O advogado Gabriel de Araújo Mazzini, filho do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, afirmou em depoimento que a casa, cenário do crime de homicídio do pai, era a "realização de um sonho".
Durante a apresentação de sua versão dos fatos na tarde dessa terça-feira (26) em audiência, Gabriel disse que a decisão do pai de adquirir um novo imóvel veio após um incidente de saúde.
Segundo seu relato, Roberto teria sofrido uma convulsão no final de 2025, ficando inconsciente por alguns minutos. Ele estaria no andar superior do sobrado onde moravam. Por isso, os bombeiros tiveram dificuldade em socorrê-lo. Esse evento foi o que motivou a busca por uma casa térrea, maior e mais segura.
Foi quando encontrou a casa de Bernal, que estava indo a leilão. Como advogado, Gabriel teria ajudado o pai na formalização das documentações e verificações a respeito do imóvel que, de acordo com o gerente bancário da Caixa, estava desocupado.
"Na época, meu pai procurou o gerente bancário para ter mais informações dessa residência e o gerente confirmou que a casa estava desocupada. Ainda ofereceu uma visita para verificação da casa e tudo mais. Na época, meu pai chegou a ir na casa acompanhado da minha mãe, de um corretor credenciado, indicado pelo gerente, e um chaveiro. Eles entraram na casa, visitaram e, na sequência, ele fez a aquisição desse imóvel", relatou Gabriel.
A casa foi arrematada por Roberto em um programa de "Black Friday" da Caixa Econômica no mês de novembro do ano passado, que estava levando imóveis específicos já retomados pela Caixa em um leilão.
No entanto, a negociação não foi finalizada devido a uma instabilidade do sistema do banco, o que fez com que a compra fosse anulada. Após algumas semanas, Roberto teria afirmado que não faria mais a negociação com a Caixa, mas sim, com um corretor imobiliário.
Gabriel relatou, ainda, que em uma das visitas ao imóvel, Mazzini teria sido abordado pela equipe da empresa New Line, alegando terem sido contratados para monitoração pelo proprietário da casa [Bernal].
"Pelo que meu pai relatou, ele se identificou como interessado na aquisição do imóvel e que a residência já não era mais do Bernal e que já estava em nome do banco, da Caixa", disse durante a audiência.
Após a aquisição da casa, Roberto teria tentado contato com Bernal através da New Line para resolver a questão da titularidade. A empresa, no entanto, recusou a fornecer os dados por privacidade, mas se ofereceu para contatar Bernal, que não autorizou a divulgação do seu contato.
A empresa também teria informado a Mazzini sobre uma movimentação na casa, como a troca de fechaduras, pouco antes dos acontecimentos fatais.
Gabriel disse que o pai já estava no final da vida pública e pensava em se aposentar. A casa térrea seria uma aquisição para toda a família, inclusive para a avó, de 86 anos, que iria morar com eles.
"A partir do incidente de saúde, meu pai mudou de vida, emagreceu, entrou na academia porque ele tinha certeza que podia acontecer de novo. Por isso ele estava em busca de uma nova residência. A ideia de comprar uma casa térrea era pensando nesse episódio de saúde. Ele ia levar minha mãe, minha avó, a família inteira para morar com ele e, na sequência, a minha família pra morar com ele", afirmou emocionado.
Versão do chaveiro
Maurilio da Silva Cardoso, o chaveiro contratado por Roberto Mazzini para abrir a residência no dia do crime, afirmou que o fiscal "nem teve tempo de se defender".
Em seu relato, Cardoso disse que foi procurado pela vítima para abrir a casa que tinha comprado e que levou cerca de 15 a 20 minutos para abrir o portão menor. Logo que entraram, ele se dirigiu à porta de entrada e, antes de começar a abertura, olhou para trás e se deparou com Bernal entrando pelo portão e perguntando "o que vocês 'tão' fazendo aqui na minha casa?".
Logo em seguida, ele ouviu o barulho do tiro e Roberto caiu no chão.
"Foi muito em seguida, ele acabou de falar já disparando uma arma. Então não deu tempo do Sr. Roberto explicar o que estava fazendo alí. Foi muito rápido", disse em depoimento.
Ele contou que, logo após o primeiro tiro, ele se dirigiu até o portão e saiu, temendo pela vida. Por isso, não viu se Roberto estava de costas para o atirador ou se houve confronto entre os dois.
A New Line
Também depuseram na tarde de hoje (26) funcionários da empresa de monitoramento New Line.
Os três funcionários interrogados afirmaram que viram pelas câmeras de segurança Roberto e Maurilio abrindo o portão de entrada. Uma das funcionárias teria tentado entrar em contato por ligação com Bernal, mas não foi atendida. Então, entrou em contato por WhatsApp, e foi respondida por ele, dizendo que estava a caminho.
Seguindo o protocolo, um dos funcionários se dirigiu até os homens e interrogou a presença deles. Roberto teria dito que a casa era dele e que iria entrar "a todo custo".
O funcionário teria respondido que Mazzini não estava autorizado a entrar e que Bernal estava se dirigindo ao local juntamente com a polícia.
A empresa alegou que não sabia que o imóvel estava desocupado e que pertencia à Caixa Econômica Federal. Segundo eles, para contratar o serviço de monitoramento e segurança, somente é solicitado os documentos pessoais do contratante, não documentos sobre o imóvel.
Após acionarem a polícia a pedido de Bernal no dia do ocorrido, escutaram um barulho de tiro e, por volta de 40 segundos depois, o segundo disparo. Logo em seguida, viram o chaveiro correndo.
Segunda audiência
Na próxima quarta-feira (27), será dada a continuação dos depoimentos. Desta vez, irão falar treze testemunhas de defesa. Também será ouvido o réu, Alcides Bernal, de forma presencial no Fórum Heitor Medeiros, em Campo Grande, a partir das 14h.
A defesa de Bernal continua alegando que o réu agiu em legítima defesa e que as provas e argumentos serão suficientes para a absolvição.
O crime ocorreu no dia 24 de março. Alcides Bernal matou o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini após se recusar a entregar seu imóvel, que havia sido leiloado.
Roberto e Maurilio acessaram o imóvel após arrombamento do portão principal e, 40 minutos depois de entrarem, foram surpreendidos por Bernal, que efetuou dois disparos em direção ao fiscal, que morreu no local.
Após isso, Bernal fugiu do local do crime e se apresentou à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac-Centro). Ele está preso desde o dia do crime.

