Política

ENTREVISTA

"Os benefícios devem estar legalmente amparados, transparentes e compatíveis"

O procurador-geral de Justiça foi reconduzido ao cargo por mais dois anos, com a missão de consolidar a transformação digital do MPMS

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Reconduzido ao cargo de procurador-geral de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) para o biênio 2026-2028, o promotor de Justiça Romão Avila Milhan Júnior concedeu entrevista exclusiva ao Correio do Estado, em que falou sobre seus dois primeiros anos no cargo e os próximos desafios.

Ele também abordou o polêmico tema que é o fim dos “penduricalhos” nos salários dos servidores do Poder Judiciário. “É saudável debater como o dinheiro público é investido”, declarou.

Confira a entrevista completa.

A votação expressiva, com mais de 96% de apoio, reforça sua legitimidade. Como o senhor pretende corresponder a essa confiança dos membros do MPMS neste novo mandato?

A confiança expressa pelos membros do MPMS é um compromisso que assumo com responsabilidade e dedicação.

Neste novo mandato, vamos consolidar o Ministério Público [de Mato Grosso do Sul] como agente de transformação social, ampliando a eficiência institucional, a inovação tecnológica e a inteligência investigativa.

Projetos como o LuminIA, o fortalecimento dos Centros de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça [CAOs], a modernização do Compor [Centro de Autocomposição de Conflitos e Segurança Jurídica] e a criação de Centrais de Apoio às Promotorias garantirão atuação estratégica e suporte qualificado aos membros.

Internamente, priorizaremos a valorização, a capacitação e o bem-estar dos integrantes, com a Escola de Liderança e Gestão, saúde mental e segurança institucional.

Quais serão as principais diferenças entre seu primeiro mandato e sua gestão de 2026 a 2028?

Estamos em um bom caminho. Por isso, essa nova gestão será dedicada a consolidar os avanços que já construímos, renovar missões e corrigir rumos quando identificarmos essa necessidade, sempre pensando em entregar o melhor serviço ao cidadão.

Entre os eixos estratégicos apresentados, qual o senhor considera mais desafiador de implementar e por quê?

Entre os eixos estratégicos, a consolidação da transformação digital representa um grande desafio, pois envolve não apenas a implantação de novas tecnologias, como o sistema nativamente digital com inteligência artificial [IA] e a mudança de cultura organizacional em todos os órgãos de execução.

Sabemos do momento sensível enfrentado em relação ao combate à violência contra a mulher e, de nossa parte, vamos prosseguir com o trabalho diuturno para assegurar a proteção das vítimas, a responsabilização dos agressores e, ainda, atuar na prevenção.

É por isso que foi criado o sistema Alerta Lilás, que monitora agressores reincidentes, com resultados expressivos, e que foi destaque nacional em iniciativas dos Ministérios Públicos.

Esse sistema, inclusive, está sendo atualizado para monitorar outros tipos de infratores, como parte dos esforços por um Ministério Público ainda mais eficiente no combate à criminalidade e na proteção da sociedade.

Juntamente com os que me ladeiam na administração superior, tenho o compromisso de conduzir esse processo de forma estruturada, garantindo capacitação contínua, adaptação dos fluxos de trabalho e suporte aos membros e servidores, além do diálogo constante com a sociedade.

Como transformar o discurso de eficiência e proximidade com a sociedade em resultados concretos para a população?

Sair do discurso para os resultados concretos exige unir inovação, gestão estratégica e atuação orientada por prioridades sociais.

No MPMS, isso significa usar tecnologia e inteligência investigativa para agilizar processos, fortalecer e ampliar o suporte às Promotorias de Justiça. Também envolve direcionar ações à proteção da infância, à defesa do patrimônio público e ao combate à corrupção.

Com foco em dados, planejamento e pessoas capacitadas, garantimos que a sociedade perceba na prática uma justiça mais ágil, acessível e efetiva.

O novo sistema digital com inteligência artificial promete revolucionar os processos internos. Quando ele deve entrar em funcionamento e quais impactos diretos a sociedade pode esperar?

Para a sociedade, isso significa dar respostas mais rápidas, com a coleta de elementos probatórios de peso, levando a decisões mais precisas e maior eficiência na proteção da infância, da juventude, das mulheres, dos idosos e vulneráveis, além do cuidado com o patrimônio público, que é de todos.

