A política, como ciência, é surpreendente e resulta sempre desafiadora nos seus segredos e propósitos nunca desnudados, porque os seus caminhos são sempre envolventes, têm os seus segredos, os seus desenhos mágicos, suas construções e desconstruções avassaladoras.
Todas essas ações estão direcionadas para sedimentar as estradas construídas meticulosamente pelos seus articuladores com a chancela dos seus grupos políticos. Essas são as partes suaves e doces da sua conjuntura. As más dispensam comentários. Falo das traições, das mágoas, dos ressentimentos, da revolta, do desrespeito, das brutalidades selvagens e sempre brotadas de corações insanos. Tudo isso tem as suas explicações.
A política desperta sentimentos nobres e elevados como o amor, a paixão, a crença nos seus líderes, a grandeza da Pátria que está nas mãos de todos e que ninguém pode se omitir em participar da grande festa democrática, as eleições. Mas isso tudo para ter consistência, resistência e durabilidade no curso do tempo precisa vir acompanhada de fatos concretos, que lhes dão forma e objeto de juízo para uma análise desapaixonada e sempre com a chancela da razão.
Então, vamos lá. O ex-presidente que atualmente cumpre pena pela condenação que lhe foi imposta pela justiça anunciou por meio de uma carta manuscrita o nome do seu sucessor para a disputa presidencial do ano em curso. A nação inteira assistiu esse ato paternal. O mundo testemunhou esse feito histórico. Creio, não se tratar de uma decisão simples.
Também não acredito que veio a missiva acompanhada de atos provocativos. O certo é que ela mudou o cenário político e eleitoral nessa quadra dramática que protagonizará o eleitor brasileiro. Alianças consolidadas em diversos estados da federação tiveram que ser desfeitas. Outras tantas conversas foram interrompidas. Candidatos que já estavam sacramentados para as disputas majoritárias no seio das suas legendas e alianças edificadas sofreram um golpe tremendo com essa tempestade que alcançou a todos. Essa é uma das grandes surpresas por essa danada chamada política.
O destinatário maior desse propósito é o nosso sempre festejado eleitor. O caso mais envolvente nesse episódio não esta na indicação presidencial. Nada disso. Envolve diretamente o ocupante do Palácio dos Bandeirantes que só chegou àquele inquilinato graças a indicação do seu padrinho político.
Algo que não reserva espaço para ser contestado. A gratidão existe, resulta palpável, está ao nosso redor e só precisa da sensibilidade dos seus protagonistas. Mas ela ainda não resulta absoluta, com algumas exceções. Existem fundamentos para tudo. A ingratidão pode esboçar o seu sorriso perigoso recheado de ganância. São os propósitos condenáveis que ninguém pode imaginar o seu alcance, poder e força.
De outro vértice temos o tal Centrão que sempre foi o grande termômetro a indicar as votações mais importantes da Câmara Federal. Esse, sim, foi surpreendido, recebeu um golpe desnorteador e que pode ter sido o golpe mais devastador da grande cartada do ex-presidente. Mas não se iludam.
Naquele colóquio de interesses colidentes certamente não existe santos nem diabos. São todos rigorosamente iguais no ato mágico da satisfação pessoal de cada qual. São guerreiros todos profissionais. Ali não existem amadores. Todos estão entrincheirados e prontos para oferecer os seus discursos profiláticos.
O interesse maior do povo fica relegado à ultima de todas as instâncias, juízos ou tribunais. Quem viver verá! Pelos Poderes da República.
Em democracias maduras, o silêncio institucional não protege, fragiliza. E, neste caso, o custo da omissão pode ser significativamente maior do que o risco político inerente ao dever de investigar.



