Uma fase que parecia superada bate de novo na porta, só que com outra cara. É assim que um emprego dado como certo vira dúvida de um dia para o outro, que uma relação estável emperra sem aviso, que uma escolha dada como fechada volta à mesa.
Esse vaivém sem motivo único é o retrato que Riobaldo, personagem central de Grande Sertão: Veredas, faz da própria existência ao narrá-la a um ouvinte que nunca responde. É ali, em poucas linhas, que ele resume o livro inteiro: a ideia de que nenhum estado — bom ou ruim — se mantém, e que atravessar essa troca constante exige coragem.
Essa passagem costuma circular isolada, só pelo final, como frase de efeito pronta para qualquer legenda. O começo dela, porém, é o que dá a ela o sentido verdadeiro. O raciocínio que sustenta esse trecho começa páginas antes, na trajetória de um homem que nunca teve controle sobre os próprios rumos.
Quem foi o homem por trás de Riobaldo
Em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, nasceu em 27 de junho de 1908 o médico que se tornaria um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Antes da fama como escritor, ele atendeu pacientes no sertão mineiro e depois seguiu carreira diplomática, com passagem pela Alemanha durante a Segunda Guerra.
A ficção veio com Sagarana, lançado em 1946. Dez anos mais tarde, publicou no mesmo período Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, romance que o colocou entre os autores centrais da língua.
A Academia Brasileira de Letras o recebeu em 1963. Mas a cerimônia de posse só aconteceu em 16 de novembro de 1967 — ele temia a emoção do momento e adiou por anos. Morreu três dias depois de assumir a cadeira.
De onde vem o ritmo da fala de Riobaldo
No Instituto de Estudos Brasileiros da USP está guardado o Arquivo Guimarães Rosa, acervo que reúne as cadernetas onde o autor anotava expressões ouvidas de vaqueiros e moradores do sertão. Grande parte da cadência característica de Riobaldo nasceu desse trabalho de campo, não de invenção literária pura.
O narrador é um ex-jagunço já idoso que reconstrói a própria história para um visitante letrado e silencioso — toda a obra se sustenta nesse monólogo disfarçado de diálogo.
A trama central é o vínculo entre Riobaldo e Diadorim, um amor que só é compreendido no final do livro, depois de ser carregado em silêncio por boa parte da narrativa.
Por que a vida embrulhada pede coragem
Quando tenta explicar por que nada em sua trajetória seguiu uma ordem lógica, Riobaldo chega à tal "embrulhada": amizades que se transformaram em Guerra, chefes que morreram, um sentimento que não pôde ser dito abertamente. Os pares de verbos — esquentar e esfriar, apertar e afrouxar, sossegar e desinquietar — mostram que toda fase tem prazo de validade.
Dessa instabilidade permanente nasce a cobrança por coragem, mas não como disposição para o risco. Riobaldo percebe, ao longo da narrativa, que o maior perigo não está nos confrontos armados, e sim em atravessar o tempo sem perder a sensibilidade pelas coisas.
Coragem como gesto diário, não façanha
Essa coragem aparece em atos pequenos: aceitar que a fase boa vai acabar sem encarar isso como injustiça pessoal. Seguir decidindo mesmo depois de ver uma escolha anterior desmoronar, e não confundir um momento de calma com solução permanente. O "sossega" da frase vem sempre seguido de inquietação nova.
Suportar o que não tem resposta pronta completa esse retrato. E o medo confessado por Riobaldo em diversos trechos do romance faz parte dele — a coragem convive com a dúvida, em vez de eliminá-la.
Um chamado para agir, não para aguentar calado
Ler essa fala como justificativa para ficar parado distorce o que o romance propõe. O ex-jagunço troca de bando, rompe com chefes, firma um pacto que talvez nunca tenha existido de fato, e escolhe caminhos diferentes repetidas vezes.
Há diferença entre ser sacudido pela oscilação e atravessá-la por decisão própria — essa distinção sustenta, até hoje, a força de uma das imagens mais repetidas da literatura escrita em português. Vale lembrar: quem fala ali é o personagem, não o escritor, que evitava explicar em entrevistas o sentido de sua própria obra.
Quando a coragem não é o que a vida pede
A leitura que faz da frase um convite à resignação inverte completamente o seu significado. Riobaldo não está dizendo que a pessoa deve aceitar passivamente qualquer situação sob o pretexto de que "tudo muda de qualquer jeito". Pelo contrário: ele próprio muda de lado, abandona chefes que o decepcionam, faz escolhas repetidas vezes. A coragem que a vida pede existe justamente para sair de situações que precisam ser abandonadas, não para ficar nelas.
A exceção ocorre quando alguém usa a frase como justificativa para permanecer imobilizado. Usar "a vida é assim" como desculpa para não agir quando é possível agir distorce o que o romance propõe. Riobaldo reconhece que há diferença entre ser sacudido pela oscilação e atravessá-la por decisão própria — essa distinção é fundamental. Quem fica parado esperando a maré virar não está sendo corajoso; está sendo passivo.
Como saber se o que estou vivendo agora é coragem ou apenas espera?
Riobaldo oferece um critério claro para essa pergunta: pergunte-se se você está sendo governado pela oscilação ou se está atravessando-a com intencionalidade. Quem simplesmente aguenta o "aperta" e o "afrouxa" sem escolher nada está sendo sacudido. Quem reconhece que nada dura — que o emprego pode virar incerteza, que a relação pode emperrar, que a decisão pode precisar ser tomada de novo — e mesmo assim continua decidindo ativamente está exercendo coragem. A diferença está no motivo, não na duração do sofrimento. Se você está esperando que a situação mude sozinha, é espera. Se você está agindo apesar de saber que nenhuma ação resolve tudo definitivamente, é coragem.