Nossa meta é usar a tecnologia como instrumento de transformação concreta, tornando o MPMS mais eficiente e acessível a todos.

Há preocupação com riscos éticos ou operacionais com o uso de inteligência artificial nas decisões do Ministério Público? Como isso será controlado?

Sim, essa é uma preocupação inerente a qualquer passo dado por nós. A IA será utilizada como ferramenta de apoio, e não uma substituta das decisões humanas.

Nosso compromisso é alinhar a tecnologia aos princípios éticos e legais, com a necessária segurança e proteção de dados, assegurando que cada decisão continue pautada pelo interesse público e pela Justiça, com total confiança da sociedade.

Ferramentas como Mercúrio, Hórus Connect e Rede Cronos MP indicam um avanço na inteligência investigativa. Como essas iniciativas vão fortalecer o combate à corrupção e ao crime organizado no Estado?

Essas ferramentas são transformadoras para o MPMS no combate à corrupção e ao crime organizado.

Com o Mercúrio, conseguimos analisar quebras de sigilo bancário de forma estruturada e mais ágil, enquanto o Hórus Connect e a Rede Cronos MP nos permitem integrar informações com outros Ministérios Públicos de forma segura e padronizada.

Na prática, isso significa operações sólidas em coleta de provas, decisões estratégicas baseadas em dados confiáveis e a capacidade de agir rapidamente diante de ilícitos complexos, fortalecendo a efetividade da Justiça e trazendo resultados concretos para a sociedade.

O MPMS pretende assumir protagonismo nacional na integração de dados investigativos? Como isso será feito na prática?

Uma das provas nesse sentido é que vamos coordenar e aprimorar ferramentas como Mercúrio, Hórus Connect e a Rede Cronos MP, promovendo a troca estruturada de informações entre unidades e ramos do Ministério Público em todo o País.

A intenção é criar uma rede integrada de inteligência, garantindo resultados concretos para a sociedade sul-mato-grossense.

A reestruturação do Compor e a criação de Centrais de Apoio às Promotorias indicam mudanças internas importantes. Como isso vai impactar o trabalho dos promotores na ponta?

Esses são passos decisivos para aprimorar a atuação de quem está nos órgãos de execução, lidando diretamente com os problemas da população.

Com essas mudanças, os promotores e promotoras de Justiça e os servidores terão suporte técnico mais ágil e especializado, acesso a fluxos padronizados e rotinas automatizadas, o que abre espaço de tempo para se dedicarem à atuação estratégica e às demandas mais complexas.

A saúde mental foi destacada como prioridade. Que ações concretas serão implementadas nesse sentido?

Um Ministério Público forte depende de pessoas saudáveis e motivadas. Por isso, implementamos programas contínuos de suporte psicológico, capacitação de lideranças e iniciativas voltadas à promoção de um ambiente de trabalho saudável.

Assim, podemos reduzir riscos psicossociais, valorizar os servidores e garantir que todos possam desempenhar suas funções com segurança, equilíbrio e produtividade adequada.

O projeto Mais Prudente, Mais Seguro será ampliado. Há hoje riscos reais à integridade de membros e servidores?

Existe a plena consciência dos riscos reais à integridade de nossos membros e servidores, especialmente em unidades do interior com menor presença policial e em contexto de forte presença de facções criminosas.

Por isso, estamos ampliando o projeto Mais Prudente, Mais Seguro, com monitoramento eletrônico 24 horas, reforço do efetivo policial e centrais de apoio para resposta rápida.

Também vamos fortalecer a cultura de segurança por meio de ações educativas, orientações e medidas preventivas, para assegurar a todos a garantia de desempenhar suas funções com proteção, respaldo institucional e tranquilidade, reforçando um MPMS cada vez mais seguro e eficiente.

Como funcionará o monitoramento 24 horas das unidades e o reforço policial nas comarcas?

A ideia é estruturar o monitoramento 24 horas das unidades do MPMS por meio de uma rede integrada de vídeo, com sala de controle central para acompanhar todas as operações em tempo real.

Paralelamente, estamos reforçando o efetivo policial nas comarcas, especialmente nas que não têm agentes próprios, garantindo prevenção, pronta resposta e proteção efetiva.

Além disso, o contato será constante entre promotores de Justiça e comandos locais da PM, promovendo orientação, coleta de feedback e coordenação institucional, para que a segurança seja abrangente, ágil e confiável em todas as unidades.

