Ansiedade

Psiquiatra Javier Quintero: "Sentir ansiedade faz parte da vida"

Ansiedade surge diante de circunstâncias incertas

Nervosismo antes de uma entrevista de emprego, preocupação com um problema familiar ou uma noite em claro por causa de uma prova são situações que a maioria das pessoas já vivenciou. A ansiedade emerge diante de circunstâncias incertas e, embora cause incômodo, nem sempre indica um transtorno mental.

O desafio está em reconhecer quando essa sensação passa a se repetir, fica fora de controle ou atrapalha a rotina. O psiquiatra Javier Quintero desenvolveu um método visual para ajudar as pessoas a distinguir entre uma reação emocional comum e uma situação que exige acompanhamento profissional.

Ele usa um semáforo com três cores — verde. Amarelo e vermelho — como ferramenta prática para identificar sinais que costumam passar despercebidos quando a preocupação começa a ocupar muito espaço na vida cotidiana.

Sua proposta torna claro que Sentir ansiedade não necessariamente significa ter um transtorno, mas também que ignorá-la quando começa a limitar decisões não é o caminho correto.

Quando a ansiedade é uma resposta natural

Conforme informou o El Confidencial, Quintero explicou que a ansiedade faz parte das respostas naturais do organismo e pode ser útil em certas situações, mantendo a pessoa atenta e preparada para enfrentar dificuldades.

O primeiro nível do semáforo é o verde, que corresponde aos momentos em que alguém experimenta inquietação diante de um evento específico — uma avaliação escolar. Uma reunião profissional importante ou uma preocupação ligada à família.

Mesmo quando as sensações parecem desagradáveis ou intensas, elas não indicam necessariamente um problema psicológico, conforme ressalta o especialista. A ansiedade nesse nível "pode fazer parte de uma resposta normal" e, em determinadas circunstâncias, "até pode ajudar a buscar melhores soluções". Essa função adaptativa permite que a pessoa antecipe possíveis dificuldades e mobilize recursos para responder a elas.

 

Sinais de alerta que merecem atenção

O segundo nível do semáforo é o amarelo, quando aparecem mudanças que exigem maior cuidado — especialmente quando as preocupações começam a se repetir e afetam o bem-estar pessoal. Uma das primeiras sinalizações consiste em antecipar constantemente que algo negativo pode acontecer, criando cenários negativos mesmo sem motivo aparente.

Dificuldades para dormir, problemas de concentração e uma sensação de inquietação mais frequente também marcam esse nível. Além disso, podem surgir mudanças comportamentais: a pessoa começa a rejeitar planos, adia compromissos ou evita situações que antes enfrentava sem maiores dificuldades.

Quando a ansiedade permanece ativa durante muito tempo ou surge sem uma ameaça clara, ela deixa de ser adaptativa e se torna fonte de sofrimento. Quintero ressaltou, conforme informou o El Confidencial, que estar nesta fase não significa necessariamente ter um transtorno, mas é importante dedicar mais tempo ao autocuidado e observar as mudanças no comportamento cotidiano.

Quando procurar ajuda especializada

O terceiro nível, representado pela cor vermelha, é quando a ansiedade começa a impedir atividades tão comuns quanto dirigir, viajar ou frequentar locais públicos. Nesse ponto, a avoidância — a tendência de abandonar situações geradoras de ansiedade — passa a estruturar a vida da pessoa. Quanto mais situações são evitadas, mais limitante o padrão se torna.

Manter horários regulares de descanso, praticar atividades físicas e desenvolver técnicas de relaxamento são medidas que ajudam a controlar a ansiedade nos estágios iniciais. Porém, essas estratégias sozinhas não são suficientes quando os sintomas persistem ou pioram.

Não é necessário esperar chegar ao nível vermelho para buscar avaliação profissional. Se as dificuldades para descansar, concentrar-se ou enfrentar determinadas situações se mantêm, um profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

Os transtornos de ansiedade podem ser abordados por meio de tratamentos psicológicos e, quando indicado, farmacológicos. A escolha depende das características de cada caso e da avaliação dos profissionais de saúde.

