O avanço da inteligência artificial preocupa cada vez mais a comunidade matemática mundial. A preocupação se intensificou quando o sistema OpenAI venceu olimpíadas matemáticas. Desde então, os avanços têm ocorrido em um ritmo que os humanos não conseguem acompanhar.
Em maio deste ano, a IA resolveu um problema de geometria que desafiava matemáticos há décadas: a questão da distância unitária, proposta por Paul Erdős. Para Pablo Groisman, matemático e pesquisador do CONICET, esse feito marcou um ponto de inflexão.
O pesquisador afirmou ao programa AURA que os matemáticos estão tentando entender o que está acontecendo, conforme informou o TN, e a declaração reflete o choque na área.
Como funciona a pesquisa matemática tradicional
Diferentemente de outras ciências, a matemática avança em um ritmo mais lento e metódico. Problemas em aberto surgem do trabalho de pesquisadores de referência e ficam disponíveis para a comunidade. Qualquer interessado pode tentar resolvê-los e contribuir para o progresso da disciplina.
O trabalho colaborativo é essencial: grupos distintos trabalham sobre o mesmo desafio, compartilham avanços parciais e submetem resultados a um processo rigoroso de revisão por pares. Quando obtém um resultado, o pesquisador redige um artigo e o envia a uma revista especializada. Editores e revisores avaliam a correção matemática, a relevância e a importância das contribuições.
Groisman explicou ao TN que, às vezes, passam cinco anos entre a apresentação de um artigo e sua publicação. Segundo o entrevistado, esse processo garante qualidade, mas demanda tempo.
A ruptura causada pelos algoritmos
Esse esquema tradicional foi abalado quando a IA entrou em cena. Em agosto e setembro, a OpenAI publicou soluções para problemas históricos, incluindo um dos Sete Problemas do Milênio — desafios considerados os mais importantes da disciplina.
O anúncio não seguiu o circuito convencional: foi feito no Twitter e em um blog, sem passar pelo processo habitual de revisão por pares.
Neste mês, a OpenAI divulgou 720 artigos que resolvem quase 400 problemas. "O processo que teoricamente pode levar entre cinco e 200 anos, com a IA se resolve num piscar de olhos", ilustrou Groisman. O Clay Institute, responsável pelos prêmios dos Problemas do Milênio, anunciou que precisará de tempo para avaliar esses avanços antes de chegar a uma decisão final.
O risco de matemática incompreensível
A comunidade matemática enfrenta agora um desafio sem precedentes: revisar e validar uma quantidade de resultados cuja análise, em condições normais, exigiria pelo menos uma década de trabalho colaborativo. Groisman alertou sobre um cenário que parecia ficção científica: "Há coisas que possivelmente não entenderão. Existe a possibilidade de que entre tudo produzido haja coisas que nenhum humano compreenda".
Os especialistas temem que, em poucos anos, os algoritmos produzam matemática incompreensível, o que encerraria a matemática como conhecimento acessível à humanidade.
Se a IA resolve problemas tão rápido, para que ainda precisamos de matemáticos?
A própria comunidade matemática está se fazendo essa pergunta, e segundo Groisman, o desafio não é mais resolver o problema, mas entender a solução fornecida pela IA. Se um algoritmo apresenta uma prova com milhões de passos lógicos que nenhum humano consegue ler e verificar completamente, ela é realmente uma contribuição à matemática?
O trabalho dos matemáticos pode estar mudando: em vez de encontrar respostas, eles podem precisar validar, traduzir. E interpretar o que as máquinas produziram — ou enfrentar um futuro em que parte da matemática se torne incompreensível até para os especialistas.


