Reflexão e Filosofia

Voltaire: "É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram"

Filósofo fazia parte do movimento iluminista.

Voltaire encontrou uma maneira direta de expor um comportamento contraditório: a pessoa que diz valorizar a liberdade, mas insiste em preservar o que trava sua própria capacidade de pensar. O filósofo francês dedicou boa parte da obra a atacar exatamente esse tipo de prisão mental que a pessoa carrega por livre e espontânea vontade.

Há algo de incoerente em declarar apreço pela liberdade enquanto se faz questão de preservar justamente o que impede de considerar outros pontos de vista. Dogmas, hábitos de pensamento e certezas nunca colocadas à prova funcionam como correntes que ninguém mais precisa apertar: a própria pessoa já cuida disso.

A razão como ferramenta contra dogmas

Voltaire fazia parte do movimento iluminista, que colocava a racionalidade, o respeito às diferenças e o exame crítico das ideias no centro de seu projeto intelectual. Com base nesses valores, ele condenava dogmas e hábitos mentais que acabavam se tornando prisões sustentadas pelas próprias pessoas.

Quando a opinião vira parte da identidade

Rever uma convicção fica bem mais difícil quando ela deixou de ser apenas uma ideia e passou a definir quem a pessoa é. Nesse ponto, qualquer argumento contrário soa como ataque pessoal, não como contribuição para pensar melhor sobre o assunto.

Separar "eu acredito nisso" de "isso sou eu" muda completamente a forma de lidar com discordância. Investigar a origem de uma convicção, mapear as experiências que a embasam e testar se ela se manteria diante de uma prova contrária ajuda a reconsiderar posições sem que isso signifique um abalo à própria identidade.

Ferramentas práticas contra as próprias correntes

Comparar fontes diferentes sobre o mesmo tema expõe como uma opinião nasce, muitas vezes, do lugar de onde a pessoa olhou, não necessariamente dos fatos em si. Checar se um argumento se sustenta sozinho ou depende só de tradição e autoridade separa convicção genuína de hábito automático.

Discordância e ataque pessoal são coisas diferentes, embora costumem ser confundidas no calor de uma conversa. O conhecimento amplia o instrumental disponível para examinar preconceitos, mesmo sem garantir que alguém vá abandoná-los de uma hora para outra.

A responsabilidade por trás da liberdade

Pensar livremente não é aceitar qualquer ideia sem filtro, mas ter disposição para analisar argumentos e mudar de posição quando a evidência pede isso. Essa abertura funciona como treino constante, nunca como destino alcançado de uma vez por todas.

Uma reflexão atribuída a Antoine de Saint-Exupéry toca nesse mesmo ponto ao tratar da importância de ser compreendido para além das próprias certezas. Já uma frase ligada a Victor Hugo questiona os limites da compaixão, mostrando como um valor defendido com convicção pode gerar consequências bem diferentes das imaginadas.

Examinar as próprias certezas, mais do que descartá-las em bloco, é o caminho que a provocação de Voltaire deixa como tarefa. Encontrar uma opinião que incomoda e, antes de reagir, buscar seus fundamentos evita julgamentos apressados sobre quem pensa diferente.

Quando questionar uma crença não leva a mudá-la

Voltaire não defendia que examinar uma convicção obrigasse alguém a abandoná-la. O conhecimento amplia os instrumentos para entender os próprios preconceitos, mas não garante que eles sejam abandonados. Uma pessoa pode analisar criticamente uma opinião, considerar argumentos contrários, ter acesso a novas evidências — e ainda assim permanecer convencida de que estava certa desde o começo.

Vale uma ressalva: submeter uma crença ao exame crítico não equivale a abrir mão de princípios nem a tratar qualquer opinião como igualmente válida. Ao contrário, uma convicção pode sair ainda mais consistente depois de passar por esse crivo. A diferença está em você participar conscientemente dessa escolha, em vez de simplesmente repetir automaticamente o que aprendeu.

Voltaire como ativista político, não apenas filósofo abstrato

A crítica de Voltaire às amarras mentais não era apenas teórica. Ele foi preso várias vezes por satirizar os reis que governavam a França e criticar a corrupção da Igreja. Suas ideias questionavam o fanatismo religioso e o poder do clero, o que o levou ao exílio na Inglaterra.

