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A Corte no palanque

A percepção de que ministros possam atuar, ainda que indiretamente, na formação de maiorias políticas para definir a composição do próprio Tribunal

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Há uma distinção que a República exige preservar com rigor quase que ritualístico: a diferença entre a Política – aquela exercida sob o crivo do voto, do dissenso aberto e da responsabilidade democrática – e a política de bastidores, de articulação informal, que, quando praticada por quem deveria apenas julgar, compromete a própria lógica do sistema constitucional.

É neste ponto que narrativas recentes de interlocuções entre membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e atores dos demais Poderes acendem um sinal de alerta que não pode ser naturalizado.

Enquanto Corte Constitucional, o Supremo não é, tão somente, mais um ator institucional no jogo político.

Ele é, antes de mais nada, o árbitro das regras desta partida. Sua autoridade não deriva da força, tampouco da capacidade de articulação, mas, sim, de um ativo intangível e decisivo: o capital reputacional. E é este valor agregado que sustenta a legitimidade das decisões da Alta Corte.

Quando ministros do STF se deixam perceber como partícipes de negociações políticas – com “p” minúsculo, vale frisar –, há uma erosão silenciosa, porém profunda, deste capital.

O Supremo deixa de ser visto como instância de contenção e passa a ser interpretado como agente de influência. 

Neste contexto, ganha relevo o episódio envolvendo a indicação de Jorge Messias à Mais Alta Corte. A rejeição por parte do Senado, há poucos dias, teria sido, segundo bastidores amplamente noticiados, influenciada por articulações que extrapolariam o espaço político-parlamentar tradicional, alcançando, inclusive, setores do próprio STF.

Independentemente da veracidade integral destas narrativas – que, por si só, já sinalizam ambiente institucional turvo –, o simples fato de serem plausíveis aos olhos da opinião pública já produz dano reputacional.

A percepção de que ministros possam atuar, ainda que indiretamente, na formação de maiorias políticas para definir a composição do próprio Tribunal tensiona as fronteiras do desenho constitucional e compromete a ideia de imparcialidade estrutural.

Em minha pesquisa de doutorado em Direito Constitucional, sustentei que, o Supremo brasileiro, ao longo das últimas décadas, assumiu um protagonismo que retesa continuamente o equilíbrio entre os Poderes.

Esta centralidade, embora, por vezes, inevitável, exige contrapesos internos, principalmente de natureza ética e procedimental.

A ausência de balizas claras para a atuação extraprocessual dos ministros cria espaço perigoso de ambiguidade: aquilo que deveria ser exceção se transforma em prática tolerada.

O resultado é um duplo efeito deletério. De um lado, se enfraquece a autoridade da Alta Corte perante a sociedade. De outro, alimenta-se a desconfiança dos próprios Poderes, que deixam de ver o STF como árbitro imparcial. 

Não se trata de ingenuidade institucional, tampouco de exigir isolamento absoluto. Trata-se de reconhecer que há um ethos próprio da jurisdição constitucional, que não se compatibiliza com a lógica da negociação política informal.

A República não colapsa por rupturas abruptas, mas por erosões graduais. E, neste cenário, cada gesto importa.

Quando a Corte desce ao palanque – ainda que nos bastidores –, não apenas compromete sua posição; ela reconfigura, perigosamente, o próprio equilíbrio institucional que lhe cabe proteger.

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Os cuidados com a saúde mental na adolescência

O período em que a vida ganha cores novas, em que as primeiras grandes descobertas acontecem e em que a liberdade começa a ter gosto próprio

11/05/2026 07h45

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A adolescência é um território cheio de contrastes, e talvez seja justamente isso que a torna tão marcante. É uma fase em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo: o corpo muda, as relações mudam, as expectativas aumentam e a sensação de que o mundo inteiro está observando cada passo se torna quase constante.

Ao mesmo tempo, é também o período em que a vida ganha cores novas, em que as primeiras grandes descobertas acontecem e em que a liberdade começa a ter gosto próprio. De um lado, estão as dores.

A insegurança é uma das mais presentes. O espelho vira um juiz implacável, e qualquer detalhe – uma espinha, um cabelo fora do lugar, uma roupa que não parece “certa” – pode parecer um problema enorme.

Há também a pressão por pertencimento: querer fazer parte de um grupo, ser aceito, ser compreendido. E quando isso não acontece, a sensação de isolamento pesa.

Além disso, surgem as primeiras responsabilidades reais: decisões sobre o futuro, cobranças escolares, expectativas familiares. Tudo isso enquanto o cérebro ainda está tentando entender quem você é.

A Pense 2024 entrevistou 118.099 estudantes e apontou prevalência elevada de tristeza, irritabilidade e pensamentos de que a vida não vale a pena, com diferenças de gênero marcantes – meninas apresentam índices mais altos em quase todos os indicadores.

Além disso, 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles e menos da metade das escolas públicas oferece algum tipo de suporte psicológico. Esses dados colocam solidão, sensação de desamparo e insatisfação corporal como fatores centrais da crise.

Mas, do outro lado, estão as delícias, e elas são muitas. A adolescência é o momento das primeiras paixões, intensas e desajeitadas, mas inesquecíveis.

É quando a música favorita parece falar diretamente com você, quando cada amizade tem o potencial de durar para sempre, quando sair de casa sem destino pode ser a melhor aventura do dia.

