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"Um início de governo cauteloso, é a palavra que eu usaria neste processo inicial"

Eduardo Riedel terá uma série de desafios já em seu primeiro mês como governador de Mato Grosso do Sul; confira a entrevista exclusiva concedida ao Correio do Estado

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Conhecido por onde passou como um gestor que alcança os resultados a que se propõe, Eduardo Riedel (PSDB) assume neste dia 1º de janeiro de 2023 o maior desafio de sua carreira, o de governar Mato Grosso do Sul.

Administrar o Estado também será a incumbência de seu primeiro mandato eletivo. Sucessor de seu correligionário Reinaldo Azambuja, Riedel integrou o primeiro escalão do governo durante quase oito anos.

Eduardo Riedel venceu a primeira eleição da qual participou e chega para atender aos anseios de uma frente de centro-direita, mas que se ampliou à esquerda depois de uma disputa duríssima com Capitão Contar (PRTB) no segundo turno. 

Riedel sabe que os desafios serão muitos e que começarão logo depois da posse.

A “conta” das bondades fiscais feitas pelo Congresso Nacional e pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) no início de 2022 vai chegar agora, em 2023, e, com ela, vários compromissos assumidos durante a campanha, como melhorias salariais para servidores e manutenção e ampliação de programas sociais, além de investimentos em infraestrutura.

“É um início de governo cauteloso, essa é a palavra que eu usaria neste processo inicial”, diz Eduardo Riedel, em entrevista exclusiva ao Correio do Estado.

Confira o que o novo governador de Mato Grosso do Sul pelos próximos quatro anos tem a dizer à população. 


Quais serão os primeiros desafios de sua administração, que começa neste dia 1º de janeiro?

Uma coisa positiva é que os programas de investimento da gestão atual não sofrerão descontinuidade. A prefeita de Campo Grande [Adriane Lopes, do Patriota], por exemplo, assinou um convênio com o governo para repasse de recursos para obras.

Por isso, não teremos nenhum prejuízo no que diz respeito à continuidade dos programas. Mas o ano será de mudança no governo federal, e isso certamente traz mudanças das políticas públicas. Não estou dizendo que a mudança dessas políticas é bom ou ruim.

O que estou dizendo é que a gente vai ter de se ajustar. 

E há também a questão fiscal. A gente terá um ano para entender os impactos, os aumentos dos custos. Existe uma conjuntura sobre a qual a gente vai ter de se debruçar muito para entender o ano de 2023.
 
O senhor já adiantou, então, que o grande desafio será a gestão fiscal. Como ficará a questão dos tributos sobre os combustíveis, que foram reduzidos em 2022?

A grande questão é que nós estamos passando por uma mudança de regramento. Não é uma questão de manter uma alíquota de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] ou não manter. O STF [Supremo Tribunal Federal] está decidindo. 

Na verdade, estamos em uma reforma fiscal meio às avessas. O novo ministro da Economia, [Fernando] Haddad, disse que a prioridade dele é a reforma fiscal e, por isso, trouxe o Bernard Appy [autor do projeto de reforma tributária que está mais avançado no Congresso Nacional].

Isso é ótimo! E você viu o tanto que eu falei sobre isso na campanha. Só que a partir da decisão do presidente [Jair] Bolsonaro de diminuir, lá em abril, as alíquotas dos impostos dos combustíveis na caneta, isso trouxe impacto – e grande. 

Mas aí podemos pensar: “Vamos segurar as alíquotas?”. Só que o Supremo está votando alterações nesse processo. Por exemplo: a alíquota modal brasileira é de 17%, a do diesel em Mato Grosso do Sul é de 12%.

E, de repente, vem uma decisão de que vai ter de ser nivelado para todo o Brasil: então, a alíquota do diesel iria para 15% ou 16%. Essa é uma decisão judicial que está posta.

A base de cálculo foi imposta pelo Supremo. A gente estava decidido a segurar pela média dos cinco anos.

Agora, eles voltaram atrás e farão as médias para os estados. Ou seja: a Justiça está decidindo, em parte, a reforma fiscal. 

Está longe de ser uma reforma tributária, mas o STF está nivelando uma série de condicionantes. Então, nós temos de entender bem tudo isso, até porque não está tudo julgado. O Judiciário está em recesso, mas há embargos de declaração que o próprio Estado enviou.

