Em dezembro, trabalhadores do hospital fizeram outra greve que reivindicava, entre outros pontos, o pagamento do 13° salário
A Santa Casa de Campo Grande voltou a enfrentar paralisação de funcionários nesta sexta-feira (9), em razão do atraso no pagamento dos salários. De acordo com o presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Mato Grosso do Sul (SIEMS), Lázaro Santana, o salário está disponível para quitação, mas um erro no sistema estaria impedindo a liberação dos valores.
Em assembleia realizada na manhã de hoje, os trabalhadores decidiram paralisar parte das atividades até que o pagamento seja efetivado. Conforme o sindicato, 50% do efetivo cruzou os braços, enquanto a outra metade segue em atividade para manter atendimentos mínimos.
“A decisão foi tomada porque o salário já está com dois dias de atraso. O hospital informou que o recurso existe, mas que houve um problema no sistema que está impedindo o repasse. Enquanto isso não for resolvido, os trabalhadores vão manter a paralisação parcial”, afirmou Lázaro Santana.
Até o momento, não foi informado quais setores estão sendo diretamente afetados nem previsão para regularização dos pagamentos.
Paralisação anterior
A paralisação do ano passado aconteceu por dois dias, 22 e 23 de dezembro, no Hospital Santa Casa de Campo Grande.
A paralisação afetou 30% dos atendimentos no maior hospital de Mato Grosso do Sul. Ao todo, 1.200 funcionários CLT de enfermagem, limpeza e copa cruzaram os braços e ficaram sem trabalhar.
A paralisação ocorreu por falta de pagamento do 13º salário. Até então, a proposta seria de que o 13º seria pago em três parcelas: em janeiro, fevereiro e março. Mas, os funcionários recusaram a proposta e iniciaram as paralisações e protestos.
Os serviços afetados foram atendimentos (consultas eletivas, cirurgias eletivas, enfermaria, pronto socorro e UTI), limpeza (higienização de centros cirúrgicos, consultórios, banheiros e corredores), lavanderia (acúmulo de roupas utilizadas em cirurgias ou exames) e cozinha (copa).
Crise financeira
A Santa Casa está em crise financeira há anos. Conforme noticiado pelo Correio do Estado, a Santa Casa gasta por mês R$ 1 milhão a mais do que recebe.
Atualmente, a Santa Casa recebe R$ 392,4 milhões por ano (R$ 32,7 milhões por mês) do convênio entre governo federal, Prefeitura de Campo Grande e governo do Estado para atendimento via Sistema Único de Saúde (SUS).
Porém, o hospital alega que o valor não seria suficiente para suportar a demanda atual da unidade de saúde, além de não sofrer reajuste desde 2023.
Sem a solução com o poder público, a instituição foi à Justiça pedir que, caso a renovação fosse feita, o repasse mensal precisaria ser corrigido para R$ 45,9 milhões (R$ 550,8 milhões por ano), além da recomposição retroativa referente aos últimos dois anos sem aumento.
Segundo documento que o Correio do Estado obteve com exclusividade, o hospital tinha um teto de R$ 46.907.889,12 para ser gasto em 2024 com internações de alta complexidade – serviços e procedimentos que exigem alta tecnologia, alto custo e infraestrutura especializada.
Porém, a entidade ultrapassou em cerca de R$ 2,5 milhões deste montante, o que resultou em um gasto operacional de R$ 49.484.607,38.
No balanço mês a mês, apenas em setembro a Santa Casa conseguiu operar as internações de alta complexidade dentro do teto, com R$ 3.825.922,38, menos de R$ 100 mil abaixo do limite mensal (R$ 3.908.990,76).
Por outro lado, outubro, segundo as informações do hospital, foi o pior mês, com gasto que chegou a R$ 4,6 milhões. Na média mensal, a instituição operou R$ 214,7 mil a mais do que o estipulado pelo teto.
De acordo com relatório anual divulgado pelo hospital em março de 2025, o ano anterior fechou com prejuízo de R$ 98,3 milhões, bem distinto do apresentado em 2023, quando fechou com superavit de R$ 27,5 milhões.
Ao longo dos anos, o deficit acumulado da Santa Casa soma R$ 514,8 milhões. Outro fator que ajuda a explicar a conta fechando no vermelho são os constantes empréstimos que a instituição faz.
No mesmo relatório é possível constatar que o hospital ainda teria que pagar R$ 256.916.856,00 por causa de empréstimos e financiamentos, desses R$ 16.141.304,00 em circulantes (12 meses, considerado curto prazo no mundo financeiro) e R$ 240.775.552,00 em não circulantes (longo prazo).
Em relação ao repasse financeiro, 56% (R$ 18,3 milhões) é de responsabilidade do Governo Federal. Os outros 44% são oriundos do Estado (R$ 9 milhões) e do Município (R$ 5,2 milhões).
**(Colaborou Naiara Camargo)