan.

Episódios de El Niño costumam se repetir de forma irregular, geralmente a cada dois a sete anos. Os chamados Super El Niños são mais raros, com intervalos estimados de dez a 15 anos.

Especialistas ressaltam que os recordes de temperatura registrados recentemente também estão relacionados às mudanças climáticas e ao aquecimento global, o que pode intensificar os impactos de fenômenos El Niño mais intensos sobre os riscos e extremos climáticos no mundo.

Como São Paulo vai monitorar e responder ao Super El Niño

  • Classificar as regiões do estado em quatro níveis operacionais — verde (observação), amarelo (atenção), laranja (alerta) e vermelho (emergência) — conforme a gravidade do cenário.
  • Produzir boletins diários pelo Centro de Gerenciamento de Emergências da Defesa Civil, que incluem previsão meteorológica e classificação de riscos de cada regional.
  • Oferecer uma previsão para os três dias seguintes, facilitando o acompanhamento e as providências das defesas civis municipais.
  • Emitir avisos e alertas específicos para a população em situações de risco imediato, além de adotar ações emergenciais.
  • Usar o Painel de Inteligência SP Sempre Alerta com dados do sistema Earth Networks, que pode indicar a direção de deslocamento das chuvas e estimar o tempo para chegada aos municípios vizinhos.

Reflexão

Gabriel García Márquez: "A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha"

O poema reflete sobre as diferentes fases da existência.

01/11/2026 15h00

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Uma das reflexões mais lembradas atribuídas a Gabriel García Márquez começou a circular pelas redes sociais e por caixas de e-mail em 2000, quando o ganhador do Nobel colombiano enfrentava dificuldades de saúde.

O texto reflexivo, conhecido como "A Marionete", apresentava-se como uma carta de despedida dirigida aos amigos do autor e era repleto de versos que tocavam fundo no coração de quem lia. Milhões de pessoas reproduziram aquelas linhas melancólicas e cheias de ternura, imaginando tratar-se da própria voz de García Márquez — como se fossem suas últimas palavras antes de partir.

O poema conquistava pela sensibilidade e pela forma como abordava a vida, a morte e o que realmente importa nos dias que nos restam.

O verdadeiro autor da obra

García Márquez esclareceu que o texto não era de sua autoria quando soube da atribuição equivocada, mais de dez anos antes da publicação desta matéria. O poema, chamado "La Marioneta", tinha outro autor: Johnny Welch, ventríloquo e dramaturgo mexicano que concebeu aquelas palavras muito antes de a internet transformar o poema em um fenômeno global.

Apesar do desmentido público de Gabo, a atribuição falsa não desapareceu. A obra continuou circulando sob seu nome e ressurgindo repetidamente, padrão que se intensificou após a morte do autor de "Cem Anos de Solidão". Welch também tentou corrigir o equívoco diversas vezes, mas a confusão se mostrou mais forte que a verdade.

A reação com humor de Gabo

García Márquez reagiu ao engano com bom humor, mas deixou clara sua posição. O que mais o incomodava não era a beleza do texto — que ele reconhecia como legítima — mas o estilo piegas e melodramático de "La Marioneta".

Para um escritor cuja obra era marcada pela precisão e pela ironia, aquele tom sentimental jamais corresponderia à sua maneira de escrever.

Seu incômodo maior era que as pessoas acreditassem que ele estivesse próximo da morte e se expressasse de forma tão abertamente sentimental. Gabo conhecia bem o próprio estilo e sabia que suas palavras finais — se as houvesse — soariam bem diferentes daquilo que o poema apresentava.

O trecho que todos conhecem

O verso mais difundido imagina o que o autor faria se Deus lhe concedesse mais um pedaço de vida. O poema também reflete sobre as diferentes fases da existência e o que cada uma merecia receber. A imagem que persiste é a de uma criança que receberia asas, mas aprenderia a voar sozinha — metáfora potente sobre liberdade e autonomia.

O texto segue com outras declarações sobre velhos e morte, esquecimento e a importância de valorizar a vida não pelo que custa, mas pelo que significa. Cada linha propõe uma forma diferente de olhar as coisas e de estar no mundo.

Essa universalidade explica o poder de "La Marioneta" na internet: as pessoas veem nele reflexões profundas que ressoam com suas próprias buscas por significado.

Por que a confusão persiste

A atribuição equivocada persiste porque conecta duas realidades: a genialidade reconhecida de García Márquez e a qualidade do poema. Quando algo tocante circula sem atribuição clara, as pessoas tendem a associá-lo a nomes consagrados. Welch não tinha a projeção global do autor colombiano, o que facilitou a confusão sobre a autoria.

A época do surgimento do poema coincidiu com preocupações reais sobre a saúde de García Márquez. O timing foi perfeito para alimentar a narrativa de que se tratava de sua despedida. Redes sociais e email ainda eram formas primitivas de comunicação, onde a verificação de fontes era ainda mais frágil que nos dias atuais.

A falta de filtros digitais contribuiu para que "La Marioneta" ganhasse força como obra do prêmio Nobel.