Valorize a vida

Platão: "Não espere uma crise para descobrir o que é importante em sua vida"

Platão deixou essa lição há mais de dois mil anos

21/10/2026 10h49

Imagem: Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons

Continue Lendo...

Valorizar o que temos antes de uma perda ou tragédia ajuda a construir uma vida mais equilibrada, sem depender da dor para reconhecer o que realmente importa. Platão deixou essa lição há mais de dois mil anos, e ela continua atual e desafiadora.

Adiar a valorização do que possuímos é um padrão que atravessa gerações. Platão identificou a dificuldade humana de reconhecer a importância de algo enquanto ainda está ao alcance, percebendo seu valor apenas quando corre o risco de desaparecer.

O padrão que rouba o essencial

A rotina acelerada prioriza as urgências do trabalho, das finanças e dos compromissos imediatos. Enquanto isso, relacionamentos de longo prazo, amizades genuínas, saúde do corpo e paz emocional ficam em segundo plano, sufocados por demandas que parecem mais prementes.

Muitos dedicam anos à carreira e às obrigações profissionais enquanto deixam de lado áreas vitais da vida pessoal. Só percebem o quanto negligenciaram o que realmente importa quando surge uma doença, ocorre um afastamento familiar ou chega um período de sofrimento.

Sabedoria que antecipa a perda

Para Platão, viver com sabedoria exigia observar continuamente os próprios hábitos, escolhas e prioridades, não para escapar de crises, mas para construir uma vida coerente antes que as consequências do descuido aparecessem. Para o filósofo, essa reflexão sobre a própria existência era o caminho para uma vida autêntica.

Reconhecer o que merece atenção sem esperar por uma tragédia exige desenvolver essa percepção todos os dias. Conversas significativas com quem se ama, cuidados antecipados com o corpo, pausas deliberadas no ritmo acelerado e reflexão honesta sobre o que gera satisfação real transformam essa reflexão antiga em ação presente.

Em uma sociedade que constantemente pressiona para mais produtividade e mais conquistas materiais, lembrar-se do que verdadeiramente importa pode interromper um ciclo de negligência que, sem essa pausa, duraria anos. Construir uma existência onde o essencial é cultivado agora, não depois de uma perda, é o convite que segue ecoando da Grécia Antiga até hoje.

Por que adiar a valorização é tão automático em nós

A dificuldade de reconhecer o valor do que temos enquanto está presente não é uma falha moral, mas um padrão do comportamento humano que Platão observou e que persiste até hoje.

Isso ocorre porque nossa mente tende a priorizar o que parece urgente no momento, como contas a pagar, prazos de trabalho e compromissos imediatos, em detrimento do que está seguro e estável. Um relacionamento duradouro, a saúde que funciona normalmente e uma amizade de anos acabam invisíveis justamente por estarem sempre presentes.

A percepção só muda radicalmente quando esse elemento seguro é ameaçado, por uma doença, um afastamento ou uma crise. De repente, aquilo que a rotina tornava invisível se torna precioso. Platão identificava que essa mudança exigia um esforço ativo de consciência: observar e refletir sobre as prioridades sem esperar que a perda imponha essa percepção.

Como faço para reconhecer o que importa sem esperar por uma crise?

Platão defendia a reflexão constante sobre os próprios hábitos, escolhas e prioridades. Na prática, isso significa pausar regularmente para observar onde vão o tempo, a energia e a atenção e se eles correspondem ao que consideramos importante.

Conversas genuínas com quem amamos, cuidados antecipados com a saúde, momentos fora do ritmo acelerado e perguntas honestas sobre o que gera satisfação real são práticas concretas. Não se trata de eliminar responsabilidades profissionais ou financeiras, mas de garantir que áreas vitais da vida pessoal — vínculos. Saúde e paz emocional — recebam atenção enquanto ainda estão ao nosso alcance.

