Sigo de carona pela Avenida Ernesto Geisel, em Campo Grande, nas vésperas do Natal, com meu filho advogado no volante de seu automóvel, uma Mitsubishi novinha em folha. De repente, em um movimentado cruzamento, o moderno veículo para no semáforo.
Uma menina-moça maltrapilha, aparentando uns 15 anos de idade, surge e oferece chicletes ao condutor do veículo, meu filho, e este a dispensa, justificando não ter moeda para pagar pela famosa goma de mascar.
A menina se afasta com um tristonho olhar no semblante juvenil, momento em que meu filho a chama de volta e lhe dá uma nota de R$ 10. Como um raio de sol, a pobre vendedora esboça nos lábios um sorriso a la Gioconda e entrega ao comprador uma tira de plástico contendo uma dúzia de chicletes.
Esforço-me com grande dificuldade para esconder as lágrimas, pois choro intimamente diante da crua realidade daquele quadro perverso vivido por uma pobre vítima desafortunada dos governantes corruptos, que enriqueceram a eles próprios e a seus apaniguados, mormente a partir de 1982, quando os políticos civis voltaram a governar o Brasil.
Aquela menina-moça estava ali no semáforo como um grave libelo à miséria humana em que vivem milhões de brasileiros fugitivos da fome a procura de um local onde possam encontrar pão e teto. Vem-me à memória um documentário que tempos atrás vi na TV.
Aqui mesmo em Campo Grande, uma glamourosa festa em homenagem aos 15 anos de uma bela debutante era mostrada no referido documentário. Cenário exuberante de cores e flores, música efusiva e convidados vestidos a rigor.
De repente, a bela menina-moça surge conduzida pelo pai, um rico comerciante da cidade. Aplausos frenéticos e músicas alusivas ao comovente evento. Coisa de primeiro mundo!
No semáforo, onde meu filho estacionou seu moderno automóvel, e onde a maltrapilha menina-moça vendia chicletes, veio-me à mente aquele documentário televisivo, como em um instantâneo flash!
Comparo a riqueza da debutante no documentário e a miséria estampada no rosto não menos belo daquela pobre menina-moça no semáforo.
Nos meus oitenta e nove anos de idade, vi muitas cenas a me aguçarem a mente, mas nunca havia prestado atenção às mazelas sociais que vi pelo Brasil afora nas minhas inúmeras viagens a serviço dos meus saudosos clientes da advocacia.
Aquele triste quadro no semáforo me fez refletir sobre tão gritante diferença social entre ambas as meninas: a graciosa e feliz debutante conduzida pelo pai e a miséria cruel da menina-moça vendendo chicletes aos condutores de veículos em um agitado cruzamento de rua.
Vejo, na rapidez do pensamento, cinematográficos instantâneos divulgados pela mídia nas campanhas eleitorais de eleições passadas.
Vejo e ouço, nesses rápidos colóquios da minha mente, políticos proferindo verbosidades contra a miséria, com veladas promessas de extinguirem a fome e o desemprego.
Empossados nos cargos para os quais foram sufragados pelo eleitorado das míseras regiões brasileiras, olvidam-se por completo das falsas promessas, continuando o maltrato a castigar o submisso eleitorado daquelas paupérrimas regiões.
A esquerda petista sempre apregoou ser seu líder máximo “defensor dos pobres”. Essa falange de magnatas travestidos de “humílimos trabalhadores” governou o Brasil durante mais de 20 anos seguidos.
Todavia, ao sair do poder, deixou mais de 14 milhões de desempregados e o PIB nacional abaixo de vários países do terceiro mundo.
Na verdade, a miséria aviltou a economia brasileira, a qual, durante o governo anterior a 1982, atingiu elevados níveis, chegando a mais de 12% ao ano, aumentando consideravelmente o poder aquisitivo dos trabalhadores, segundo fontes econômicas fidedignas.
Em contrapartida, o governo esquerdista guindado ao poder posteriormente àquele ano (1982), comandado pelo PT, deixou um aviltante saldo de pobreza no nosso país – basta ver e ouvir comentários da mídia nesse sentido.
Exemplo dessa triste realidade nacional é a pobre menina-moça vendendo chicletes em um semáforo da nossa abençoada Campo Grande, como ocorre diariamente nos semáforos das maiores cidades brasileiras.



