Literatura

Machado de Assis: "A amizade é como um círculo e como um círculo não tem começo nem fim"

Escritor deixou marcas profundas na literatura portuguesa e brasileira

Machado de Assis (1.839-1908) deixou marcas profundas na literatura portuguesa e brasileira. Sua vida pessoal, porém, também foi marcada por histórias intrigantes. O escritor carioca viveu experiências que moldaram seu caráter e sua criação artística, revelando um homem de muitas facetas além das páginas que o tornaram imortal.

Entre as frases frequentemente associadas ao escritor está a reflexão: “A amizade é como um círculo e como um círculo não tem começo nem fim”. O pensamento representa a continuidade e a natureza duradoura dos laços afetivos. No entanto, a autoria não é confirmada: não há registro oficial dessa frase em nenhuma obra canônica de Machado de Assis.

Nascido no Rio de Janeiro, Machado cresceu em um ambiente de escravidão e teve acesso a uma oportunidade educacional rara para a época. Seu avô havia sido escravo em uma chácara no morro do Livramento, onde o próprio escritor veio ao mundo e foi batizado por Maria José de Mendonça Barroso, dona da propriedade.

Foi ali que Machado aprendeu a ler — o primeiro passo de sua trajetória.

Tradutor, fundador e presidente

Machado não se limitava à criação original: foi responsável por uma das primeiras traduções de O Corvo, de Edgar Allan Poe. O escritor brasileiro dominava o francês — há relatos de que aprendeu o idioma com um padeiro — e também verteu Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, para o português.

Essa versatilidade linguística era rara entre os intelectuais brasileiros do século XIX. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e recebeu a cadeira número 23. Na época, a cadeira número 1 havia sido designada a José de Alencar. Ele também foi o primeiro presidente da instituição, consolidando seu lugar como figura central da cultura nacional.

O xadrez, seu passatempo intelectual, também o levou a competir. Machado ficou em terceiro lugar no primeiro Campeonato Brasileiro da modalidade, e as peças que utilizou continuam expostas na Academia até hoje.

 

A genialidade científica antes da ciência

Em seu romance Anjo Rafael, Machado descreveu uma condição que a medicina ainda não havia identificado. A narrativa relata como uma filha é "contagiada" pela loucura do pai e também desenvolve a doença. Pesquisadores batizariam esse fenômeno de folie à deux anos depois.

Na mesma obra, Machado já sugeria a cura: afastar a pessoa saudável de quem padecia do transtorno mental. Sua vida pessoal se dividia entre a solidão e a companhia. Machado foi casado por 35 anos com Carolina Machado, quatro anos mais velha. Não tiveram filhos, mas Carolina era muito inteligente e ajudava com rigor na revisão dos textos.

Quando Carolina faleceu, Machado sofreu uma profunda depressão e escreveu ao amigo Joaquim Nabuco sobre sua dor e sua filosofia dos laços humanos.

Apelidos, erros e carreiras múltiplas

Os vizinhos passaram a chamá-lo de "Bruxo do Cosme Velho" depois de vê-lo queimar cartas em um caldeirão na Rua Cosme Velho, onde morava. O apelido ganhou força quando o poeta Carlos Drummond de Andrade compôs A um bruxo, com amor, poema que reverenciava o escritor.

Antes de morrer, Machado já havia atuado como crítico teatral, desde os 21 anos, escrito nove textos para o teatro e trabalhado como jornalista. Na juventude, também vendeu doces feitos pela madrasta e engraxou sapatos.

Em 1888, o imperador Dom Pedro 2º o condecorou com a Ordem da Rosa. Meses depois, Machado foi indicado para a Secretaria da Agricultura e ocupou o cargo de diretor-geral da viação da Secretaria da Indústria. Sua vida profissional corria em paralelo à criação literária: dividia-se entre responsabilidades públicas e a literatura.

