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A nova roupagem da violência de gênero que afeta as meninas nos corredores escolares

Em fevereiro, duas alunas de 15 anos tiveram seus rostos sobrepostos a corpos nus por colegas, que ainda comercializavam as imagens

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“Eu ainda choro muito e me sinto suja. Eu sei que o corpo das fotos não é o meu, mas o rosto é”. Este depoimento de uma adolescente de Campo Grande não é um caso isolado, mas a ponta de um iceberg digital que naufraga a dignidade de milhares de meninas no Brasil.

Em fevereiro, duas alunas de 15 anos tiveram seus rostos sobrepostos a corpos nus por colegas, que ainda comercializavam as imagens. É a face mais perversa de um fenômeno que se alastra com a cumplicidade silenciosa de escolas e a lentidão do poder público.

Não se trata mais de “brincadeira de mau gosto”. A popularização das Inteligências Artificiais (IAs) generativas deu origem a uma indústria caseira de deep nudes: pornografia falsa, hiper-realista e não consensual.

O que exigia edição avançada, hoje é feito em segundos por aplicativos gratuitos, transformando colegiais em vítimas de uma nova violência de gênero, tão danosa quanto a física, mas operando na impunidade virtual.

Casos como o de Campo Grande, que se somam a outros em Belo Horizonte, Botucatu e Cuiabá, expõem um padrão alarmante. Em Belo Horizonte (2023), garotos criaram um “ranking pornográfico” das colegas com deep nudes.

Em Cuiabá (2024), o alvo foi uma professora. O que esses episódios têm em comum? A objetificação do corpo feminino, a misoginia e a tentativa das escolas de abafar o caso para “proteger a imagem da comunidade escolar”.

A diretoria que minimiza a denúncia, o gestor que se omite e o Conselho que trata o crime como “coisa de adolescente” são peças que perpetuam a violência. Ao silenciar, a escola valida a conduta dos agressores.

O recorte social e de gênero é inescapável. A maioria dos casos ocorre em escolas privadas, evidenciando que o acesso a ferramentas de IA é facilitado pelo poder aquisitivo. Mas a raiz é estrutural: o machismo.

Como aponta a educadora Sheylli Caleffi, o patriarcado colocou os meninos em posição de onipotência, onde tudo é permitido, inclusive a violação da intimidade, disfarçada de “brincadeira”. Para as meninas, a consequência é a degradação social e psicológica, um dano permanente que a internet não esquece.

Diante disso, a resposta do Estado é um misto de ineficácia e despreparo. Apesar de o Código Penal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tipificarem a violência psicológica, a aplicação da lei esbarra na subnotificação e na morosidade.

A família da vítima de Belo Horizonte aguarda há um ano o retorno do Ministério Público, enquanto ouvia do delegado que tivessem “compreensão”, porque os agressores eram “apenas meninos”.

Essa fala revela um viés de gênero na aplicação da lei: o algoz merece compreensão; a vítima, paciência. O Ministério da Educação (MEC), por sua vez, opera na contramão da urgência, sem nenhum mapeamento oficial sobre deep nudes nas escolas.

A raiz do problema, contudo, é mais profunda: a erosão da educação sexual e afetiva nas escolas. Dados do ObservaDH mostram que apenas 14,8% dos diretores reportam projetos de enfrentamento ao machismo. Enquanto a discussão sobre gênero for um tabu, os meninos crescerão sem empatia.

A tecnologia, nesse vácuo, não cria a violência, mas a amplifica. Como ironiza a especialista Ana Paula Siqueira, “não existe ‘estupro-mimimi’, portanto, também não existe ‘bullying-mimimi’.

Enquanto o debate público se perde em projetos lentos no Congresso, as plataformas digitais lucram. O Google exibe anúncios de apps de “montagem nuds”. A Apple Store e o Google Play oferecem aplicativos sem barreiras efetivas de idade. A autorregulação das big techs falhou. A regulação estatal ainda engatinha.

A solução exige uma resposta em múltiplas frentes: regular a tecnologia, classificando ferramentas de deep nudes como de “risco excessivo”; educar para a afetividade, inserindo educação sexual e de gênero no currículo escolar de forma transversal; e capacitar a rede de proteção com protocolos nacionais claros para que escolas e polícias saibam acolher vítimas e punir agressores.

Enquanto a sociedade não encarar os deep nudes como uma forma brutal e deliberada de violência de gênero, o rosto das meninas continuará sendo usado como tela em branco para a pornografia e a crueldade. E o choro abafado das vítimas ecoará no vazio deixado pela nossa inação coletiva.

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O efeito colateral do mercado paralelo na guerra contra a obesidade

Anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos

05/03/2026 07h45

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Depois de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a obesidade.

Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos aprovados.