A busca por uma dotação orçamentária mais justa continua sendo pauta. O orçamento atual é insuficiente? Em quais áreas isso tem mais impacto?

Existem áreas nas quais o orçamento precisa ser reforçado, especialmente quando analisamos setores como a infraestrutura das unidades do interior, a manutenção predial e a modernização dos espaços de trabalho.

Nosso compromisso é articular permanentemente com o Executivo para assegurar recursos justos, garantindo que cada membro e servidor tenha espaço adequado, seguro e funcional para entregar resultados concretos à sociedade.

O senhor afirmou que sua missão é tornar o MPMS um instrumento efetivo de transformação social. Que resultados concretos a população pode esperar ao fim deste novo mandato?

Trabalhamos todos os dias, desde o primeiro dia da gestão, e continuará sendo assim daqui para a frente, para que a população se sirva de um MPMS mais moderno e eficiente, com processos digitais integrados e uso de inteligência artificial para atingir resultados mais efetivos.

Esses recursos dão ainda mais condições de oferecer um atendimento de qualidade, combinado ao acolhimento de quem precisa do nosso trabalho em defesa da sociedade.

Paralelamente, temos como missão o fortalecimento da nossa presença nos Tribunais Superiores, para que as demandas sejam tratadas com a devida atenção até o último grau de instância.

Nos últimos anos, os chamados “penduricalhos” no serviço público têm sido alvo de críticas e debates nacionais. Como o senhor avalia essa questão dentro do Ministério Público? Há previsão de revisão ou adequação desses benefícios durante sua gestão?

As discussões sobre esse tema são parte de um debate amplo no Brasil, envolvendo transparência, responsabilidade fiscal e respeito à Constituição. É saudável debater como o dinheiro público é investido.

A postura de nossa gestão é clara: todos os benefícios devem estar legalmente amparados, transparentes e compatíveis com os princípios da administração pública.

Estamos acompanhando atentamente este debate nacional, dedicados a fazer o necessário para cumprir o regramento definido, sempre com respeito à legalidade e à valorização responsável dos nossos membros e servidores.

{Perfil}

Romão Avila Milhan Jr.

Natural de Umuarama (PR), é bacharel em Direito, pela Universidade Paranaense (2007), e especialista em Direito Penal, pela Fundação Escola do Ministério Público do Paraná. Ele foi defensor público no Espírito Santo e, em 2010, tornou-se promotor de Justiça de Mato Grosso do Sul.

Em 2023, tornou-se procurador-geral adjunto de Justiça e, em 2024, foi eleito procurador-geral de Justiça, sendo reconduzido ao cargo em março deste ano para o biênio 2026-2028.

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Governo Federal

Simone sai, mas MS terá outro ministro

Mudanças no primeiro escalão por causa das eleições mantêm Mato Grosso do Sul com espaço na Esplanada dos Ministérios

27/03/2026 16h00

Imagem Divulgação

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Enquanto a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, deve deixar o governo federal para disputar o Senado, o Estado será representado pelo advogado Eloy Terena, que assume o Ministério dos Povos Indígenas.

A ministra Simone Tebet informou que deixará o cargo até 30 de março para disputar o Senado por São Paulo (SP), pelo partido PSB, após 29 anos de trajetória no MDB.

Em relação ao Ministério dos Povos Indígenas, a ministra Sonia Guajajara, em cumprimento ao prazo de desincompatibilização exigido pela legislação eleitoral, também deixará o governo para tentar se tornar a primeira deputada federal indígena reeleita da história do Brasil.

Com isso, o Estado registra três nomes em pastas do governo federal, já que o Ministério das Mulheres foi comandado pela sul-mato-grossense Cida Gonçalves por dois anos e quatro meses.

Com a saída de Sonia, Eloy Terena assume o ministério em um momento de conquistas para os povos originários em Mato Grosso do Sul, como o acordo que encerrou o conflito fundiário Ñande Ru Marangatu, em Antônio João, colocando fim a quatro décadas de disputa, além do reconhecimento da anistia pós morte de Marçal de Souza, liderança Guarani-Kaiowá com reconhecimento internacional.