Tem discussão para sair agora. O mês de janeiro é um mês de muito acompanhamento, de muita discussão para a gente poder entender o ano de 2023, e esta é a preocupação inicial. O que eu não abro mão é da responsabilidade fiscal.

Com essa política fiscal atual, a gente suporta os programas? Não. Então, do que a gente vai abrir mão em 2023? Teremos de tomar uma decisão.

E sobre decisões recentes que já aumentaram o salário da elite do funcionalismo público para o teto do Supremo Tribunal Federal (até R$ 46 mil) e também o compromisso de equiparar o salário dos professores concursados e convocados, como fica tudo isso com os desafios fiscais?

Vejo isso com tranquilidade. A gente tem de fazer um bom planejamento. A partir do momento em que a gente tem a regra definida, vamos sentar com as categorias, como sempre fizemos, e avaliar o que é possível fazer. 

Temos uma diretriz a ser tomada: igualar salário de professor convocado com o de professor estatutário.

Então, dentro do orçamento, como a gente pode fazer isso nos próximos anos? É esse planejamento que vamos fazer a partir do momento em que tivermos esse regramento definido.

É difícil dizer agora, porque a gente passou uma eleição com muitas pendências judiciais, frutos da medida do governo federal que alterou o ICMS, e ninguém altera ICMS de cima para baixo. Isso teve uma série de consequências jurídicas que agora estão sendo decididas pelo Supremo.

Então, a gente tem de ter cautela no mês de janeiro e fevereiro para entender como a gente pode assumir os compromissos colocados dentro desse regramento fiscal. É um início de governo cauteloso, essa é a palavra que eu usaria neste processo inicial.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que chamaria os governadores para elencar quais as obras fundamentais em cada estado. Ele já fez algum contato nesse sentido? Quais seriam as obras?

Ele disse isso no debate. Ainda não sei se teremos uma reunião sobre isso. A única reunião que tivemos com o presidente Lula foi uma videoconferência organizada pelo Fórum de Governadores, tratando justamente das questões fiscais que falei.

Com o presidente, nós não tivemos nenhuma reunião. Ele avisou que vai chamar os governadores em janeiro para uma conversa, e nós, inclusive, temos de levar nossa preocupação em relação a esses regramentos que estão colocados. 

E ele mencionou, que eu saiba, no debate, que ele ia solicitar que cada estado indicasse três obras prioritárias. Mas nós temos de aguardar para saber se é obra federal ou estadual, se é obra de habitação, infraestrutura, rodovia ou ferrovia.

Nós temos de entender, porque não temos nada colocado de maneira concreta. Essa é uma fala dele de campanha. Então, temos de aguardar para ver como o presidente vai conduzir isso.
 
E qual a expectativa em termos de relação institucional com o governo federal? Como têm sido os contatos?

Positivos, agora que ele [Lula] já definiu o Ministério. A gente tem uma tranquilidade muito grande em saber que nós vamos nos relacionar institucionalmente de maneira muito positiva, sem nenhum problema, em todas as áreas que eles estão dizendo atuar. 

A gente discutiu muito [a questão da] habitação. O governo federal tem dito que vai retomar um programa robusto de habitação: isso é fundamental para o Estado.

Nós temos projeto, estrutura e equipe para poder fazer esse relacionamento com a nossa bancada federal.

Temos as nossas emendas parlamentares, nós temos destinos para poder alavancar investimentos no Estado.

Existem alguns investimentos federais aqui que são prioritários: a BR-419, a BR-163, a BR-262 e a BR-267, são investimentos federais importantíssimos.

O programa de parceria público-privada do governo federal tem de abarcar essas rodovias, ferrovias. Então, a gente tem colocado uma série de iniciativas que farão parte desse relacionamento entre Estado e União. Não tenho dúvida disso.

Você falou de obras importantes. Como fazer para destravar os gargalos logísticos do Estado, que não avançaram durante os dois anos finais do governo Bolsonaro?

É fundamental destravar projetos fundamentais, como a Malha Oeste e a BR-163, entre outros. O governo federal tem de assumir essa discussão. Você vê que a política é dinâmica, que as coisas são dinâmicas. Há 15 anos, se você pegasse e falasse de parcerias público-privadas, parecia que você estava falando de um bicho de sete cabeças.

O PT, que está assumindo agora, tinha uma relutância. E hoje todos concordam que não tem nada demais em atrair capital privado para o que o Estado não está conseguindo fazer. Hoje já pulamos essa fase, e discutir as parcerias já não faz mais sentido.

