Artigos e Opinião

Artigo

A era das bets chegou ao trabalho e agora?

A rápida expansão das plataformas de apostas on-line no Brasil começa agora a revelar efeitos que ultrapassam o ambiente digital

Continue lendo...

O celular vibra durante o expediente. Não é uma mensagem da família nem um e-mail corporativo. É mais uma notificação criada para capturar atenção, estimular impulsos e manter alguém apostando. 

A rápida expansão das plataformas de apostas on-line no Brasil começa agora a revelar efeitos que ultrapassam o ambiente digital. O problema já alcança famílias, serviços de saúde e relações de trabalho. 

A ludopatia, também chamada de jogo patológico, é um transtorno marcado pela compulsão por apostas mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e profissionais.

A pessoa perde progressivamente a capacidade de controlar o impulso de jogar e continua apostando apesar das dívidas, do sofrimento psíquico e da deterioração da própria vida. 

A Organização Mundial da Saúde reconhece a ludopatia como transtorno mental. O DSM-5 – manual utilizado internacionalmente como referência diagnóstica em psiquiatria – incluiu o jogo compulsivo entre os transtornos relacionados com a dependência em razão dos mecanismos de compulsão, tolerância e perda de controle envolvidos. 

Ainda assim, o senso comum frequentemente trata o problema como falha moral. E é justamente aí que surge um dos aspectos mais perigosos dessa discussão: a discriminação. 

Dados do DataSenado mostram que milhões de brasileiros utilizam plataformas de apostas esportivas e que grande parte dos apostadores exerce atividade remunerada.

O trabalhador endividado, ansioso, desconcentrado e emocionalmente instável já faz parte da realidade de muitas empresas.     

O problema é que o ambiente corporativo ainda não sabe lidar com esse adoecimento. 

Em vez de reconhecer sinais claros de sofrimento psíquico, muitas empresas enxergam apenas queda de produtividade, atrasos, conflitos internos e perda de rendimento.

A resposta costuma ser rápida: isolamento, estigmatização e demissão. 

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas médica e passa a ser jurídica. 

A legislação brasileira proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho. E o Tribunal Superior do Trabalho consolidou, por meio da Súmula nº 443, o entendimento de que a dispensa de trabalhadores acometidos por doenças graves que gerem estigma ou preconceito pode ser presumida discriminatória. 

Na prática, isso significa que, quando a empresa tem conhecimento do adoecimento e dispensa o trabalhador em razão dessa condição, cabe ao empregador demonstrar que a demissão ocorreu por motivo legítimo e não discriminatório. 

A ludopatia se encaixa de forma preocupante nesse debate porque o adoecimento frequentemente altera a forma como o trabalhador passa a ser percebido dentro da empresa.

O compulsivo em apostas muitas vezes deixa de ser visto como alguém adoecido e passa a ser tratado apenas como um empregado problemático, instável ou improdutivo. 

Quando a dispensa discriminatória é reconhecida, o trabalhador pode ter direito à reintegração do emprego, com pagamento do salário e dos demais direitos do período de afastamento, ou ao recebimento desses valores em dobro, além de indenização por danos morais. 

A arrecadação tributária prevista com as apostas on-line, justificativa inicial para autorizar os jogos, parece pequena diante do custo social produzido pelo adoecimento associado ao jogo compulsivo.

Afastamentos do trabalho, tratamentos de saúde mental, perda de produtividade, superendividamento, ruptura familiar e até suicídios compõem uma conta muito maior do que a receita arrecadada pelo Estado.

A era das bets chegou ao trabalho. E talvez o maior erro seja continuar tratando a ludopatia apenas como problema individual, ignorando que ela já se transformou em uma questão de saúde mental, dignidade humana e possível discriminação nas relações de trabalho. 

Assine o Correio do Estado

ARTIGOS

Qualidade de vida em uma história de 80 anos

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática o Serviço Social do Comércio

11/09/2026 07h30

Continue Lendo...

O ano de 1946 trouxe novos ares para o Brasil. O início da redemocratização no País, marcado por uma nova Constituição, representava a esperança de progresso e dias melhores. O Serviço Social do Comércio (Sesc) foi criado nesse cenário.

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática. E foi por meio da democratização do acesso aos mais diversos serviços que o Sesc marcou sua trajetória nesses 80 anos, completos no dia 13 de setembro.

Idealizada pelos empresários do comércio, a instituição tinha como missão proporcionar qualidade de vida aos trabalhadores do setor e seus familiares. Tratava-se, na época, de um conceito incipiente, que carecia de modelos representativos.

O termo qualidade de vida era relacionado a aquisição de bens, fruto de um momento pós-guerra, quando a sociedade começava a se reestruturar economicamente.

Mas a realidade era que uma vida de qualidade precisava abranger muitos outros aspectos. O bem-estar humano necessitava de saúde física, saúde mental, relações sociais e meio ambiente.

