À frente da Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul (CET-MS), Claire Carmen Miozzo acompanha de perto os desafios para ampliar a doação de órgãos, reduzir a fila de espera e aumentar o número de procedimentos realizados no Estado.
Em entrevista exclusiva ao Correio do Estado, ela falou sobre a situação atual da fila por transplantes, a recusa familiar à doação, os critérios de prioridade, os avanços registrados neste ano e os principais obstáculos enfrentados pelas equipes de saúde.
Claire também destacou a importância de as pessoas manifestarem ainda em vida aos familiares o desejo de serem doadoras, já que a autorização da família continua sendo indispensável para a efetivação da doação no Brasil.
Segundo ela, o acolhimento das famílias e a compreensão sobre o diagnóstico de morte encefálica são fatores decisivos para aumentar o número de doadores.
Atualmente, MS tem 811 pacientes na fila de espera por transplantes – 308 pacientes na espera por um transplante de rim, 484 pacientes na espera por um transplante de córnea e 19 pacientes na espera por um transplante de fígado.
Ao mesmo tempo, o Estado registra avanço nos procedimentos, especialmente nos transplantes renais, que chegaram a 103 procedimentos entre janeiro e agosto deste ano.
Na entrevista, Claire detalha ainda como funciona a captação de órgãos no interior, quais transplantes já são realizados em MS e o que ainda precisa avançar para que mais pacientes tenham acesso ao procedimento.
Em abril, MS tinha 846 pessoas aguardando por um transplante. Qual é o número atualizado da fila e por que ela continua crescendo apesar do aumento dos procedimentos?
Atualmente, nós temos 811 pacientes na lista de espera por transplantes em MS. Desse total, 308 pacientes aguardam por um transplante de rim, 484, por córnea e 19, por fígado. Esse número está abaixo dos 846 pacientes registrados em abril.
A lista varia constantemente porque, ao mesmo tempo em que realizamos transplantes e retiramos pacientes da fila, também recebemos novos pacientes que passam a ter indicação para o procedimento.
Quanto tempo, em média, um paciente espera por transplantes de rim, córnea, fígado e pâncreas no Estado? Há pessoas que morrem antes de receber o órgão?
O tempo de espera varia bastante porque são vários os fatores que influenciam um transplante de órgãos e tecidos.
Isso depende muito da quantidade de doadores que nós temos, dos tipos sanguíneos desses doadores, da idade e das características de cada órgão ou tecido.
Por isso, não existe um tempo único de espera. Esse período varia de órgão para órgão e também no caso das córneas, de acordo com as características de cada paciente e com a disponibilidade de doadores compatíveis.
Quais critérios definem a posição do paciente na fila e em quais situações alguém pode receber prioridade?
Os critérios são específicos para cada modalidade de transplante e dependem da avaliação médica e do cumprimento dos requisitos necessários para que o paciente seja incluído na lista.
As prioridades também são definidas de acordo com o órgão ou tecido e seguem os critérios estabelecidos no regulamento técnico do Sistema Nacional de Transplantes, previsto na Portaria do Ministério da Saúde nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, que estabelece a Política Nacional de Doação e Transplante.
Em 2024, a recusa familiar à doação chegava a aproximadamente 70% em MS. Esse índice diminuiu e quais são os principais motivos apresentados pelas famílias?
Atualmente, nós ainda temos uma recusa familiar alta. A recusa familiar à doação está em torno de 60% entre as famílias entrevistadas em MS.
Apesar disso, percebemos uma mudança nesse cenário e um aumento na aceitação da doação de órgãos e tecidos.
O principal motivo apresentado pelas famílias é o desconhecimento sobre a vontade da pessoa que morreu, se ela tinha ou não o desejo de ser doadora.
É por isso que nós insistimos tanto na importância de conversar com a família e deixar claro, ainda em vida, que a pessoa deseja ser doadora.
Na prática, comunicar à família o desejo de ser doador ainda é mais importante do que registrar essa vontade em documento ou na Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos?
Sim. No Brasil, a legislação estabelece o consentimento familiar. A família precisa autorizar a doação mediante duas testemunhas.
