Cidades

Estrutura Precária

Antes de desabar, teto de UPA acumulava anos de infiltrações em Campo Grande

Unidade acumula histórico de goteiras e alagamentos desde 2017 e teve reforma de cerca de R$ 1,7 milhão prevista antes de parte do forro cair durante temporal.

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“Vai cair o mundo todo”. A frase, dita por uma paciente assustada enquanto registrava os estragos provocados pelo temporal desta quinta-feira (10), resumiu os momentos de tensão vividos dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Universitário, em Campo Grande. Parte do forro da recepção veio abaixo, vidros laterais caíram e pacientes tiveram de deixar o local.

O episódio, porém, não foi o primeiro em que a chuva colocou à prova a estrutura da unidade. Um levantamento feito pelo Correio do Estado mostra que há pelo menos nove anos existem registros de infiltrações, alagamentos e problemas relacionados ao teto e ao escoamento da água na UPA.

Ao longo desse período, houve reparos emergenciais, interdição da farmácia, investigação do Ministério Público, manutenção de telhado, laje e calhas e até uma licitação de R$ 1,69 milhão que previa expressamente a reforma do telhado. O procedimento licitatório acabou suspenso em 2023.

Mais recentemente, em fevereiro deste ano, outra tempestade voltou a provocar infiltrações e alagamentos dentro da unidade. Na ocasião, a Prefeitura informou que a UPA estava passando por “reforma e manutenção estrutural”, inclusive com intervenções em pontos de infiltração.

Sete meses depois, o temporal desta quinta-feira terminou com parte do forro no chão.

“Vai cair o mundo todo”

A tempestade que atingiu Campo Grande no fim da tarde desta quinta-feira teve rajadas que chegaram a 84 km/h e deixou um rastro de estragos pela cidade.

Na UPA Universitário, localizada na região sul da Capital, parte do forro de PVC caiu justamente sobre a área de espera da recepção. As ferragens que sustentavam a estrutura ficaram retorcidas e vidros laterais também se desprenderam.

Pacientes foram retirados do local. Apesar da dimensão dos danos, não houve registro de feridos.

 

Vídeos feitos durante o temporal mostram a situação dentro da unidade e o susto de quem estava no prédio. Enquanto registrava os estragos, uma paciente reagiu: “Vai cair o mundo todo”.

O episódio desta quinta-feira é o capítulo mais recente de um problema que atravessa diferentes administrações municipais.

Problemas aparecem pelo menos desde 2017

Há registros públicos de problemas relacionados à chuva na UPA Universitário desde pelo menos janeiro de 2017.

Naquele ano, uma chuva deixou a unidade alagada e levou equipes das secretarias municipais de Saúde e Infraestrutura a realizarem uma vistoria. Funcionários relataram que a situação era recorrente e prejudicava os serviços.

A inspeção identificou problemas no teto e no sistema de escoamento da água. Também foram constatadas infiltrações em diferentes setores da UPA, entre eles a classificação de risco, farmácia, auditório e áreas administrativas. Reparos emergenciais foram anunciados.

O problema, contudo, reapareceria nos anos seguintes.

Chuva destruiu teto da farmácia

Um dos episódios mais graves ocorreu em fevereiro de 2021. Durante uma forte chuva, a água passou pelo teto da farmácia da UPA e transformou o interior do espaço em uma espécie de “cachoeira”.

O problema comprometeu a estrutura e levou à interdição da farmácia. A consequência se prolongou muito além daquela tempestade.

Em março de 2022, mais de um ano depois do alagamento, pacientes ainda precisavam procurar outras unidades de saúde para retirar os medicamentos prescritos após atendimento na UPA Universitário.

A situação chegou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Em 2022, foi instaurado inquérito civil para apurar irregularidades estruturais e sanitárias na unidade. Inspeção realizada pela Vigilância Sanitária constatou que a farmácia apresentava teto e paredes com infiltrações, umidade, mofo e pintura danificada.

