Um concurso federal oferece até 200.000 dólares a donos de embarcações recreativas nos Grandes Lagos que criarem uma tecnologia capaz de frear o avanço do mexilhão-zebra pelas águas americanas. Batizada de Halt the Hitchhiker, a iniciativa foi criada em resposta a quase quatro décadas de danos causados pelo molusco aos ecossistemas aquáticos e às estruturas hidráulicas dos Estados Unidos.
A invasão começou no fim dos anos 80, quando um navio vindo do mar Negro despejou nos Grandes Lagos água de lastro carregada de larvas da espécie.
Sem predadores naturais na região e com alta capacidade de reprodução, o mexilhão se espalhou rapidamente pelos cursos d'água de boa parte da América do Norte. Outras espécies invasoras, como o mexilhão quagga, também ampliaram o problema.
Prejuízo bilionário em tubulações
O Bureau of Reclamation, órgão federal por trás do concurso, calcula que os gastos nos Estados Unidos superem 1 bilhão de dólares por ano. Boa parte desse valor está ligada à obstrução de tubulações e instalações hidráulicas que dependem do fluxo constante de água.
Os moluscos também alteram a cadeia alimentar aquática, e ao devorar o plâncton de que várias espécies nativas precisam para sobreviver, eles desequilibram ecossistemas inteiros dentro e fora dos Grandes Lagos.
Soluções testadas e próximos passos
A primeira etapa do concurso terminou em maio de 2026. Seis projetos foram escolhidos para receber 25.000 dólares cada um. As propostas vencedoras incluem sistemas de filtração, luz ultravioleta e tecnologia bioelétrica para interromper a propagação do molusco pelas embarcações.
A meta agora é chegar a um dispositivo portátil capaz de descontaminar barcos em poucos minutos sem agredir o ambiente ao redor. Novas fases de desenvolvimento e testes de laboratório estão previstas para 2027. Nesse período, o Bureau of Reclamation deve definir quais tecnologias avançam rumo à aplicação prática nos lagos americanos.
Como o mexilhão-zebra viaja escondido nas embarcações
Os moluscos não nadam grandes distâncias por conta própria, e as larvas se fixam no casco, nas tubulações internas e nos compartimentos de água das embarcações recreativas. Quando o barco muda de lago ou rio, carrega consigo uma população inteira de mexilhões pronta para colonizar um novo território.
Por isso, o concurso se concentra na descontaminação de embarcações: sem esse transporte involuntário, a expansão seria muito mais lenta.
Quando nem a tecnologia resolve sozinha
As soluções tecnológicas propostas no concurso — filtração, ultravioleta e bioeletricidade — servem para descontaminar embarcações individuais, mas não eliminam os mexilhões já estabelecidos nos lagos. Um barco limpo continua podendo recolher novas larvas ao navegar em água já infestada.
Além disso, a tecnologia só funciona se o proprietário a usar voluntariamente, o que depende de conscientização e, eventualmente, de regulação. Sem esse compromisso dos proprietários, mesmo o melhor filtro portátil terá impacto limitado na contenção geral da espécie.


