Para José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, a felicidade era um estado interior de conciliação consigo mesmo. Em dezembro de 2008, em Granada, o escritor português falou sobre os deveres inseparáveis de sua obra e a satisfação com suas decisões. Para ele, estar em paz não significava viver sem erros.
Isso exigia atenção às realidades do mundo — aos fatos bons e, sobretudo, aos ruins — e disposição para agir mesmo diante da incerteza.
Atenção ao outro como caminho para a paz
Durante o balanço de atividades da fundação que leva seu nome, presidida pela jornalista e tradutora Pilar del Río, Saramago explicou que sua tarefa não terminava na escrita.
Conforme registrou a agência Europa Press, ele defendia que era preciso estar atento às realidades do mundo — aos acontecimentos bons e, sobretudo. Aos ruins — porque essa atenção era o caminho para alcançar a felicidade.
O romancista recusava a ideia de que errar fosse motivo de vergonha. Segundo ele, valia mais cometer um erro do que manter-se indiferente. Essa visão resumia sua convicção sobre responsabilidade pessoal: agir com consciência das próprias limitações era mais valioso do que a apatia.
Consciência dos atos e suas consequências
Saramago insistia que era preciso conhecer a si mesmo e evitar causar dano às pessoas ao redor, embora algum dano fosse inevitável. A serenidade pessoal não depende de uma vida sem falhas, mas da atenção às consequências dos atos e ao impacto daquilo que se faz.
Essa consciência deveria, segundo ele, ao menos reduzir o estrago. A felicidade, portanto, não era um prêmio pela perfeição, mas resultava do cuidado e da lucidez diante dos erros inevitáveis da existência.
Da infância humilde à literatura marcante
Nascido em 1922, em Azinhaga, numa família de camponeses sem terras, Saramago cresceu em Lisboa e teve os estudos interrompidos por dificuldades financeiras. Trabalhou como serralheiro mecânico antes de atuar como funcionário público, tradutor, editor e jornalista. Formou-se como escritor principalmente por meio de leituras em bibliotecas públicas.
Obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e Todos os Nomes consolidaram seu estilo, marcado pela alegoria, pela ironia e pela narrativa de tradição oral, e fizeram dele uma figura central da literatura portuguesa. Sua obra refletia os valores de responsabilidade social que também marcavam sua vida pública.
O desconforto com os próprios elogios
Mesmo após o reconhecimento internacional, Saramago nunca se sentiu à vontade com os elogios recebidos. Em Granada, conforme informou a Europa Press, ele descreveu como exagerado tudo dito a seu respeito, expressando genuíno desconforto com a exposição que carregava há muitos anos. O escritor comparava seu próprio nome a uma espécie de varinha mágica que precisava ser usada com equilíbrio.
Reconhecia que seria pouco — ou quase nada — sem as pessoas que trabalhavam para cumprir os objetivos da fundação. A afirmação reforçava sua ideia de que a paz vinha da conexão com o outro e da contribuição ao mundo.
A formação política que moldou sua visão de responsabilidade
A reflexão de Saramago sobre responsabilidade pessoal e felicidade estava ligada às suas convicções políticas e à sua experiência de vida. Ateu e iberista, ele foi membro do Partido Comunista Português e trabalhou como diretor-adjunto do Diário de Notícias. Em 1975, demitiu jornalistas que protestavam contra a linha editorial comunista.
Também foi um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura, em 1992. Suas obras, marcadas pela alegoria, pela ironia e pela narrativa de tradição oral, refletiam essa preocupação com a justiça social.
Quando falava sobre estar atento às "realidades ruins do mundo", não dava um conselho abstrato: expressava a experiência de uma vida envolvida em questões de cultura, política e direitos humanos, traduzidas depois em romances como Memorial do Convento.


