O discurso do deputado estadual José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, em sessão da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, semana passada, em que fez dura crítica a um grupo de índios guarani-kaiowá por ter invadido uma fazenda na cidade de Rio Brilhante, criou um desmedido mal-estar entre os petistas.
Diversos manifestos propagaram pelas redes sociais contra a fala de Zeca, incluindo a do presidente estadual da legenda. A discórdia foi tanta que deixou a a entender que o episódio, ao menos nas interpretações acerca do assunto entre os corrigilionários, gerou um racha entre os petistas.
Zeca, que já foi governador de MS, deputado estadual, deputado federal e vereador de Campo Grande, fundamentou a crítica ao afirmar que os índios estariam errados em invadir a área, a fazenda do Inho, de quase 400 hectares, que seria produtiva e que "nem sequer" era parte de algum estudo antropológico para investigar se seria, ou não, terra indígena.
"Desde o pronunciamento desastroso do deputado estadual e ex-governador Zeca do PT, vários movimentos e lideranças, se posicionaram de forma contundente contra a referida manifestação do deputado Zeca", cita trecho de uma nota distribuída à imprensa nesta segunda-feira (13) pelo presidente regional do PT, Vladimir Ferreira, associado à sigla desde 1994, 28 anos atrás.
O Cimi (Conselho Missionário Indigenista) informou ao Correio do Estado que a área ocupada é estudada como eventual território indígena desde 2007, há 16 anos.
No comunicado, Ferreira foi mais longe: "essa indignação, tem como justificativa que tal posicionamento em que o deputado questiona de forma veemente e incoerente com relação a sua própria história e a do Partido dos Trabalhadores, o direito de luta e resistência dos povos indígenas e também dos trabalhadores sem terra, vítimas da exclusão histórica em nosso país e particularmente nesse caso da cultura latifundiária e concentradora de terras no Brasil".
A terra em questão, a fazenda do Inho, é propriedade do presidente do PT, em Rio Brilhante, José Raul das Neves Junior.
Quanto a isso, o comandante regional do PT, também se manifestou:
"Na vida e na política é preciso ter coerência, o fato da área Tekora Laranjeira Nanhanderu [fazenda do Inho], estar na posse de um companheiro do PT, não pode fazer com que mudemos de posição em defesa dos direitos dos indígenas de recuperar seu território tradicional".
Por fim, o presidente do PT de MS, escreveu: "reafirmo que o posicionamento do deputado Zeca, é um posicionamento isolado e equivocado, e de forma alguma representa o que o PT historicamente defende e que o governo do Presidente também".
Vladimir Ferreira arrematou a nota citando trecho do raciocínio de Eugen Bertholt Friedrich Brecht, renomado dramaturgo alemão: "todo mudo observa a correnteza do rio, mas poucos observam as margens que o oprimem".
Zeca foi criticado também pelos professores universitários Tiago Botelho e Giselle Marques, candidatos do PT na eleição passada ao Senado e governo do MS pelo.
A APIB, a Associação dos Povos Indígenas do Brasil e indígenas filiados ao PT de Dourados engrossaram o protesto contra Zeca.
O comando regional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) foi outra entidade que contrariou o discurso de Zeca:
"A declaração pública do dia 09 de março realizada pelo deputado Zeca do PT na tribuna da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, sobre a retomada de Laranjeira Nhanderu em Rio Brilhante, é inadmissível e explicita as contradições não resolvidas dos problemas agrários do Brasil".
Até a publicação deste material, o deputado petista não havia se manifestado quanto ao comunicado do presidene do PT em MS.