A frase sobre as amarras que as pessoas veneram fazia parte de um projeto político maior: defender a liberdade de pensamento, o direito a um julgamento justo e a tolerância religiosa.

Voltaire não se dedicava a um debate acadêmico sobre como as pessoas pensam. Tentava libertar seus contemporâneos de crenças que os impediam de questionar o poder religioso e político estabelecido.

Seu legado contribuiu para os eventos que levaram às revoluções políticas e sociais do final do século XVIII e mostrou que o hábito de examinar as próprias convicções tem consequências concretas no mundo real.

Reflexão

Anton Tchekhov: "Errar é humano, mas atribuir o erro aos outros é ainda mais humano"

Esse padrão aparece nos relacionamentos pessoais, no trabalho e até nas decisões políticas.

30/10/2026 17h28

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A ideia de que errar é humano, mas atribuir o erro aos outros é ainda mais humano, continua sendo uma observação sobre a natureza humana ao longo dos séculos. A frase resume, em poucas palavras, uma verdade incômoda sobre a maneira como lidamos com nossas próprias falhas. A primeira parte da frase se conecta a uma longa tradição de pensamento.

O escritor, médico e dramaturgo russo Anton Tchekhov popularizou essa reflexão. Filósofos romanos, como Sêneca, e escritores posteriores, como Alexander Pope, já ressaltavam que a imperfeição e o erro são componentes inevitáveis da condição humana. Deslizes fazem parte da condição humana, marcada pela mortalidade e pela finitude. O que distingue a frase de Tchekhov é seu complemento irônico e perturbador.

O peso da responsabilidade pessoal

A dificuldade de aceitar a própria culpa aparece quando atribuir o erro aos outros parece ainda mais humano do que reconhecer as próprias falhas. Em vez de admitir o deslize, transferimos a responsabilidade para terceiros. Esse mecanismo protege a própria imagem, mas também revela uma fraqueza de caráter.

Esse padrão aparece nos relacionamentos pessoais, no trabalho e até nas decisões políticas. A tendência de proteger a própria imagem ao deslocar a culpa é tão difundida que Tchekhov a identificou como mais característica da natureza humana do que o próprio erro. O paradoxo está aí: admitir falhas é difícil; inventar culpados é mais fácil.

A visão de Tchekhov sobre a verdade na arte

Essa citação reflete a visão mais ampla de Tchekhov sobre a verdade. Para ele, a arte não comporta a mentira, e essa perspectiva também se aplica à vida cotidiana. O artista não deve julgar os personagens nem classificá-los como bons ou maus, mas apresentar os dilemas humanos como são, sem romantização.

Suas histórias exploram a vida provinciana russa com precisão. Em vez de heróis idealizados e vilões absolutos, retratam pessoas comuns envolvidas em pequenos dramas e conflitos que marcam a existência.

A rotina, aparentemente monótona, ganha profundidade quando Tchekhov revela o que pulsa sob a superfície: a dificuldade de lidar com a verdade sobre si mesmo.

A Lei de Tchekhov e a economia narrativa

Tchekhov também é conhecido por um princípio narrativo que leva seu nome: a Lei de Tchekhov. Segundo o princípio, se um elemento significativo, como um revólver, é introduzido no início de uma história, deve ter uma função e ser utilizado antes do final. Não há espaço para o supérfluo ou para detalhes sem função.

Essa rigidez estética reflete uma concepção de mundo em que tudo tem peso e consequência. Cada ação gera um efeito, e cada escolha se encadeia à seguinte. Nesse universo coerente, transferir a culpa aos outros não apenas contradiz a ética, mas também a lógica das coisas. O autor russo entendia que negligenciar essa verdade é negligenciar a realidade.

Reflexão

Han Kang: "A literatura nos permite entrar nas profundezas de outro ser humano"

Antes do Nobel, a escritora já havia conquistado reconhecimento internacional.

30/10/2026 16h41

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A escritora Han Kang recebeu o Prêmio Nobel de Literatura 2024, anunciado pela Academia Sueca em 10 de outubro daquele ano. A sul-coreana de 54 anos foi reconhecida por uma prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana.