A farmácia somente seria reaberta em maio de 2024, cerca de três anos depois do episódio que levou à sua interdição.

Prefeitura mexeu em telhado, laje e calhas

Antes disso, em dezembro de 2022, a própria Prefeitura de Campo Grande anunciou uma frente de manutenção preventiva e reparos emergenciais em unidades de saúde.

Na UPA Universitário, segundo comunicado oficial da administração municipal, foram realizados reparos na tubulação de drenagem pluvial, revisão do telhado e da laje e manutenção das calhas.

As intervenções, entretanto, não encerraram os registros de problemas relacionados às chuvas.

Reforma de R$ 1,69 milhão previa telhado

Em julho de 2023, a Prefeitura abriu a Concorrência nº 21/2023 para contratar uma empresa responsável pela reforma e ampliação da UPA Universitário. O investimento máximo previsto era de cerca de R$ 1,7 milhão.

Não se tratava apenas de pintura ou de pequenas adequações. O projeto anunciado pela própria administração municipal previa melhorias em toda a estrutura e mencionava expressamente a reforma do telhado, além da revisão das redes hidráulica e elétrica e de adequações às normas sanitárias.

As empresas interessadas deveriam entregar a documentação e as propostas até 21 de agosto daquele ano. No mesmo dia em que terminaria o prazo, porém, a licitação foi suspensa.

A reportagem solicitou à Prefeitura esclarecimentos para saber se o procedimento foi posteriormente retomado ou substituído por outra contratação e, principalmente, se a reforma do telhado prevista naquele projeto chegou a ser efetivamente executada.

Meses depois, água entrou pelas luminárias

Pouco mais de três meses após a suspensão da licitação, a chuva voltou a causar problemas na unidade. Em novembro de 2023, durante outro temporal, a água entrou pela região de uma luminária na sala de observação.

Imagens daquele episódio mostram água caindo dentro do ambiente e uma funcionária retirando um paciente que estava em uma maca próxima ao ponto atingido.

Na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que uma árvore havia caído durante o temporal e destelhado parte da unidade, provocando a infiltração.

Pacientes precisaram ser remanejados e equipes de manutenção foram acionadas para executar reparos paliativos. Na mesma resposta, a Sesau informou que a UPA estava incluída em um cronograma de intervenções destinado ao reparo de problemas estruturais.

Em outubro de 2024, a cena se repetiu. Durante mais um temporal em Campo Grande, água entrou pelas luminárias da UPA Universitário e pacientes tiveram de ser retirados de algumas salas.

Problemas continuaram em 2026

O histórico chegou a 2026. Em janeiro, uma fiscalização do Conselho Municipal de Saúde encontrou uma série de irregularidades na UPA Universitário. O relatório encaminhado à Secretaria Municipal de Saúde descreveu um “quadro persistente e grave de fragilidades” e apontou que os problemas observados não eram apenas pontuais, mas estruturais e sistêmicos.

Um mês depois, em 19 de fevereiro, a chuva voltou a entrar na unidade. Vídeos gravados durante o temporal mostraram água escorrendo por paredes de uma sala destinada ao atendimento de pacientes acamados, goteiras próximas à entrada e pontos do piso alagados.

Uma paciente que registrou a situação chegou a reclamar que parecia chover mais dentro da unidade do que do lado de fora.

Questionada naquele momento, a Prefeitura informou que a UPA Universitário já estava "em processo de reforma e manutenção estrutural, incluindo intervenções em pontos com infiltração". 

Segundo a administração municipal, equipes de manutenção foram acionadas para vistoriar o prédio assim que a intensidade da chuva diminuísse e medidas corretivas e preventivas estavam sendo adotadas. Isso ocorreu há menos de sete meses.

De infiltrações ao forro no chão

A sequência dos acontecimentos coloca agora novas questões sobre as condições da unidade. O problema que em diferentes momentos apareceu na forma de goteiras, infiltrações, água passando por luminárias e alagamentos terminou, nesta quinta-feira, com parte do forro da recepção no chão e pacientes sendo retirados durante uma tempestade.

