A correspondência de Vicente Aleixandre com o pintor Gregorio Prieto revela um poeta que lutava para expressar sua verdadeira identidade em uma sociedade que exigia silêncio e conformidade. Trocadas ao longo de quase seis décadas, as cartas serviram de refúgio para confissões que o vencedor do Nobel de Literatura de 1977 raramente compartilhava em público.
Em outubro de 1929, décadas antes de receber o Nobel de Literatura, Aleixandre escreveu ao amigo sobre o preço de se manter fechado. Ele escreveu que sufocar sentimentos, impulsos e modos de ver, além de falar às vezes sob uma máscara, era doloroso e inócuo, portanto anti-humano.
A frase resume a tensão central de sua vida: a impossibilidade de ser autêntico dentro das convenções da época.
A intimidade das páginas privadas
O desconforto do poeta sevilhano ia além do incômodo social. Na mesma carta, ele criticava a crueldade da incompreensão burguesa. Para Aleixandre, a sociedade burguesa era cruel por sua falta de compreensão. Quem precisasse viver nela nunca teria uma vida de verdade, mas seria obrigado a mentir em muitas coisas.
Essa contradição definia sua existência: era forçado a fingir enquanto buscava a liberdade total de expressão. A solidão que descrevia não era paz, mas confinamento, e aleixandre se descrevia como alguém amputado, de certo modo, e constrangido a uma vida íntima, na solidão elevada de si mesmo.
Paradoxalmente, aquela reclusão também era seu refúgio, o único lugar onde conseguia falar com franqueza. Mas nem a privacidade oferecia uma saída completa. O poeta dizia que alguém era encerrado na solidão e, com amargura, confessava estar sozinho e desafinar às vezes no concerto das vozes médias.
A redescoberta da correspondência
O volume Visitar todos os céus, e cartas a Gregorio Prieto (1924-1981) , publicado pela Fundación Banco Santander em 2020, resgata 62 cartas datadas e doze sem data do arquivo do pintor. O jornalista Víctor Fernández organizou os documentos e preparou a introdução, que contextualiza a relação dos dois, mantida por praticamente toda a vida adulta.
As cartas não incluem as respostas de Prieto, que se perderam ou nunca foram arquivadas. Ainda assim, preservam o registro de uma amizade prolongada e mostram Aleixandre deixando de lado a máscara. Entre notícias sobre seus livros e confidências pessoais, Aleixandre encontrou no papel a liberdade que a sociedade lhe negava em pessoa.
Em 1981, Prieto havia proposto dedicar um livro ao poeta, que recebeu a ideia com entusiasmo, embora o projeto nunca se concretizasse.


