Dados recentemente divulgados pela Organização das Nações Unidas, no Relatório global sobre crises alimentares, mostraram que “níveis perigosos de fome aguda afetaram 281,6 milhões de pessoas em 2023, o quinto ano consecutivo em que a insegurança alimentar piorou”.
Irrefutavelmente, o índice aumentou, com a eclosão da Pandemia, mas por ser um crônico problema político-social, nunca erradicado, não se pode, obviamente, considerar-se como único desencadeador dessa crise o excepcional estado de crise sanitária em que vivemos em 2020.
Ainda no ano de 1984, o Geógrafo Melhem Adas, já denunciava, na sua Obra “A fome - crise ou escândalo?”, que a fome é uma criação humana diretamente relacionada com o tipo de civilização que construímos; um grande e sério problema político, econômico e social, e sua existência, ainda nos dias atuais, é a prova contundente do fracasso de nossa civilização.
Essa obra, de indispensável leitura, refuta teses que foram mais comumente usadas para “mascarar” uma indesejável realidade, como aquelas que atribuíam o surgimento da fome a causas naturais, a exemplo do crescimento populacional ou as desvantagens dos países subdesenvolvidos.
Esse pensamento desenvolvido nos Séculos XVIII e XIX, pelo Economista inglês, Thomas Malthus, relacionava o agravamento da fome no mundo, a questões demográficas.
Mais tarde, em que pese sua tese ter repercutido, longamente, por outras escolas geográficas, com as teses “neomalthusianas”, que admitiram ser o crescimento populacional contribuinte do aumento da pobreza, constatou-se que o desenfreado aumento da população não é determinante para a expansão da fome.
Além disso, já faz tempo que as teses que atribuíam a escassez de alimentos no Mundo, a fatores como desproporções entre a produção de alimentos e o crescimento populacional foram vencidas, já que se constatou que o homem é capaz de produzir alimentos em larga escala, com o advento de tecnologia e de outros meios de produção.
Embora em países como Sudão e Gaza tenha se constatado mais terrivelmente esse quadro, os dados a que nos referimos no intróito deste Artigo deveriam estar na pauta das discussões de todos os países, principalmente aqueles em que a fome mais campeia.
Presentemente, tornou-se cena comum, verem-se pessoas em situações de extremo aviltamento, em tema de indignidade humana, a ponto de disputarem ossos e restos de comida de lixo, no inóspito território da fome.
É possível se ver, a olho nu, em cada esquina, canto ou lugar qualquer de nosso imenso País, a fera da fome a espreitar mais e mais vítimas, o que se torna mais preocupante devido ao momento em que o cenário econômico não anda bem.
Somada a essa escassez que maltrata grande parte da população, ainda convivemos com um angustiante desperdício de alimentos, principalmente os que são jogados fora, por supermercados e restaurantes, o que poderia resolver a situação de muitos que não têm o mínimo para comer, se realmente existisse a desejada empatia e solidariedade humana, tão esperada quando do período da Pandemia.
A solução para a erradicação da fome, não só no Brasil, mas em todo o Mundo, passa, portanto, por um processo de humanização e, consequentemente, da necessária solidariedade entre pessoas e nações, além do olhar prioritário que deve receber dos governos.



