A adolescência é um território cheio de contrastes, e talvez seja justamente isso que a torna tão marcante. É uma fase em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo: o corpo muda, as relações mudam, as expectativas aumentam e a sensação de que o mundo inteiro está observando cada passo se torna quase constante.
Ao mesmo tempo, é também o período em que a vida ganha cores novas, em que as primeiras grandes descobertas acontecem e em que a liberdade começa a ter gosto próprio. De um lado, estão as dores.
A insegurança é uma das mais presentes. O espelho vira um juiz implacável, e qualquer detalhe – uma espinha, um cabelo fora do lugar, uma roupa que não parece “certa” – pode parecer um problema enorme.
Há também a pressão por pertencimento: querer fazer parte de um grupo, ser aceito, ser compreendido. E quando isso não acontece, a sensação de isolamento pesa.
Além disso, surgem as primeiras responsabilidades reais: decisões sobre o futuro, cobranças escolares, expectativas familiares. Tudo isso enquanto o cérebro ainda está tentando entender quem você é.
A Pense 2024 entrevistou 118.099 estudantes e apontou prevalência elevada de tristeza, irritabilidade e pensamentos de que a vida não vale a pena, com diferenças de gênero marcantes – meninas apresentam índices mais altos em quase todos os indicadores.
Além disso, 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles e menos da metade das escolas públicas oferece algum tipo de suporte psicológico. Esses dados colocam solidão, sensação de desamparo e insatisfação corporal como fatores centrais da crise.
Mas, do outro lado, estão as delícias, e elas são muitas. A adolescência é o momento das primeiras paixões, intensas e desajeitadas, mas inesquecíveis.
É quando a música favorita parece falar diretamente com você, quando cada amizade tem o potencial de durar para sempre, quando sair de casa sem destino pode ser a melhor aventura do dia.
É a fase em que a criatividade explode, em que você começa a testar limites, a experimentar estilos, a descobrir talentos que nem imaginava ter.
Existe também uma delícia silenciosa: a sensação de que tudo é possível. Mesmo com as dúvidas, existe uma energia única, uma vontade de mudar o mundo, de ser alguém que faça diferença. É um período em que a imaginação corre solta e em que o futuro, apesar de assustador, parece cheio de portas abertas.
Ser adolescente é viver em um constante vai e vem entre euforia e frustração, coragem e medo, liberdade e confusão. É contraditório, é intenso, é cansativo e, ao mesmo tempo, é profundamente formador.
As dores moldam, as delícias impulsionam. E, quando essa fase passa, o que fica é uma coleção de memórias que ajudam a explicar quem você se torna depois.
Um dos métodos mais eficazes no cuidado é a psicoterapia. Muitas vezes, quanto mais cedo começa o tratamento em crianças e jovens, melhor.
Ela tem se mostrado uma ferramenta eficaz no combate a depressão e ansiedade. Revisões brasileiras e internacionais mostram que intervenções psicossociais reduzem sintomas e melhoram funcionamento social e escolar.
Ela atua em habilidades de regulação emocional, reestruturação cognitiva e estratégias de enfrentamento, complementando intervenções médicas, quando necessárias.
Porém, além de tratamentos psicológicos, a saúde mental entre jovens brasileiros exige resposta integrada: políticas públicas para ampliar suporte escolar e atenção primária, triagem precoce e acesso a psicoterapias baseadas em evidência como parte central do cuidado.