Por isso, mesmo que a pessoa manifeste formalmente em vida o desejo de ser doadora, o mais importante é conversar com a família e deixar essa vontade muito clara.
No momento da doação, nós vamos precisar da autorização familiar para que o processo possa ser realizado.
Quais são os principais mitos e receios manifestados pelas famílias, especialmente em relação ao diagnóstico de morte encefálica e à retirada dos órgãos?
Para nós, um dos pontos mais importantes é garantir que a família não tenha nenhuma dúvida em relação ao diagnóstico de morte encefálica.
Ela precisa ser bem acolhida durante todo o período de internação e estar sempre sendo informada sobre o que está acontecendo com o familiar que se encontra em uma situação grave. Esse esclarecimento é fundamental.
A família precisa compreender cada etapa do processo, principalmente o diagnóstico de morte encefálica, para que tenha segurança sobre tudo o que está sendo feito pela equipe de saúde.
Mato Grosso do Sul realizou 368 transplantes em 2025. Os números deste ano indicam um novo crescimento e quais procedimentos mais avançaram?
Nós já tínhamos avançado em relação aos anos anteriores no número de transplantes e, neste ano, também estamos tendo um crescimento importante.
O principal avanço neste ano está no transplante renal. Até o fim de agosto, nós já realizamos 103 transplantes de rim em MS, o que mostra um desempenho bastante significativo nessa modalidade.
Quais transplantes já podem ser realizados em MS e quais ainda obrigam os pacientes a procurar tratamento em outros estados?
Hoje, nós realizamos em MS transplantes de rim, fígado, pâncreas, tecido musculoesquelético, medula e córnea.
Quando o paciente necessita de um procedimento que ainda não é realizado no Estado, como transplante de coração ou pulmão, ele é encaminhado para centros transplantadores de outros estados que estejam habilitados para realizar esse tipo de procedimento.
Como funciona a captação de órgãos em cidades do interior e quais dificuldades de distância, transporte e estrutura hospitalar podem impedir o aproveitamento de uma doação?
Nós acompanhamos todo o processo de captação de órgãos no Estado, inclusive nos municípios do interior.
Quando há um diagnóstico de morte encefálica em um hospital do interior e a família autoriza a doação, nós acompanhamos esse processo, providenciamos o transporte do material biológico necessário para a realização dos exames e também solicitamos o transporte das equipes responsáveis pela retirada dos órgãos até o hospital onde está o doador.
Toda essa logística é muito importante porque os procedimentos precisam ser realizados dentro dos prazos adequados para que os órgãos possam ser aproveitados e transplantados com segurança.
O que precisa mudar para reduzir a fila de espera: maior conscientização das famílias, ampliação das equipes, novos hospitais habilitados ou mais investimentos em logística?
Nós precisamos, principalmente, aumentar o número de doadores, mas esse também é um processo no qual estamos avançando.
As famílias são extremamente solidárias. O que elas precisam é ser acolhidas adequadamente dentro dos hospitais e estar bem informadas sobre o que é um diagnóstico de morte encefálica.
O transplante depende da solidariedade de uma família em doar os órgãos e as córneas de seu ente querido.
Essa decisão acontece em um momento de muita dor e tristeza, por isso é tão importante que as famílias estejam bem acolhidas e que já tenham, de alguma forma, conhecimento sobre a vontade daquela pessoa em relação à doação.
Hoje, nós temos equipes habilitadas, temos hospitais e temos uma estrutura que já nos permite realizar mais transplantes e mais captações. Avançamos bastante, mas ainda temos muito o que conquistar.
{ PERFIL }
Claire Carmen Miozzo
Farmacêutica-bioquímica e sanitarista, ela tem ampla experiência na área de transplantes. Atua na Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul (CET-MS) desde 2003, onde exerce a função de coordenadora.
Ao longo de mais de duas décadas, desenvolveu atuação voltada à organização, coordenação e acompanhamento das atividades relacionadas à doação e ao transplante de órgãos e tecidos.


