Victor Hugo abre o prefácio de Os Miseráveis com uma promessa ao leitor, condensada em um único período repleto de pontos e vírgulas. Nessas linhas, ele afirma que a obra será útil enquanto a miséria e a falta de instrução persistirem entre os seres humanos.
O prefácio foi assinado em 1862, na Hauteville House, residência em que Hugo vivia exilado por sua oposição ao império de Napoleão III. A história de Jean Valjean, Fantine e Cosette nasce, assim, com a missão declarada de expor as injustiças sociais que marcavam a França do século 19.
A frase que resume o propósito do livro
A passagem mais conhecida da obra aparece no encerramento do prefácio: "enquanto houver sobre a Terra ignorância e miséria, livros desta natureza não serão inúteis". Com essa síntese, Hugo justifica por que decidiu narrar o destino de personagens esmagados pela pobreza e pelo abandono do Estado.
Antes dessa conclusão, o autor descreve uma espécie de danação social provocada pela maneira como a sociedade organiza suas regras e seus hábitos. Essa organização, segundo ele, transforma a vida cotidiana em um inferno construído dentro de uma civilização que se considera avançada.
Os três problemas que Hugo aponta no texto
Três situações concretas sustentam a crítica do escritor e aparecem nos personagens centrais da trama. Jean Valjean sofre uma punição desproporcional: cumpre pena nas galés depois de furtar um pedaço de pão para sobreviver.
Fantine, por sua vez, representa a mulher que se arruína para sustentar a filha, Cosette, e afunda cada vez mais na pobreza. Já Cosette simboliza a infância sufocada pela falta de escola, o que Hugo chama de atrofia provocada pela "noite" — metáfora para a ignorância que impede qualquer chance de ascensão.
O exílio que deu forma final ao romance
Victor Hugo chegou a Guernsey em outubro de 1855, após ser expulso da França por se opor ao governo de Napoleão III. Na ilha, viveu por 15 anos o período mais produtivo de sua carreira, e foi ali que Os Miseráveis ganhou a versão que conhecemos hoje.
O ponto de partida do projeto, no entanto, é bem anterior ao exílio: um manuscrito batizado de Misères, escrito entre 1.845 e 1.848 ainda em solo francês. Só em 28 de abril de 1860, já instalado em Hauteville House, Hugo retomou aquele material e o transformou no romance publicado em 1862.
Onde Hugo completou a obra
Em Guernsey, Hugo escreveu boa parte do romance no primeiro escritório da casa. Hoje, o cômodo serve de antessala para o mirante construído no telhado da residência. O romance foi publicado em 1862, no mesmo ano da assinatura do prefácio, e logo se tornou um clássico da literatura francesa.