Também enfrentou preconceito por ser mulato para conseguir o reconhecimento que merecia. Machado era epilético, apresentava sinais de gagueira e tinha personalidade insegura e reclusa. Um episódio ilustra sua atenção minuciosa: no prefácio da segunda edição de Poesias Completas, publicada em 1902, a palavra "cegara" (na expressão "lhe cegara o juízo") foi substituída por "cagara" — um erro tipográfico humilhante.

Há relatos de que o próprio Machado teria se envolvido em um mutirão para corrigir os exemplares antes da distribuição, mas alguns escaparam pela cidade, perpetuando a gafe.

Por que Machado de Assis enfrentava preconceito apesar de seu talento?

Machado era negro — ou, como se dizia na época, mulato — e enfrentava um obstáculo imenso no Brasil do século 19: o preconceito racial. Também era gago, sofria de epilepsia e vinha de uma família pobre, de origem humilde. Seu pai era pintor de paredes, e sua mãe, lavadeira.

Mesmo bem-sucedido como escritor e funcionário público, Machado teve de enfrentar preconceito para conseguir o reconhecimento que merecia. Apesar dessas barreiras, construiu uma carreira literária e pública que o consolidou como figura central da cultura brasileira.

Reflexão sobre alma

Camilo Castelo Branco: "As almas infelizes envelhecem cedo"

Camilo foi o primeiro escritor de língua portuguesa a conseguir viver exclusivamente com os ganhos em suas obras

30/10/2026 11h34

Imagem: Autor desconhecido/Wikimedia Commons

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Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa em 16 de março de 1825 e se tornou um dos maiores romancistas da literatura portuguesa do século XIX.

Sua obra, que ultrapassa 260 títulos entre romances, novelas, contos, peças teatrais, poesia, crônicas, textos históricos e traduções, consolidou-o como figura central do ultrarromantismo português. A importância de Castelo Branco na literatura portuguesa, porém, não se resume à quantidade e à qualidade de suas criações.

Ele foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver unicamente dos ganhos de suas obras, transformando a escrita em uma atividade economicamente viável numa época em que ela era, para muitos, apenas um passatempo secundário. O reconhecimento veio em 1885, quando o rei D. Luís I o agraciou com o título de 1.º Visconde de Correia Botelho.

A orfandade que moldou o criador

A trajetória pessoal de Castelo Branco começou marcada por perdas precoces. Aos dois anos, perdeu a mãe; aos nove, ficou órfão de pai. Essas experiências marcariam sua vida e sua obra.

A orfandade o colocou cedo diante de uma realidade dura. Castelo Branco transformou essa experiência em tema recorrente de seus escritos, com personagens marcados pela dor, pelo abandono e pela busca de sentido em um mundo hostil.

O ultrarromantismo valorizava o sofrimento individual e o conflito interior. Castelo Branco transformou a própria experiência de perda em narrativas que refletiam a visão de mundo do movimento e tocavam seus leitores.

Sua versatilidade em múltiplas formas de expressão literária — do romance à crônica, da poesia à tradução — permitiu que explorasse o sofrimento humano sob diversos ângulos.

 

O escândalo que marcou vida e criação

Em 1860, Castelo Branco iniciou um relacionamento com Ana Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves. O caso provocou um dos maiores escândalos públicos de Portugal no século XIX. Os dois foram presos na Cadeia da Relação, no Porto, acusados de adultério, crime que sofria forte condenação social e legal na época.

Embora ambos tenham sido posteriormente absolvidos, a experiência deixou marcas profundas em sua vida pessoal e em sua produção literária. Após a absolvição, Castelo Branco e Ana Plácido casaram-se e ela permaneceu como sua companheira nos anos seguintes.

Durante esse período de turbulência e encarceramento, sua capacidade criativa não arrefeceu. Foi nessas circunstâncias que escreveu Amor de Perdição em apenas 15 dias, romance que se tornaria sua obra-prima e um de seus textos mais lembrados. O livro mostra como sua criação literária se manteve mesmo sob condições adversas.

O fim trágico de um homem atormentado

Os últimos anos de Castelo Branco foram marcados por sofrimento crescente. A sífilis o levou progressivamente à cegueira, enquanto a depressão profunda debilitava suas forças físicas e mentais.

