A pressão que marca a vida de um jovem hoje não vem da política, vem da tecnologia que organiza quase tudo. É o que defende o escritor sueco de origem grega Theodor Kallifatides, de 88 anos, em entrevista recente.
Para ele, encontrar moradia, seguir os estudos e alcançar estabilidade formam um conjunto de barreiras que pesa de um jeito que sua geração nunca precisou enfrentar. O resultado, segundo o autor, é um tipo de desgaste emocional que marca o cotidiano de quem é jovem agora.
Uma tensão que não existia antes
Kallifatides reconhece que sua juventude também foi marcada por dificuldades reais, como pobreza e perseguição política. A diferença, na visão dele, é que esse cenário não incluía o controle tecnocrático que hoje atravessa praticamente toda decisão da vida adulta.
O escritor citou ainda o temor das mudanças climáticas, o risco de conflitos nucleares e as catástrofes naturais como preocupações que compõem o horizonte das novas gerações. Para ele, os jovens de hoje vivem num mundo mais hostil do que aquele em que cresceu — não porque o passado fosse simples. Mas porque a origem da angústia mudou de natureza.
Moradia, estudo e vida a dois
As dificuldades descritas por Kallifatides vão além do campo das ideias. Conseguir onde morar, manter os estudos e alcançar algum sossego são obstáculos concretos que, segundo ele, também dificultam a construção de relações afetivas duradouras.
Essa reflexão aparece ligada à novela "El amor", escrita originalmente em sueco em 1938 e publicada agora pela primeira vez em castelhano e catalão.
A obra trata de escolhas pessoais. Desejos e das consequências de optar por um caminho em vez de outro — temas que, para o autor, ganham outro peso quando faltam condições materiais para sustentar uma vida em comum.
O amor como resposta à incerteza
Mesmo diante do cenário que descreve como mais difícil, Kallifatides defende que os vínculos humanos seguem tendo valor essencial. Para ele, o amor resiste mesmo quando o contexto social e econômico torna tudo mais complicado.
Em entrevista, o escritor afirmou que, quando a vida fica muito difícil, a necessidade de ter alguém para amar e ser amado se torna ainda mais forte. A frase sintetiza uma ideia central de sua obra: mesmo com as circunstâncias mudando, o desejo de dividir a existência com outra pessoa permanece.
Kallifatides constrói há décadas uma obra voltada a esse tipo de dilema, e sua leitura sobre o estresse das novas gerações propõe outra chave: não apenas uma questão pessoal, mas um reflexo direto das condições em que essas pessoas tentam construir o próprio futuro.


