A solidão atinge uma em cada seis pessoas no mundo, segundo relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS). O problema está associado a cerca de 100 mortes por hora — mais de 871 mil óbitos por ano, aponta o documento.
Enquanto a OMS mapeia a dimensão do problema, uma pesquisa liderada pela CU Boulder aponta um caminho simples para amenizar o sentimento: passar tempo em contato com a natureza. Segundo o levantamento, os efeitos positivos dessa prática podem durar meses depois que a atividade termina.
O projeto, batizado de RECETAS (Re-imagining Environments for Connection and Engagement), nasceu em 2021 com recursos de €5,6 milhões da European Commission. E já conduziu testes em seis cidades: Barcelona, Praga, Helsinque, Marselha, Cuenca e Melbourne. O teste de Barcelona reuniu 320 adultos que relatavam solidão, moradores de 12 bairros de baixa renda da região metropolitana.
O que a ciência descobriu sobre o isolamento
Sentir-se sozinho não depende de estar ou não acompanhado fisicamente. Trata-se de uma desconexão entre o que a pessoa espera das próprias relações sociais e o que de fato vive no dia a dia. Por isso, alguém pode estar cercado de gente e ainda se sentir isolado.
Jill Litt, da CU Boulder e autora correspondente do estudo, disse que havia muito entusiasmo em torno de prescrições ligadas à natureza. Mas faltavam provas concretas — agora existem ensaios clínicos randomizados que mostram resultado real e duradouro.
Ela descreveu a solidão como um nó no estômago, a impressão de que algo não está certo, ressaltando que alguém pode estar cercado de gente e ainda se sentir isolado.
Consequências da solidão para a saúde
O isolamento prolongado eleva o risco de doenças cardiovasculares, demência, AVC, depressão e ansiedade. Esse quadro também sobrecarrega os sistemas de saúde, já que pessoas solitárias costumam procurar atendimento médico com mais frequência e chegam a prontos-socorros com queixas difíceis de diagnosticar — padrão conhecido como "síndrome da sexta-feira à tarde".
O estigma em torno do tema faz com que muita gente evite admitir o que sente, atribuindo os sintomas físicos a outras causas. De acordo com Litt, quando médicos investigam a fundo a origem dos sintomas. Descobrem que a solidão é um fator central — e que a solução pode estar fora do sistema médico tradicional.
Quem mais sofre com o problema
O relatório da OMS mostra que jovens e moradores de países de baixa e média renda são os mais afetados. Entre 17% e 21% das pessoas de 13 a 29 anos relataram sentir-se solitárias, com índice ainda maior entre adolescentes.
Em nações de baixa renda, a taxa chega a 24% — mais do que o dobro dos 11% registrados em países de alta renda. Pessoas com deficiência, refugiados, população LGBTQIA+, indígenas e minorias étnicas enfrentam barreiras extras de discriminação que dificultam ainda mais a conexão social, segundo o documento.
Causas apontadas pela OMS
A OMS atribui o fenômeno a fatores como saúde precária, renda baixa, pouca escolaridade, viver sozinho e falta de políticas públicas eficazes. O uso excessivo de telas e interações negativas on-line também aparece como ponto de atenção, especialmente entre os mais jovens.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que mesmo numa era com infinitas possibilidades de conexão, um número crescente de pessoas se sente isolado e solitário. Segundo ele, se não forem enfrentados, solidão e isolamento social vão continuar custando caro à sociedade em saúde, educação e emprego.
Grupos facilitados versus atividade livre
No teste de Barcelona, metade dos participantes foi dividida em grupos facilitados de 8 a 10 pessoas que se encontravam duas horas por semana durante nove semanas. Os encontros incluíram jardinagem, observação de pássaros, identificação de plantas e atividades artísticas ligadas à natureza, guiados por dois facilitadores treinados.
A outra metade recebeu a mesma orientação de atividades naturais, mas sem acompanhamento estruturado. Os índices de solidão caíram 11% em três meses, 12% em seis meses e 17% em um ano. A redução se manteve significativa, já que a maioria das intervenções contra a solidão produz benefícios que desaparecem quando o programa termina.
O formato em grupo se mostrou mais eficaz, principalmente entre os participantes que chegaram mais isolados e com sintomas mais intensos de ansiedade e depressão, e teve taxas de abandono menores. Para esse perfil, o encontro social organizado em meio à natureza pareceu funcionar como um reforço, além do efeito que a exposição individual ao ambiente natural já proporcionava.
A riqueza sensorial da natureza — sons, aromas e mudanças de luz — atua como facilitador adicional que espaços como consultórios ou centros comunitários não conseguem replicar.
A combinação entre contato com espaços verdes e convívio social estruturado aparece como alternativa de baixo custo diante de um problema que a OMS já trata como prioridade de saúde pública global.