Não tem governo de esquerda ou de direita que não vá atrair capital privado para bons projetos de infraestrutura. 

Então, acredito que o governo federal vá fazer isso. E tem de fazer, senão, limita o nosso crescimento. A falta de infraestrutura limita o crescimento do Brasil, é tão simples quanto isso.

Então, não adianta falar “o Brasil vai crescer”. É preciso desamarrar as âncoras democráticas e tributárias que atrapalham o ambiente de negócios. Isso é fato. E a infraestrutura é uma dessas âncoras.

Você sempre declarou apoio a Jair Bolsonaro durante os dois turnos da campanha, mas, no segundo turno, contra Capitão Contar, os eleitores de centro e de esquerda se aproximaram mais de sua candidatura. Como será o desafio de colocar muitos sul-mato-grossenses dentro de uma mesma estrutura de governo e de um mandato com o mesmo propósito?

Eu acho que a gente tem obrigação de fazer isso. E aí você usou a palavra que define o porquê de nós devermos fazer isso, que é propósito.

Se a gente ficar discutindo radicalismos, a gente não vai para lugar nenhum. Mas, se a gente discutir política pública e propósito, a gente consegue reunir pessoas com pensamentos distintos em torno de causas comuns.

Eu consigo colocar bolsonaristas e lulistas em torno de uma agenda para levar tecnologia para a agricultura familiar, por exemplo. Mas esse propósito é de quem? É da sociedade.

Programas sociais e necessidade de qualificação para gerar emprego são da direita ou da esquerda? É do lulismo ou do bolsonarismo? É proposta da sociedade! 

Então, fica essa discussão de cargo no governo e quem está indicando, se é o PT, o PP ou o PL. Nós temos de ter pessoas capazes de conduzir política pública para conseguir resultado, e o resultado atende à agenda de um espectro muito grande da sociedade.

Por isso que nós temos de baixar a temperatura. Então, a gente está perdendo energia, fazendo um esforço gigantesco em torno de nada.

Eu vi um depoimento de um artista da novela “Pantanal”, em um programa de auditório, de seis minutos, sobre o tanto que ele foi xingado por um lado e pelo outro lado. E ele desabafou o quanto está difícil viver neste ambiente.

Você não pode ser o Eduardo com suas crenças: ou você é comunista, ou você é bolsonarista. Qual é a agenda de um ou de outro? Isso eu não aceito.

Eu acho que a gente tem de discutir política pública em ambiente de desenvolvimento, de inclusão social. Eu vou bater nisso, porque eu não aceito ser tachado de a, b, c ou d. Eu não abro mão das minhas convicções.

Respeito [os posicionamentos], acho importante, sei que diferença faz parte, ela é natural, e vamos fazer isso, respeitar sem ficar carimbando as pessoas. 

É Mato Grosso do Sul que está dando uma mensagem política. E eu vou insistir nisso.
 
Você teve uma participação ativa nos dois mandatos de Reinaldo Azambuja (PSDB), em que você foi secretário de Governo e Gestão Estratégica e de Infraestrutura. Mas o que você acha que será diferente? Vai mudar alguma coisa do Eduardo Riedel secretário para o Eduardo Riedel governador?

Muda, né? Acho que muda o peso aqui em cima [apontando para os ombros]. Como secretário, sempre fui muito responsável em minhas atividades, mas como governador recai sobre a gente a política.

Além da gestão, o bônus e o ônus político das consequências da ação recai sobre o governador, não recai sobre os secretários.

Muda essa responsabilidade, a do peso político, para o bem e para o mal, porque 812 mil votos acabam trazendo um grau e uma percepção em relação a seu compromisso com o Estado um degrau acima, e aí a responsabilidade sobre as áreas não se pode terceirizar, o que é muito comum na política.

Isso passa a ser um problema seu. E não tem como mudar isso, é algo que carregamos conosco.

Perfil: Eduardo Corrêa Riedel - Eduardo Corrêa Riedel, 53 anos, formou-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Fundação Getúlio Vargas e no Instituto Europeu de Administração de Empresas.

Entre 2015 e 2022, foi secretário de Estado de Governo e Gestão Estratégica e de Infraestrutura. Foi presidente da Famasul, diretor da CNA e presidente do Sindicato Rural de Maracaju. 