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Perfil

Luiz Eloy Terena é indígena oriundo da aldeia Ipegue, no município de Aquidauana (MS). Bacharel em Ciências Jurídicas pela UCDB, é advogado indígena com atuação no Supremo Tribunal Federal (STF) e em organismos internacionais. Foi coordenador do Departamento Jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

É mestre em Desenvolvimento Local (UCDB), doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ) e doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da UFF. Possui pós-doutorado em Antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, e realizou estágio de pesquisa na Brandon University, com foco em conflitos territoriais indígenas, por meio do Emerging Leaders in the Americas Program (Elap), do governo do Canadá.

Foi membro do Grupo de Trabalho “Direitos Indígenas: acesso à justiça e singularidades processuais”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e da Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) da Associação Brasileira de Antropologia (2019–2020). Também integrou o Grupo de Trabalho Povos Indígenas e Tortura, da Organização Mundial de Combate à Tortura (OMCT), e a Comissão Especial para Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas do Conselho Federal da OAB (2012–2016).

Atualmente, é secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e professor na Escola de Direito da PUC-PR, no Programa de Pós-Graduação em Direito Socioambiental.

Recebeu menção honrosa na edição de 2020 do Prêmio de Excelência Acadêmica da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, por sua tese de doutorado “Vukápanavo – O despertar do povo Terena para seus direitos: movimento indígena e confronto político”.

Também foi agraciado com o título de Grande Oficial da Ordem de Rio Branco, por decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Ciência Jurídica pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).
 

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Recurso emergencial

Ministério da Saúde encaminha R$ 850 mil para frear chikungunya em Dourados

Envio de recursos ocorre após articulação da ala petista da bancada federal

27/03/2026 15h30

Chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes Aegypti (acima)

Chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes Aegypti (acima) Foto: Pixabay

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Na tentativa de conter o surto de chikungunya, o Ministério da Saúde autorizou o envio de R$ 855,2 mil em recursos emergenciais para Dourados. O repasse foi oficializado por meio de portaria publicada nesta sexta-feira (27) e tem como objetivo reforçar as ações de combate à arbovirose que já vitimou seis no Estado somente em 2026.  Desde o início do ano, foram registradas cinco mortes em Dourados e uma em Bonito. 

Com o recurso federal, a prefeitura deve intensificar ações de vigilância epidemiológica, ampliar o atendimento à população e reforçar o combate ao mosquito transmissor, além de expandir a assistência na rede de saúde.

No município, a situação em Dourados é monitorada pelo Ministério da Saúde desde o dia 20 de março. Equipes da Força Nacional do SUS, agentes de combate a endemias e especialistas já foram enviados para reforçar a rede hospitalar, que opera com capacidade máxima. Também está prevista a instalação de um Centro de Operações de Emergência em Saúde (COE) para coordenar as ações de combate à arbovirose.

O envio dos recursos ocorre após articulação da bancada federal de Mato Grosso do Sul, entre os deputados federais petistas Camila Jara e Vander Loubet junto ao governo federal após agendas no Ministério da Saúde e na Casa Civil, além do encaminhamento de ofícios a diferentes órgãos, solicitando atuação conjunta para atender a população.

A prefeitura municipal de Dourados já decretou situação de emergência em saúde pública devido ao avanço dos casos da doença. A aplicação dos recursos e a evolução do cenário epidemiológico seguem sendo acompanhadas em articulação com órgãos federais.

Situação

Inicialmente concentrada na área da Reserva Indígena, a disseminação da doença já atinge bairros como Jardim dos Estados, Novo Horizonte e a região do Jóquei Clube, apontados como áreas com maior incidência de focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor também da Dengue e Zika.

Essa "explosão" dos casos de Chikungunya em 2025 passou a ser observada já desde o início do ano passado, quando até o começo de março Mato Grosso do Sul já anotava 2.122 casos prováveis. 

Através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, por exemplo, é possível notar que a série histórica iniciada em 2015 começa com apenas um óbito registrado naquele ano.

Até 2024 essa arbovirose iria vitimar um total de apenas oito sul-mato-grossenses, já que com 2016 e 17 passando sem qualquer registro de morte por Chikungunya em Mato Grosso do Sul, a doença só voltou a matar um paciente em 2018, ano em que três pessoas morreram.

Porém, nos quatro anos seguintes (de 2019 a 2022) ela voltaria a sumir do radar do sul-mato-grossense. Na sequência, antes de explodir no ano passado, 2023 e 2024 só registraram, respectivamente, três e uma morte por chikungunya em Mato Grosso do Sul, com o ano passado somando o dobro dos óbitos da última década, como bem acompanha o Correio do Estado

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