Em 1º de junho de 1890, aos 65 anos, suicidou-se com um tiro em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão. Sua existência terminou de forma tão trágica quanto as histórias que havia criado.

Seu fim reflete, de forma amarga, a própria filosofia que permeia suas obras: a luta constante contra a infelicidade, o declínio inexorável e a impossibilidade de escape diante do sofrimento.

A sentença que se tornou sua marca — "as almas infelizes envelhecem cedo" — sintetiza não apenas a visão de mundo que atravessa sua criação literária, mas também a trajetória de um homem que viveu intensamente a condição humana em seus momentos mais vulneráveis e sombrios.

Natal

Calvin Coolidge: "O natal não é um período e nem uma estação, é um estado de espírito"

Coolidge passou de vereador a governador republicano com o passar dos anos

30/10/2026 10h59

Imagem: National Photo Company/Library of Congress

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Calvin Coolidge chegou à Casa Branca de um modo que poucos presidentes americanos experimentaram: de madrugada, em uma casa simples de Vermont, com o pai administrando o juramento sob a luz de uma lamparina.

Na madrugada de 3 de agosto de 1923, a morte de Warren Harding colocou Coolidge no comando do país. Vice-presidente, ele recebeu a notícia, e nascido em Plymouth, Vermont, em 4 de julho de 1872, filho de um comerciante local, Coolidge construiu uma trajetória lenta e metódica na política.

Formou-se no Amherst College, entrou na política em Massachusetts e passou de vereador a governador republicano, consolidando um perfil cada vez mais conservador.

Um presidente contra a intervenção do governo

À frente do país, Coolidge resistiu a usar o poder econômico federal para conter o crescimento acelerado da década ou amenizar as dificuldades da agricultura e de alguns setores industriais. Na mensagem enviada ao Congresso em dezembro de 1923, defendeu isolamento na política externa, corte de impostos, economia nos gastos públicos e ajuda limitada aos agricultores.

Essa postura ficou clara quando vetou projetos de socorro ao setor agrícola. Também barrou um plano federal para produzir energia elétrica barata no rio Tennessee.

 

A fórmula do silêncio que deu certo

Em 1924, já beneficiado pela chamada "prosperidade Coolidge", o republicano teve um desempenho expressivo nas urnas. No discurso de posse, declarou que os Estados Unidos haviam alcançado um estado raro de contentamento e prometeu manter as coisas como estavam, sem grandes rupturas.

Em 1926, o economista Walter Lippmann resumiu o que considerava o verdadeiro talento político do presidente: a capacidade de não fazer nada de forma ativa. Numa inércia que agradava ao humor do país e aos interesses empresariais que queriam ser deixados em paz.

Mesmo remoto e de poucas palavras, Coolidge se deixava fotografar com cocares indígenas e trajes de cowboy, recebendo toda espécie de delegação na Casa Branca.

O humor seco que virou marca registrada

A fama de homem de poucas palavras acompanhou Coolidge até os jantares oficiais. Sua esposa, Grace Goodhue Coolidge, contava que uma jovem sentada ao lado dele apostou que conseguiria arrancar pelo menos três frases em conversa — e ouviu, sem nem um olhar de resposta, um lacônico "você perde".

Foi com a mesma economia de palavras que encerrou a própria carreira política. Em 1928, enquanto descansava nas Black Hills de South Dakota, emitiu o mais famoso de seus comunicados lacônicos: "I do not choose to run for President in 1928".

Uma frase sobre o natal que atravessou décadas

Fora da arena política, Coolidge deixou uma reflexão sobre espírito e generosidade, distante do tom austero de suas decisões de governo: "O natal não é um período e nem uma estação, é um estado de espírito".

A frase contrasta com a imagem do presidente calculista e revela um lado íntimo de Coolidge, além de definir um sentimento ainda repetido hoje fora do contexto político.

Coolidge não viveu para ver os tempos mudarem. Morreu em janeiro de 1933, afastado da vida pública, e confessou a um velho amigo que sentia não mais se encaixar nos novos tempos que chegavam.

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