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Eleições

Projeto Comprova anuncia plantão especial para o debate na TV Globo e fim de semana eleitoral

Iniciativa liderada pela Abraji reúne 42 veículos de comunicação em uma operação intensiva para monitorar, verificar e combater a desinformação na reta final das eleições, além de reforçar o serviço Consulte Comprova.

22/10/2026 18h51

Projeto Comprova anuncia plantão especial de checagem de informações durante o debate da TV Globo e o fim de semana do segundo turno das eleições.

Projeto Comprova anuncia plantão especial de checagem de informações durante o debate da TV Globo e o fim de semana do segundo turno das eleições. Foto: Reprodução/Projeto Comprova.

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O Projeto Comprova, coalizão de jornalismo colaborativo que reúne 42 organizações de mídia brasileiras lideradas pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), anuncia a realização de um plantão especial de cobertura focado no debate presidencialda TV Globo nesta sexta-feira (23) e ao longo de todo o final de semana de votação.

A operação contará com equipes dedicadas ao monitoramento de redes sociais, apuração em tempo real e disseminação de verificações e publicação de dicas para se proteger da desinformação por meio de canais oficiais como WhatsApp, Instagram, TikTok e X.

Monitoramento e transmissão em tempo real

Durante a transmissão do debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, e no final de semana eleitoral (sábado e domingo, das 9h às 18h), o Comprova atuará em duas frentes integradas:

  • Monitoramento e verificação: investigação de conteúdos suspeitos e de alegações virais que circulem durante o debate e no fim de semana do pleito.
  • Curadoria: Amplificação de verificações publicadas por iniciativas de checagem e parceiros de imprensa, centralizada principalmente no canal do Comprova no WhatsApp.
  • Educação midiática: Publicação de cards explicativos e vídeos curtos no Instagram e no TikTok, com orientações práticas para que os leitores saibam identificar manipulações e não repassem conteúdos enganosos.

Serviço “Consulte o Comprova”: suporte gratuito à imprensa

Para além da publicação direta ao público, o Comprova destaca a disponibilidade do serviço Consulte o Comprova. A ferramenta oferece consultoria e suporte gratuito a jornalistas de todo o país envolvidos na cobertura eleitoral.

Por meio do serviço, profissionais de imprensa e redações parceiras podem solicitar auxílio de especialistas para tirar dúvidas, verificar a autenticidade de mídias suspeitas (como áudios e vídeos com suspeita de adulteração ou de uso de inteligência artificial) e consultar dados técnicos de verificação durante a reta final das eleições.

Apoio e patrocinadores

A realização das atividades do Projeto Comprova e suas inovações voltadas ao pleito eleitoral são lideradas pela Abraji e contam com o apoio fundamental dos parceiros e apoiadores institucionais do projeto, ElevenLabs (desenvolvedora de tecnologia de voz e inteligência artificial) e Jusbrasil.

Sobre o Comprova

O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público.

O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais.

O Comprova é uma unidade autônoma na Abraji, com orçamento próprio e governança compartilhada com os veículos que participam do projeto. As decisões institucionais são tomadas por um colegiado composto por representantes dos veículos membros e da própria Abraji.

Mais informações e acesso às checagens:

Site oficial: projetocomprova.com.br

Canal do WhatsApp: Acesse aqui para receber as checagens

Consulte o Comprova: WhatsApp do Comprova (11 97045-4984)

Dinheiro Público

Justiça mantém ordem para vereadores de Campo Grande devolverem dinheiro

TJMS rejeitou novo recurso da Câmara e manteve decisão que determina a devolução de valores recebidos acima do limite permitido.

22/10/2026 18h29

Plenário da Câmara Municipal de Campo Grande, onde vereadores e ex-vereadores são alvo de decisão judicial que determina a devolução de verbas indenizatórias recebidas acima do limite permitido.

Plenário da Câmara Municipal de Campo Grande, onde vereadores e ex-vereadores são alvo de decisão judicial que determina a devolução de verbas indenizatórias recebidas acima do limite permitido. Foto: Divulgação Câmara Municipal de Campo Grande.

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O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) rejeitou mais uma tentativa da Câmara Municipal de Campo Grande de reverter a decisão que determina a devolução de valores recebidos por vereadores e ex-vereadores após um reajuste considerado ilegal nas verbas indenizatórias destinadas ao exercício dos mandatos.

O novo julgamento, publicado no Diário da Justiça desta quinta-feira (22), mantém a obrigação de ressarcimento aos cofres públicos, embora os valores a serem devolvidos por cada parlamentar ainda precisem ser apurados.

