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Lobos em pele de cordeiro e o golpe do 0800

A tecnologia bancária voltada à segurança é uma das principais prioridades das instituições financeiras no Brasil e no mundo

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A rápida digitalização decorrente dos avanços tecnológicos e o processo de inclusão bancária são indiscutivelmente eventos que melhoraram muito a vida das pessoas. No universo bancário, as facilidades para abrir conta diretamente no celular e as transações via Pix ou no próprio aplicativo de mensagens são exemplos destas inovações, que garantem uma boa experiência aos consumidores.

No entanto, todo este avanço também abre brechas para oportunistas, que buscam aplicar golpes e fraudes digitais se valendo da assimetria de conhecimento dos clientes sobre como se proteger em um mundo digital.

A tecnologia bancária voltada à segurança é uma das principais prioridades das instituições financeiras no Brasil e no mundo.

As diversas camadas de proteção dos sites e aplicativos bancários, como biometrias, tokens, senhas, entre outros mecanismos, que passam por atualizações frequentes, são formas eficientes de garantir a proteção dos clientes do ponto de vista tecnológico.

Todas essas inovações decorrem, em parte, do investimento de cerca de R$ 3,5 bilhões que os bancos fazem anualmente em tecnologias de segurança.

No entanto, os golpistas estão sempre se reinventando para tentar fazer novas vítimas, e agora, como lobos, tentam justamente se fantasiar de cordeiros para atacar os clientes.

Neste mês, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), como parte da sua agenda de educação e disseminação de conteúdo para combate a golpes e fraudes, emitiu um comunicado sobre uma modalidade que não é nova, mas está sendo cada vez mais praticada: o golpe do 0800, também conhecido como golpe da falsa central de atendimento.

Nele, os golpistas enviam mensagens via SMS ou aplicativo avisando sobre uma suposta compra suspeita e pedem para que a pessoa entre em contato por meio de um telefone 0800.

Ao ligar, ela é atendida por uma falsa central de segurança, porém, muito convincentemente montada, que a induz a entregar dados bancários confidenciais ou a fazer operações para cancelar a tal compra.

Trata-se de mais um golpe aplicado com o que chamamos de engenharia social. Cerca de 70% das tentativas de golpes, por sinal, utilizam este modus operandi.

Nessa modalidade, os golpistas criam uma história para sensibilizar e induzir as pessoas a entregarem informações confidenciais e realizarem transações, e, assim, conseguem lesar as vítimas.

A engenharia social usa determinados gatilhos para potencializar falhas humanas. No caso do golpe do 0800, os trapaceiros exploram principalmente o medo de as pessoas terem sua integridade financeira ameaçada, ao mesmo tempo em que oferecem uma falsa sensação de segurança, acolhimento e facilidade, com uma suposta central de atendimento.

Isso tudo afeta a capacidade de as vítimas tomarem decisões racionais. É neste “deslize” que o golpe toma forma.

Informação e prevenção: uma das principais defesas contra golpes é ter calma para analisar a situação. Ter conhecimento e consciência sobre os mecanismos de atuação também é fundamental para que as pessoas saibam das ameaças existentes e consigam se prevenir. Desconfie e, sempre que algo inusitado ocorrer, não ceda à primeira abordagem.

Em primeiro lugar, é importante enfatizar: bancos nunca ligam para você e pedem dados confidenciais, como senhas, tokens e outras informações pessoais, bem como jamais solicitam que sejam realizadas transferências, como Pix, para regularizar problemas nas contas. Pedidos assim devem acionar o alerta nas pessoas – é golpe!

Em segundo lugar, é preciso sempre ter em mente que há vários canais oficiais de contato com os bancos, listados em seus sites, aplicativos e cartões, além dos gerentes que atendem os clientes regularmente.

Assim, caso receba uma suposta mensagem do banco pedindo para entrar em contato por um número 0800, não faça isso, apenas ignore a mensagem ou, se tiver dúvidas, contate o seu banco pelos canais oficiais.

Essas medidas funcionam para prevenção não apenas do golpe do 0800, mas também de todos os tipos que utilizam a engenharia social. A informação, vale dizer, é a melhor ferramenta de prevenção.

Não à toa os bancos estão sempre atentos a novas modalidades de golpes, agindo e informando assim que surgem. O Itaú Unibanco, por exemplo, disponibiliza uma seção no site voltada exclusivamente a informar os clientes e a sociedade em geral sobre prevenção de fraudes e golpes.

Criminosos estão sempre em busca de novas formas de enganar as pessoas. E, infelizmente, estamos todos sujeitos a cair em suas armadilhas, cada vez mais elaboradas.

É nesse contexto que se torna fundamental a ampla difusão de informações sobre novas modalidades de golpes, assim como a união de bancos, entidades representativas, consumidores e autoridades policiais para que, juntos, possamos identificar com mais eficiência os lobos em pele de cordeiro e combater suas ameaças.

 

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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