Hoje, décadas depois, o poema continua ressurgindo em momentos de perda e reflexão. Enquanto alguns leitores finalmente conhecem a verdade sobre Johnny Welch. Muitos outros ainda associam aqueles versos ao nome de García Márquez — um erro que resistiu às correções públicas e que segue vivo na memória coletiva da internet.

Reflexão e Filosofia

Edgar Allan Poe deixou uma reflexão sobre as quatro condições para ser feliz

Ideia contrasta com a tonalidade sombria de suas obras.

01/11/2026 14h16

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O escritor norte-americano Edgar Allan Poe, figura central da literatura de mistério e horror, formulou uma reflexão profunda sobre a felicidade que contrasta com a tonalidade sombria de suas obras mais célebres.

Em seu conto "O Domínio de Arnheim", publicado em 1847, Poe apresenta quatro pilares que considera essenciais para alcançar a plenitude: vida ao ar livre, amor de mulher, ausência de ambição e a criação de um novo e belo ideal.

Essa proposição revela uma faceta contemplativa e romântica do pensamento do autor, frequentemente associado aos contos góticos e às narrativas que exploram o terror psicológico. A estrutura que Poe apresenta oferece uma visão de felicidade fundamentada na simplicidade e na elevação espiritual, bem distante das complexidades que marcam sua ficção.

O contato com a natureza como regeneração

O primeiro elemento — vida ao ar livre — aponta para o contato direto com a natureza como fonte regeneradora de paz, inspiração e cura emocional. Para Poe, o afastamento do ambiente urbano e a imersão no mundo natural representam um caminho para restaurar a saúde da alma e recuperar o equilíbrio interior.

Essa valorização do espaço aberto reflete uma compreensão de que a vida moderna, presa entre muros e obrigações, afasta o ser humano de uma verdade essencial. A natureza funciona, nessa perspectiva, como antídoto contra a alienação e o cansaço acumulado pelas rotinas cotidianas.

O amor profundo e a parceria emocional

O segundo pilar — amor de mulher — vai além do romance superficial ou da atração passageira. Poe refere-se à conexão afetiva profunda, à parceria emocional e ao vínculo que transcende o físico, estabelecendo uma base sólida para a existência humana. Nessa visão, o afeto genuíno sustenta e valida a vida.

A ênfase nessa forma de amor revela a importância que Poe atribuía aos laços humanos autênticos como elemento fundacional da felicidade, longe de relações superficiais ou interesseiras.

Desprendimento da ambição material

A ausência de qualquer ambição constitui o terceiro fundamento da filosofia de Poe. Aqui, o autor critica o desejo por status, riqueza ou poder, enxergando a ambição mundana como uma força que desvia a pessoa de sua verdadeira natureza e a aprisiona em ciclos de insatisfação constante.

Essa crítica à ganância e ao individualismo predatório antecipa reflexões modernas sobre o vazio que a perseguição infinita de bens materiais deixa no ser humano. Para Poe, a libertação da ambição era um requisito indispensável para a paz interior.

O propósito criativo como bússola existencial

O quarto e último pilar refere-se à necessidade de criar um novo e belo ideal — um propósito que transcenda o cotidiano e as necessidades imediatas. Para Poe, essa busca pode ser artística, criativa ou espiritual, funcionando como uma bússola que orienta a existência e confere significado às escolhas diárias.

A criação de algo belo ou a elevação espiritual trazem propósito à vida, transformando a rotina em jornada com rumo definido. Sem esse ideal, a existência fica vazia de direção, reduzida apenas à sobrevivência.

A filosofia diante da vida turbulenta

Essa filosofia, embora expressa em meados do século XIX, revela uma compreensão precoce da importância do equilíbrio entre o material e o espiritual, entre a ambição exterior e a realização interior. A proposta de Poe sugere que a verdadeira riqueza reside não em acúmulos, mas em conexões genuínas e propósito transcendente.

A vida pessoal de Poe — marcada por perdas, dificuldades financeiras e uma luta constante contra seus próprios demônios interiores — torna essa reflexão ainda mais tocante. O contraste entre sua filosofia de felicidade e a escuridão de sua trajetória sugere que o escritor buscava em suas palavras uma verdade que sua própria existência nem sempre conseguiu alcançar.

Nascido em Boston em 19 de janeiro de 1809. Poe conheceu desde cedo a adversidade, e suas reflexões sobre a felicidade podem ser lidas como um testamento espiritual de quem compreendeu profundamente tanto o sofrimento quanto a beleza.

Por que a natureza funciona como antídoto contra a ambição

A valorização que Poe faz da vida ao ar livre conecta-se ao contexto do Romantismo, movimento que surgiu como reação contra o racionalismo científico e a urbanização provocada pela Revolução Industrial. Para os românticos, a natureza representava justamente o oposto da vida urbana e regulada — era o espaço onde a emoção intensa e autêntica podia florescer, longe das restrições da razão e da sociedade.

Quando Poe propõe o contato com a natureza como primeiro pilar da felicidade, ele está alinhado a essa compreensão romântica: o espaço aberto permite que o indivíduo escape das pressões e das ambições materiais que a vida social impõe, restaurando uma forma de existência mais autêntica e emotiva.

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