A decisão foi tomada por unanimidade pela 3ª Câmara Cível, que rejeitou um novo recurso apresentado pela Câmara Municipal.

O Legislativo tentava modificar a decisão anterior, que havia mantido a anulação das medidas responsáveis por aumentar de R$ 25 mil para R$ 30 mil o limite mensal das verbas disponíveis para cada parlamentar, em 2023.

O processo envolve 29 vereadores e ex-vereadores que integravam a legislatura de 2021 a 2024, incluindo 14 parlamentares que permaneceram na Câmara após as eleições municipais e outros 15 que deixaram o Legislativo.

A controvérsia não diz respeito aos salários dos vereadores, mas aos recursos públicos destinados ao ressarcimento de despesas relacionadas ao trabalho parlamentar, como contratação de assessorias especializadas, locação de veículos, combustíveis, serviços gráficos e outras atividades vinculadas ao exercício dos mandatos.

Com a nova decisão, permanece válido o entendimento de que o reajuste foi realizado sem a comprovação do cumprimento das exigências previstas na legislação orçamentária e fiscal.

O caso, entretanto, ainda poderá passar por novas etapas judiciais, caso sejam apresentados outros recursos.

Reajuste elevou gastos em até R$ 145 mil por mês

A discussão judicial começou em outubro de 2023, quando a Mesa Diretora da Câmara Municipal, então presidida por Carlos Augusto Borges, o Carlão, aprovou os Atos nº 281 e 282/2023, responsáveis pela ampliação dos limites das verbas indenizatórias.

Até então, cada vereador poderia utilizar até R$ 25 mil mensais, divididos em duas modalidades de ressarcimento, com limite individual de R$ 12.500.

Com a mudança, cada uma das modalidades passou a ter teto de R$ 15 mil, elevando o valor total disponível por parlamentar para R$ 30 mil mensais, um reajuste de 20%.

Considerando os 29 vereadores que integravam a Câmara naquele período, o aumento representava uma ampliação potencial de R$ 145 mil por mês nas despesas do Legislativo.

Em um período de 12 meses, caso todos os parlamentares utilizassem integralmente os novos limites, o custo adicional poderia alcançar R$ 1,74 milhão.

Esses números, contudo, representam o impacto financeiro máximo possível do reajuste, e não necessariamente o montante efetivamente desembolsado.

Isso porque as verbas indenizatórias funcionam mediante ressarcimento de despesas. O parlamentar precisa apresentar os gastos realizados dentro das regras estabelecidas pela Câmara, não recebendo automaticamente o valor integral disponível a cada mês.

Dessa forma, a diferença a ser devolvida poderá variar entre os vereadores e ex-vereadores, conforme os valores efetivamente reembolsados durante o período em que os atos posteriormente anulados produziram efeitos.

Justiça considerou irregular aumento das despesas

O reajuste foi questionado por meio de uma ação popular proposta pelo advogado Sérgio Sales Machado Júnior, que apontou possíveis irregularidades na ampliação das despesas da Câmara Municipal.

Entre os argumentos apresentados estavam a ausência de estudos sobre o impacto financeiro do aumento, a falta de comprovação de compatibilidade com os instrumentos de planejamento orçamentário e o descumprimento das exigências previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal.

A legislação estabelece que a criação ou ampliação de despesas públicas deve observar critérios de planejamento, transparência e equilíbrio das contas, incluindo estimativas sobre seus efeitos financeiros no exercício em que a medida entra em vigor e nos dois anos seguintes.

Em novembro de 2025, o juiz Ariovaldo Nantes Corrêa, da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, julgou procedente a ação e declarou nulos os atos administrativos que autorizaram o reajuste.

A sentença também determinou a restituição dos valores recebidos acima dos limites previstos anteriormente, com a atualização monetária estabelecida judicialmente.

A Câmara Municipal recorreu, sustentando a legalidade da medida e argumentando que os recursos estavam previstos no orçamento do Legislativo.

Em agosto de 2026, a 3ª Câmara Cível do TJMS manteve a condenação, ao entender que a autonomia financeira e administrativa do Poder Legislativo não afasta a obrigação de observar as normas que disciplinam as despesas públicas.

O Tribunal destacou que a existência de previsão orçamentária não substitui, por si só, a demonstração dos requisitos legais necessários à ampliação dos gastos.