Correio do Estado questionou a Prefeitura de Campo Grande sobre o destino da licitação de R$ 1,69 milhão aberta em 2023, se a reforma do telhado prevista naquele processo chegou a ser executada por meio daquela ou de outra contratação e quais intervenções foram realizadas desde então.

A reportagem também solicitou informações sobre a última vistoria e manutenção do telhado, cobertura e sistema de drenagem pluvial da unidade antes do temporal desta quinta-feira, além dos serviços realizados depois das infiltrações registradas em fevereiro deste ano.

A Prefeitura foi questionada ainda sobre a extensão dos danos provocados pelo temporal, eventual comprometimento estrutural, custo dos novos reparos e prazo para recuperação das áreas atingidas.

Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Tempestade

Mais de 18 horas após tempestade, semáforos continuam apagados na Capital

Danos provocados pelas rajadas de até 90 km/h afetaram a rede elétrica e comprometeram a sinalização em vários cruzamentos

11/09/2026 13h00

Cruzamento movimentado opera sem semáforo após a tempestade que atingiu Campo Grande

Cruzamento movimentado opera sem semáforo após a tempestade que atingiu Campo Grande Foto: João Pedro Zequini / Correio do Estado

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Após a tempestade que atingiu Campo Grande na tarde da última quinta-feira (10), diversos semáforos continuam sem funcionar, causando transtornos no trânsito em vários pontos da Capital.

Além da forte chuva, o temporal foi acompanhado por rajadas de vento entre 86 km/h e 90 km/h, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A ventania danificou a rede elétrica e comprometeu o funcionamento da sinalização semafórica.

A Avenida Mato Grosso está entre as vias mais afetadas. No sentido Centro–Bairro, no trecho entre as ruas Rui Barbosa e Itiquira, apenas o cruzamento com a Rua Rio Grande do Sul permanece com o semáforo desligado.

No sentido Bairro–Centro, a situação é mais crítica. Entre a Rua Itiquira e a Avenida Calógeras, vários cruzamentos continuam sem sinalização semafórica.

Os semáforos seguem desligados nos cruzamentos da Avenida Mato Grosso com as ruas Alagoas, Espírito Santo, José Alencar, Bahia, 25 de Dezembro, Arthur Jorge, 13 de Junho, José Antônio, Rio Grande do Sul, Padre João Crippa e Rui Barbosa. 

Os equipamentos dos cruzamentos com as ruas Pedro Celestino, 13 de Maio e 14 de Junho funcionam normalmente.

Na Avenida Calógeras, também foram registrados pontos sem sinalização semafórica nos cruzamentos com as ruas Maracaju e Cândido Mariano.

Mais de 18 horas após a tempestade, equipes ainda trabalham para reparar os danos provocados pela queda de árvores, postes e cabos da rede elétrica. 

Enquanto os equipamentos não são restabelecidos, motoristas devem redobrar a atenção e reduzir a velocidade ao passar pelos cruzamentos afetados.

corrupção

Alir Terra repassou contratos milionários a ex-sócio logo após assumir hospital

A presidente da Santa Casa e o dono das empresas que controlam o plano de saúde do hospital foram presos em operação do MPMS nesta sexta-feira (11)

11/09/2026 12h42

A presidente da Santa Casa rompeu com outra empresa apenas 19 dias após assumir o hospital

A presidente da Santa Casa rompeu com outra empresa apenas 19 dias após assumir o hospital

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A operadora do plano de saúde da Santa Casa de Campo Grande, Duarte & Cruz, que foi alvo da operação do Ministério Público nesta sexta-feira (11) foi contratada cerca de três semanas depois de a advogada Alir Terra Lima assumir a presidência do hospital.