É a fase em que a criatividade explode, em que você começa a testar limites, a experimentar estilos, a descobrir talentos que nem imaginava ter.

Existe também uma delícia silenciosa: a sensação de que tudo é possível. Mesmo com as dúvidas, existe uma energia única, uma vontade de mudar o mundo, de ser alguém que faça diferença. É um período em que a imaginação corre solta e em que o futuro, apesar de assustador, parece cheio de portas abertas.

Ser adolescente é viver em um constante vai e vem entre euforia e frustração, coragem e medo, liberdade e confusão. É contraditório, é intenso, é cansativo e, ao mesmo tempo, é profundamente formador.

As dores moldam, as delícias impulsionam. E, quando essa fase passa, o que fica é uma coleção de memórias que ajudam a explicar quem você se torna depois.

Um dos métodos mais eficazes no cuidado é a psicoterapia. Muitas vezes, quanto mais cedo começa o tratamento em crianças e jovens, melhor.

Ela tem se mostrado uma ferramenta eficaz no combate a depressão e ansiedade. Revisões brasileiras e internacionais mostram que intervenções psicossociais reduzem sintomas e melhoram funcionamento social e escolar.

Ela atua em habilidades de regulação emocional, reestruturação cognitiva e estratégias de enfrentamento, complementando intervenções médicas, quando necessárias.

Porém, além de tratamentos psicológicos, a saúde mental entre jovens brasileiros exige resposta integrada: políticas públicas para ampliar suporte escolar e atenção primária, triagem precoce e acesso a psicoterapias baseadas em evidência como parte central do cuidado.

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Governo Lula termina a semana saindo das cordas

Lula aproveitou o encontro para neutralizar uma das narrativas mais persistentes do bolsonarismo: a de que o atual governo estaria isolado da principal potência do hemisfério

11/05/2026 07h30

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Após uma semana difícil, marcada pela derrota na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, o governo de Lula encerra os últimos dias em posição mais confortável, beneficiado por uma combinação de fatores que, juntos, alteram o clima político em seu favor.

O início da semana trouxe o relançamento do Desenrola, programa de renegociação de dívidas que recoloca o governo no terreno das entregas concretas à população.

Contudo, foi a viagem presidencial ao exterior que produziu o impacto simbólico mais imediato: recebido com cordialidade por Donald Trump, Lula aproveitou o encontro para neutralizar uma das narrativas mais persistentes do bolsonarismo: a de que o atual governo estaria isolado da principal potência do hemisfério.

Trump, como se sabe, gosta de, ao cumprimentar outros chefes de Estado, usar de sua estatura e de um aperto de mão vigoroso e, com isso, demonstrar força e poder.

Se tal fato se deu com Lula, isso não foi perceptível. Mas foi percebida a foto de Trump com um largo sorriso ao lado do presidente brasileiro, diferentemente de outras vezes, em que fazia cara de sério e até de raiva ao se deixar fotografar. Em ano eleitoral, com a projeção de manutenção da polarização entre lulismo e bolsonarismo, esse gesto diplomático tem valor político nada desprezível.

No entanto, o episódio de maior peso na semana não veio do Palácio do Planalto, mas da Polícia Federal. A operação de busca e apreensão na residência de Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressistas (PP), sacudiu o Centrão e redefiniu, por enquanto, a correlação de forças no Congresso.

Nogueira é investigado por suposto recebimento de vantagens indevidas de Daniel Vorcaro no contexto do caso do Banco Master: uma mesada estimada entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais, pagamentos via cartão de crédito, hospedagens em hotéis de luxo nos Estados Unidos e o uso de um imóvel de alto padrão que, segundo as investigações, pertenceria ao empresário.

A relevância política do episódio vai além da figura do investigado. Ciro Nogueira é uma das principais lideranças do Centrão, bloco que sustenta a governabilidade em Brasília independentemente de quem ocupe a Presidência. Rememore-se, ainda, que ele foi ministro do governo de Bolsonaro e um hábil articulador político, que evitou, com outros atores, um processo de impeachment contra Bolsonaro.

Com ele na berlinda, o PP e seus aliados entram numa posição defensiva que, por ora, retira pressão do governo federal e desloca o eixo das atenções do Palácio do Planalto para o interior da base parlamentar. Mais do que isso: Ciro Nogueira era cotado para uma possível vaga como vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.

O senador e pré-candidato divulgou nota tímida e protocolar em relação ao ocorrido, todavia, não escapará do desgaste que os petistas e o campo da esquerda promoverão ao associar estes dois personagens.

A conjuntura, portanto, favoreceu Lula sem que o governo precisasse protagonizar os acontecimentos. Em política, sair das cordas com a ajuda dos adversários é, muitas vezes, tão valioso quanto vencer por mérito próprio.

O desafio, agora, é transformar esse fôlego momentâneo em agenda propositiva antes que a semana seguinte traga novas turbulências. O governo, hoje, tem uma estratégia, penso eu, dupla: a) melhorar sua avaliação e diminuir a alta rejeição; e b) desgastar Flávio Bolsonaro de todas as formas possíveis.

Em eleições polarizadas, fatos considerados menores podem ser nitroglicerina pura e fazer a diferença na percepção dos eleitores e nas urnas em outubro.

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