Câmara apresentou novo recurso, mas não conseguiu reverter decisão

Mesmo após o julgamento desfavorável de agosto, a Câmara Municipal apresentou embargos de declaração, alegando a existência de omissões e contradições na decisão anterior do Tribunal.

Entre os questionamentos estavam a responsabilidade pessoal dos vereadores pela devolução das quantias e a alegação de irregularidade na realização do julgamento em ambiente virtual.

O Legislativo argumentou que havia solicitado a retirada do processo da pauta eletrônica para julgamento presencial e questionou o tratamento dado à participação individual dos parlamentares nos atos administrativos.

Ao analisar o novo recurso, o Tribunal concluiu que as questões relevantes já haviam sido examinadas e que não existiam omissões ou contradições capazes de justificar a alteração do resultado.

O colegiado também considerou que o pedido relacionado à modalidade do julgamento havia sido apreciado anteriormente e que não ficou demonstrado prejuízo processual que justificasse a anulação.

Em relação à devolução do dinheiro, os desembargadores mantiveram o entendimento anterior, que havia examinado a participação dos vereadores na aprovação das medidas que autorizaram o reajuste, a alegação de recebimento de boa-fé e a natureza reparatória do ressarcimento.

Segundo a decisão publicada nesta quinta-feira, a apresentação de embargos de declaração não permite simplesmente reabrir a discussão sobre questões que já foram analisadas e decididas pelo Tribunal. Com isso, os magistrados rejeitaram o novo recurso por unanimidade, mantendo a decisão anterior do Tribunal.

Quem são os vereadores envolvidos?

O processo judicial relaciona 29 vereadores e ex-vereadores da legislatura anterior da Câmara Municipal de Campo Grande.

Entre os nomes que constam na identificação processual estão Carlos Augusto Borges, Epaminondas Vicente, conhecido como Papy, Victor Rocha, Gilmar Neri de Souza, Otávio Augusto Trad, William Maksoud, Eduardo Lopes Miranda, André Luis Soares da Fonseca e Paulo César Lands Filho.

Também aparecem Ademir Santana, Ayrton de Araújo, Roberto Santana dos Santos, Roberto de Avelar, Cláudio Jordão de Almeida, Clodoilson Pires, Alírio Villasanti, Wanderley Pinheiro de Lima, Jamal Mohamed, Loster Nunes de Oliveira, Ademar Vieira Junior, Luiza Ribeiro, Juari Lopes Pinto, Riverton Francisco de Souza, Ronilço Cruz de Oliveira, Silvio Eduardo Alves Pena, Marcos Cesar Malaquias Tabosa, Tiago Henrique Vargas, Valdir Gomes e José Jacinto Luna Neto.

A inclusão dos nomes no processo não significa que todos tenham recebido quantias idênticas ou utilizado integralmente os limites mensais disponíveis.

A obrigação de restituição deverá observar os valores individualmente recebidos acima dos tetos anteriores, conforme os critérios estabelecidos judicialmente.

Quanto os vereadores terão de devolver?

A Justiça determinou que os vereadores e ex-vereadores devolvam os valores recebidos acima dos limites permitidos para as verbas indenizatórias.

O reajuste de 2023 aumentou de R$ 25 mil para R$ 30 mil o total mensal disponível por parlamentar, uma diferença de R$ 5 mil por mês.

A devolução será calculada individualmente, considerando quanto cada vereador efetivamente recebeu acima dos limites anteriores. Os valores também passarão por atualização monetária, conforme a decisão judicial.

A decisão publicada nesta quinta-feira (22), entretanto, não estabelece pagamento imediato. Antes da cobrança, será necessário calcular individualmente quanto cada parlamentar deverá restituir aos cofres públicos.

A Câmara Municipal ainda poderá apresentar novos recursos, mas, até o momento, a obrigação de devolução permanece mantida pelo TJMS.

O que diz a Câmara Municipal?

A Câmara Municipal defendeu a legalidade do reajuste de 2023, alegando que os recursos foram utilizados em despesas relacionadas à atividade parlamentar e que os pagamentos ocorreram de boa-fé.

Em novembro de 2025, o presidente da Casa, Epaminondas Vicente Silva Neto, o Papy, afirmou que recorreria da decisão por entender que os vereadores não haviam cometido ilegalidades.

Apesar dos argumentos apresentados, o TJMS manteve a determinação de devolução dos valores recebidos acima dos limites permitidos.

O processo tramita sob o número 0859881-56.2023.8.12.0001.

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