Conforme denúncias do advogado Oswaldo Meza, ela e o controlador da empresa, o também advogado Paulo da Cruz Duarte, haviam sido sócios em um escritório de advocacia. Ambos foram presos nesta sexta-feira acusados pelo desvio de pelo menos R$ 3,5 milhões no plano de saúde do hospital somente no ano passado.

Depois de vencer a eleição com 49 votos, contra 39 da chapa concorrente, Alir Terra assumiu o hospital no dia 2 de janeiro de 2023. No dia 19 do mesmo mês ela comunicou a antiga operadora, a Plural, que fora contratada em 12 de abril de 2018, que estava rompendo o contrato. Na sequência, contratou as empresas do seu ex-sócio para operar o plano de saúde.

Mas, pelas cláusulas contratuais, qualquer rescisão só poderia ocorrer por meio de notificação formal com prazo de 90 dias de antecedência. Ocorre que a Santa Casa, antes mesmo de notificar a Plural, começou a veicular anúncios descredenciando a ex-parceira de negócios. Por conta disso, a Plural move três ações judiciais exigindo indenização do hospital.

Para defender o hospital, foi contratado o escritório de advocacia Duarte Cruz. Mas, segundo denúncia de Oswaldo Meza, Paulo da Cruz Duarte é ex-sócio da advogada Alir Terra.

Praticamente ao mesmo tempo, Paulo da Cruz Duarte, além de atuar na advocacia, passou a atuar na área da saúde, o que lhe garantiu exclusividade para comercializar os planos de saúde da Santa Casa Saúde.

E se não bastasse a entrega do plano de saúde ao escritório de advocacia comandado por Paulo Duarte, a presidente da Santa Casa ainda repassou a ele centenas de ações judiciais contra o poder público, através das quais cobra a restituição por serviços prestados a pacientes encaminhados ao hospital via decisões judiciais. Essas ações, pelo fato de serem em grande número, resultam ao final em valores significativos a título de honorários sucumbenciais, denuncia o advogado Oswaldo Meza.

Nesta sexta-feira o Ministério Público fez uma informou ter identificado irregularidades em contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde – empresa controlada pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande – com diversas empresas do mesmo grupo econômico, grupo esse controlado pelo advogado Paulo Cruz.

Essas empresas, cujo proprietário tinha ligações com a diretoria da Santa Casa, eles eram sócios em um escritório de advocacia, estavam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel, na verdade, encontrava-se desocupado. A apuração apontou que, somente no ano passado a operadora pagou aproximadamente R$ 9,6 milhões para essas empresas, e gerou um prejuízo de pelo menos R$ 3,5 milhões ao hospital.


De acordo com Oswaldo Meza, “o ponto sensível não é apenas a atuação jurídica em si, mas o fato de o advogado manter diversas empresas no ramo da saúde, concentradas no mesmo endereço comercial, atuando em segmentos como telemedicina, planos de saúde, medicamentos e tecnologia aplicada à saúde”.

Levantamentos realizados em bases públicas de CNPJ indicam que Paulo da Cruz Duarte figura como sócio ou administrador de múltiplas empresas diretamente ligadas ao mercado da saúde. Essas empresas compartilham o mesmo endereço empresarial, localizado na Rua Hélio Yoshiaki Ikeziri, nº 34, no bairro Royal Park, em Campo Grande, o que indica uma estrutura centralizada de negócios no mesmo setor econômico. E foi este endereço que sofreu devasse do MPMS nesta sexta-feira.

Para Oswaldo Meza, “entidades que lidam com vidas humanas, recursos públicos e serviços essenciais, a ética não pode ser apenas formal; precisa ser visível, ativa e transparente. Quando vínculos privados se sobrepõem ao ambiente de gestão pública ou filantrópica, o ônus da explicação recai sobre quem administra”.

Na operação desta sexta-feira, o Ministério Público cumpriu 36 mandados de busca e apreensão e seis de prisão. Além dos contratos relativos ao plano de saúde, também foi alvo um contrato que teria de digitalização de prontuários por meio do qual teriam sido desviados R$ 1,4 milhão em um ano. 

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