A razão como ferramenta para compreender a vida

A filosofia grega, da qual Platão faz parte, marca a transição histórica do pensamento baseado em mitos para o pensamento baseado no logos — a razão. Isso significa que, em vez de explicar a vida e o comportamento humano por narrativas religiosas ou tradições fechadas.

Os filósofos gregos passaram a usar o raciocínio lógico para questionar ideias e buscar explicações universais. Essa mudança de mentalidade não era trivial: criava espaço para que qualquer pessoa refletisse criticamente sobre sua própria existência, em vez de apenas aceitar como as coisas eram.

O ambiente das cidades-estado gregas, onde existia liberdade intelectual e ausência de dogmas religiosos rígidos, permitiu que pensadores como Platão explorassem questões éticas e comportamentais com liberdade. Isso torna a provocação de Platão sobre reconhecer o valor do que temos parte de um movimento maior: a ideia de que cada pessoa pode e deve pensar racionalmente sobre sua própria vida.

Em vez de simplesmente viver segundo padrões automáticos ou impostos.

Reflexão

Victor Hugo: "Enquanto houver ignorância e miséria, livros desta natureza não serão inúteis"

Essa reflexão abre o prefácio de 'Os Miseráveis'

21/10/2026 10h28

Imagem: Wikimedia Commons

Continue Lendo...

Victor Hugo abre o prefácio de Os Miseráveis com uma promessa ao leitor, condensada em um único período repleto de pontos e vírgulas. Nessas linhas, ele afirma que a obra será útil enquanto a miséria e a falta de instrução persistirem entre os seres humanos.

O prefácio foi assinado em 1862, na Hauteville House, residência em que Hugo vivia exilado por sua oposição ao império de Napoleão III. A história de Jean Valjean, Fantine e Cosette nasce, assim, com a missão declarada de expor as injustiças sociais que marcavam a França do século 19.

A frase que resume o propósito do livro

A passagem mais conhecida da obra aparece no encerramento do prefácio: "enquanto houver sobre a Terra ignorância e miséria, livros desta natureza não serão inúteis". Com essa síntese, Hugo justifica por que decidiu narrar o destino de personagens esmagados pela pobreza e pelo abandono do Estado.

Antes dessa conclusão, o autor descreve uma espécie de danação social provocada pela maneira como a sociedade organiza suas regras e seus hábitos. Essa organização, segundo ele, transforma a vida cotidiana em um inferno construído dentro de uma civilização que se considera avançada.

 

Os três problemas que Hugo aponta no texto

Três situações concretas sustentam a crítica do escritor e aparecem nos personagens centrais da trama. Jean Valjean sofre uma punição desproporcional: cumpre pena nas galés depois de furtar um pedaço de pão para sobreviver.

Fantine, por sua vez, representa a mulher que se arruína para sustentar a filha, Cosette, e afunda cada vez mais na pobreza. Já Cosette simboliza a infância sufocada pela falta de escola, o que Hugo chama de atrofia provocada pela "noite" — metáfora para a ignorância que impede qualquer chance de ascensão.

O exílio que deu forma final ao romance

Victor Hugo chegou a Guernsey em outubro de 1855, após ser expulso da França por se opor ao governo de Napoleão III. Na ilha, viveu por 15 anos o período mais produtivo de sua carreira, e foi ali que Os Miseráveis ganhou a versão que conhecemos hoje.

O ponto de partida do projeto, no entanto, é bem anterior ao exílio: um manuscrito batizado de Misères, escrito entre 1.845 e 1.848 ainda em solo francês. Só em 28 de abril de 1860, já instalado em Hauteville House, Hugo retomou aquele material e o transformou no romance publicado em 1862.

Onde Hugo completou a obra

Em Guernsey, Hugo escreveu boa parte do romance no primeiro escritório da casa. Hoje, o cômodo serve de antessala para o mirante construído no telhado da residência. O romance foi publicado em 1862, no mesmo ano da assinatura do prefácio, e logo se tornou um clássico da literatura francesa.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).