Era preciso pensar no indivíduo de forma integral, observar o contexto em que ele vivia, as condições necessárias para que pudesse desenvolver suas habilidades e autonomia.

Uma das primeiras ações do Sesc teve como foco o momento livre do trabalhador. A ideia era transformar esse tempo em uma experiência memorável, capaz de proporcionar equilíbrio a rotina de trabalho.

Surgiram então as primeiras colônias de férias e projetos como os veraneios gratuitos, promovidos no Rio Grande do Sul, que levavam os comerciários e seus familiares para férias no litoral gaúcho.

Os trabalhadores também encontravam lazer no Sesc com as atividades esportivas. Criado em 1949, os Jogos dos Comerciários logo viraram um sucesso, com times montados em lojas e fábricas, competindo em modalidades como futebol, basquete e pingue-pongue.

Até o rei Pelé participou. Com 16 anos, ele era aprendiz em uma fábrica de botas e fez parte do torneio em Bauru.

Na área de saúde, o desafio se mostrou um pouco maior. Na década de 1940, havia uma forte incidência em doenças infectocontagiosas, além de elevada mortalidade infantil. Em resposta à questão, o Sesc construiu em Minas Gerais o Sanatório Barreiro, com 600 leitos voltados ao tratamento da tuberculose.

Também houve investimento em maternidades. Em 1949 foi inaugurada no Rio de Janeiro a Maternidade Carmela Dutra, que com apenas um ano de funcionamento já recebia o prêmio Caduceu, concedido pelo Departamento Nacional da Criança, por ser o Hospital mais eficiente no combate à mortalidade materna e perinatal.

Não poderia faltar a atuação do Sesc em educação, grande norteadora de todas as suas ações. Nos anos 1940, grande parte dos adultos brasileiros eram analfabetos ou tinham o mínimo estudo, porque necessitavam cedo trabalhar.

Em 1948, o Sesc já apoiava cursos de alfabetização de adultos e o crescimento desse trabalho culminou em um programa específico, o Sesc Ler, criado em 1998, que levou alfabetização e inclusão social a jovens e adultos que abandonaram os estudos precocemente.

Hoje, a Rede Sesc de Educação está presente em toda a Educação Básica, da Educação Infantil a Educação de Jovens e Adultos. São 234 escolas e 70 polos de Ensino à Distância da EJA.

Diversas outras ações foram desenvolvidas ao longo desses 80 anos, várias delas pioneiras e que se tornaram referência para políticas públicas e iniciativas privadas. Muitas outras estão sendo estudadas. Novos projetos, planos que são construídos no dia a dia, mediante a observação do nosso público e do contexto social.

Aos 80 anos, o Sesc não para de crescer e se adaptar. Talvez seja esse o segredo de sua longevidade: atuar no dia a dia, lado a lado com esses milhões de brasileiros que escrevem a nossa história.

ARTIGOS

O Supremo precisa se explicar

Suspeita não significa culpa e todos têm direito à defesa; diante de acusações relevantes ministros permanecem em silêncio ou oferecem poucos esclarecimentos

11/09/2026 07h25

Continue Lendo...

O Supremo Tribunal Federal (STF) tem 135 anos de história republicana. Acompanho sua atuação desde 1988, quando iniciei a faculdade de Direito. Depois fiz mestrado em Direito Constitucional na PUC-SP e lecionei a disciplina durante 20 anos. Nunca vi o STF atravessar um momento como o atual.

É muito triste ver a Suprema Corte envolvida em tantas controvérsias e suspeitas. Suspeita não significa culpa e todos têm direito à defesa. Mas surpreende que, diante de acusações relevantes, ministros permaneçam em silêncio ou ofereçam poucos esclarecimentos.

Quem exerce tamanho poder também deve satisfação institucional ao País.

A isso se soma o excessivo protagonismo político assumido pelo STF nos últimos anos. A Corte passou a ocupar espaços cada vez maiores na vida nacional. Quanto maior o poder, maior deve ser a preocupação com autocontenção, imparcialidade e respeito aos limites constitucionais.

Há poucos dias, ouvi trabalhadores de uma obra ao lado do meu escritório fazendo críticas duríssimas ao STF e ao Judiciário. Percebi que o desgaste deixou os ambientes jurídicos e políticos e chegou às ruas. Isso é extremamente preocupante.

Há uma injustiça nisso tudo: o STF não é todo o Judiciário brasileiro. São milhares de juízes, desembargadores e ministros que trabalham muito, quase sempre em silêncio, estudando processos e cumprindo dignamente suas funções. Não é justo que todos paguem por suspeitas ou erros que não são seus.

Por isso, os fatos precisam ser esclarecidos rapidamente. Nem condenação antecipada nem proteção corporativa: investigação séria, transparência, direito de defesa e responsabilização, se houver irregularidades.

O Brasil precisa de um STF respeitado e de um Judiciário preservado. Quem respeita a Justiça deve ser o primeiro a exigir que todas as dúvidas sejam esclarecidas.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).