Pesquisadores descobriram que o consumo de açúcar durante a gravidez e nos primeiros anos de vida pode estar ligado ao risco de ansiedade e depressão na idade adulta. O resultado veio de um estudo que aproveitou um fato histórico: a restrição de açúcar na Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial.
Após a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico manteve o racionamento de alimentos. Quando o racionamento foi suspenso, em setembro de 1953, o consumo de açúcar aumentou drasticamente nas casas das famílias. As pessoas concebidas pouco antes e logo após essa mudança cresceram com diferentes níveis de disponibilidade de açúcar.
Como o açúcar aumentou após o fim do racionamento
Os registros do Levantamento Nacional de Alimentos britânico mostram a dimensão da mudança. A ingestão média diária de açúcar em adultos saltou de cerca de 43 gramas para 74 gramas em apenas 18 meses. O açúcar representou 77% das calorias extras que os adultos passaram a consumir nesse período, enquanto outros alimentos e nutrientes não tiveram variação significativa.
Essa mudança isolada permitiu aos cientistas estudar o efeito do açúcar sem precisar separar a influência de uma transformação completa da dieta nacional. Com isso, eles puderam fazer comparações mais precisas entre grupos de pessoas nascidas antes e depois da suspensão do racionamento.
O que o estudo com adultos britânicos revelou
Xiuping Dou, Yang Su e colegas da Universidade Sun Yat-Sen analisaram 66.223 adultos nascidos na Inglaterra. Escócia e País de Gales entre final de 1951 e meados de 1956, todos participantes do UK Biobank.
A data de nascimento de cada pessoa determinou quanto tempo ela passou sob o racionamento de açúcar. Alguns viveram sob a restrição desde a concepção até os dois anos; outros, apenas durante a gravidez; e um terceiro grupo nasceu quando o racionamento já havia terminado.
Os pesquisadores consultaram registros médicos e relatos dos participantes para identificar diagnósticos de ansiedade e depressão até 2022. No total, cerca de 12% havia recebido diagnóstico de ansiedade e aproximadamente 14%, de depressão. Para verificar se outros fatores poderiam explicar os achados, a equipe testou hipóteses alternativas.
Os pesquisadores dividiram as pessoas concebidas após o fim do racionamento segundo um critério de data não relacionado ao açúcar e constataram que ansiedade e depressão não diferiam claramente. Também analisou desfechos que não esperavam estar ligados ao açúcar precoce — como enxaqueca e primeira prescrição de óculos — e encontrou poucos vínculos.
Pesquisadores da Universidade de Surrey encontraram padrão semelhante para ansiedade, mas a associação com depressão enfraqueceu após considerar o consumo de açúcar na idade adulta. Mesmo após considerar fatores como sexo e local de nascimento, as diferenças entre os grupos de racionamento se mantiveram claras.
Racionamento prolongado associado a menos diagnósticos de transtornos mentais
Quem viveu sob racionamento durante todo esse período crítico — os primeiros 1.000 dias. Da concepção até cerca do segundo aniversário — apresentou risco cerca de 24% menor de receber diagnóstico de ansiedade e aproximadamente 21% menor para depressão em comparação com quem nasceu após o racionamento terminar.
A associação era mais forte quanto mais tempo o racionamento durava na infância: era menor quando cobria apenas a gravidez e aumentava significativamente nos primeiros anos de vida.
Essas pessoas também tenderam a receber seus diagnósticos mais tarde na vida adulta. O modelo estatístico dos pesquisadores estimou que o primeiro diagnóstico de ansiedade ocorria cerca de dois anos mais tarde que o típico, e o de depressão, aproximadamente quatro anos mais tarde.
O estudo não consegue provar que o açúcar causou essas diferenças, mas o padrão observado motiva investigações futuras sobre como a alimentação nos primeiros anos de desenvolvimento pode influenciar a saúde mental décadas depois.
Por que o racionamento britânico ofereceu uma oportunidade científica única
O racionamento pós-guerra na Grã-Bretanha criou um experimento natural impossível de replicar eticamente: uma mudança isolada no consumo de um alimento específico (açúcar) sem que toda a dieta nacional mudasse ao mesmo tempo. Quando o racionamento terminou em setembro de 1953, o consumo de açúcar em adultos mais que dobrou, mas outros alimentos não aumentaram de forma significativa.
Isso permitiu aos cientistas estudar o efeito isolado do açúcar, separado de outras mudanças dietéticas, comparando pessoas nascidas pouco antes e depois dessa data específica — uma estratégia de pesquisa que normalmente seria impossível de conduzir de forma controlada.