No Brasil, a Editora Todavia publica sua obra desde o sucesso de "A Vegetariana", lançado por aqui em 2018 com tradução de Jae Hyung Woo. Depois vieram "Atos Humanos" (2021), traduzido por Ji Yun Kim, e "O Livro Branco" (2023), com tradução de Natália T. M.

Okabayashi — e para 2025 está confirmado "I Do Not Bid Farewell", publicado originalmente em 2021.

Uma autora que reinventa a própria forma de narrar

O editor de Han Kang no Brasil pela Todavia, Leandro Sarmatz, descreveu a vitória como "É a consagração merecidissíma de uma autora tão singular que reinventa a forma de contar histórias a cada novo livro". A frase resume o impacto de uma carreira construída sobre temas difíceis, tratados com delicadeza incomum. A autora também traz uma grande reflexão sobre o poder dos livros: "A literatura nos permite entrar nas profundezas de outro ser humano".

O crítico literário Schneider Carpeggiani considera "A Vegetariana" um dos livros de terror mais relevantes das últimas décadas — não pelo monstro clássico, mas pela forma como retrata a incapacidade humana de aceitar o diferente.

"No livro, o monstro não é mais o ET ou o vampiro de antes, mas sim a relação que existe com o outro. Trata-se de transformar o outro, de objetificar o outro, de não compreender o outro, de transformar o outro no estranho, quase no monstro. Isso pode ser tanto do homem em relação a mulher, do cis em relação ao trans, da gente em relação a qualquer estrangeiro. É o delicado das relações humanas e o pavor da gente se aproximar do próximo que faz A vegetariana ser o grande livro de terror das últimas décadas. Tanto que a primeira frase do livro é simbólica, quando o marido descobre que a mulher virou vegetariana e a partir disso ele começa uma relação de afastamento e de objetificação da mulher que deixa a gente no espiral dessa loucura", explicou Carpeggiani ao PublishNews. Para ele, a obra expõe como pessoas transformam o próximo em estranho, seja entre homem e mulher, cisgênero e transgênero, ou nativo e estrangeiro.

A literatura como ponte entre abismos Humanos

Essa capacidade de atravessar fronteiras emocionais é algo que a própria autora já explicou sobre seu ofício. Han Kang disse ao PublishNews: "A literatura nos permite entrar nas profundezas de outro ser humano". A obra de Han Kang sintetiza um projeto literário marcado pela violência silenciosa das relações e pela capacidade de atravessar fronteiras emocionais.

Antes do Nobel, a escritora já havia conquistado reconhecimento internacional com o International Booker Prize, vencido em 2016 por "A Vegetariana" e novamente em 2018 por "O Livro Branco". O prêmio sueco de 2024 tem valor de 10 milhões de coroas suecas e consolida uma trajetória que começou décadas antes nas páginas de revistas literárias.

Segunda sul-coreana a vencer um Nobel

Han Kang é a primeira pessoa nascida na Coreia do Sul a vencer o Nobel de Literatura, e a segunda do país a receber a honraria — o ex-presidente Kim Dae-Jung já havia conquistado o Nobel da Paz em 2000.

O momento reforça a projeção internacional da cultura sul-coreana, que já havia ganhado força global com produções como o filme "Parasita", entre 2019 e 2020. A vencedora do Prêmio Jovens Talentos 2024, Ing Lee, chegou a compartilhar uma ilustração própria da autora para celebrar a premiação nas redes sociais.

Da poesia aos romances que marcaram sua carreira

Nascida em 1970 na cidade de Gwangju, Han Kang se mudou para Seul aos nove anos, acompanhada da família. O pai dela também é romancista reconhecido, e a influência literária doméstica se somou ao interesse da autora por artes visuais e música, presente em toda sua obra.

A carreira literária começou em 1993 com a publicação de poemas em revista literária. Sua estreia na prosa veio em 1995 com uma coletânea de contos.

O reconhecimento internacional veio com "A Vegetariana", obra que consolidou seu estilo de explorar a fragilidade humana através de traumas íntimos e coletivos.

Quando o Nobel de Literatura não foi concedido

Nem todo ano o prêmio é entregue. Em 2018, a Academia Sueca decidiu não conceder o Nobel de Literatura, uma decisão rara em mais de um século de história. Para compensar, em 2019 dois prêmios foram concedidos — um referente a 2018 e outro ao ano em curso.

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