A expectativa agora se volta para a retatrutida, triplo agonista ainda em estudo que, em fases clínicas, mostrou perdas de até 30% do peso corporal, superiores às da tirzepatida, comercializada como mounjaro. Mas há um detalhe essencial: a retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país.

Ainda assim, surgiu a notícia de que a empresa Éticos, conhecida por já ter produzido medicamentos proibidos no Brasil, anunciou o lançamento de uma suposta retatrutida com o nome comercial ReduFast.

Pouco depois, a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria informou que não concedeu aprovação oficial para o produto nem mesmo no Paraguai.

É aqui que mora o verdadeiro perigo.

Já conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”: produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.

Mas existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da obesidade.

Quando alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade. É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.

A obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou falta de força de vontade.

Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e custos humanos e econômicos.

Se permitirmos que o mercado paralelo avance antes da eventual aprovação oficial da retatrutida, o cenário é previsível: produtos de origem duvidosa, eventos adversos graves, manchetes alarmistas e uma população cada vez mais desconfiada. O medo se espalha. O preconceito se reforça. E quem realmente precisa do tratamento fica sem acesso, seja por receio, seja por restrição futura mais rígida.

É urgente conscientizar a população sobre a importância de respeitar os trâmites oficiais e reforçar a vigilância sanitária e o controle de fronteiras para evitar a entrada de produtos não aprovados que exploram a esperança de quem luta contra a obesidade.

Quando o atalho vira regra, a conta chega, não apenas em efeitos colaterais físicos, mas em descrédito social. O risco maior não é a molécula em si, e sim transformar uma das maiores conquistas recentes da medicina em mais um capítulo de desinformação e medo.

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O crepúsculo dos aiatolás

A confirmação da morte de Ali Khamenei em decorrência de uma operação cirúrgica e coordenada entre Estados Unidos e Israel, transcende o êxito tático-militar

05/03/2026 07h30

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O dia 28 de fevereiro de 2026 consolida-se como um divisor de águas na história contemporânea do Oriente Médio.

A confirmação da morte de Ali Khamenei – o líder supremo que personificou a República Islâmica com inabalável rigidez desde 1989 – em decorrência de uma operação cirúrgica e coordenada entre Estados Unidos e Israel, transcende o êxito tático-militar.

Trata-se do colapso do pilar central de uma teocracia que, por quase meio século, fundamentou sua política externa na exportação da instabilidade e sua política interna na opressão sistemática. A vacância deste centro de gravidade impõe à comunidade internacional a necessidade de gerir um vácuo de poder com rara clareza moral e pragmatismo analítico.

A decisão por um ataque de “decapitação” contra o complexo de Khamenei em Teerã não foi um evento isolado, mas o desfecho inevitável do esgotamento da paciência estratégica ocidental.

Durante décadas, o regime iraniano operou sob a égide da defesa avançada, terceirizando conflitos por meio de proxies como Hezbollah, Hamas e Houthis, mantendo o ônus da guerra longe de suas fronteiras.

Ao atingir o ápice da hierarquia, Washington e Jerusalém alteraram a gramática do conflito, atingindo diretamente os arquitetos da desestabilização.

Diante de um ator que interpreta o diálogo como oportunidade de rearmamento, a ação direta revelou-se o único recurso capaz de prevenir uma catástrofe nuclear e a hegemonia de um Estado pária no Golfo Pérsico.

Embora o objetivo imediato fosse a neutralização de capacidades nucleares, a inteligência aliada compreendeu que a destruição física de centrífugas é insuficiente se o “software” ideológico do regime permanecer operante.

A eliminação de Khamenei ataca esta frente, ou seja, a vontade política que alimentava o programa. Sem seu principal fiador teológico, o projeto atômico perde a aura de missão divina e torna-se um ativo oneroso para uma estrutura focada agora apenas na própria sobrevivência.

Os espasmos finais do sistema, como as tentativas de bloqueio do Estreito de Ormuz, apenas solidificaram a percepção de que a República Islâmica era uma ameaça existencial à estabilidade econômica global, disposta a qualquer jogada no xadrez global.

Com a eliminação de Ali Khamenei, a Guarda Revolucionária (IRGC) entra em fase de cálculo pragmático, em que a oferta de imunidade por parte dos EUA visa transformar um exército ideológico em uma força preocupada com a própria preservação.

Ao mesmo tempo, os aiatolás, acuados, perdem força no tabuleiro de poder enquanto o país ainda tenta se manter funcional. A queda final do regime, entretanto, exige convergência de pressão externa esmagadora, deserção das forças de segurança e uma alternativa política organizada.

Regionalmente, o colapso redesenha o mapa de forma sísmica. Proxies ficam órfãos de financiamento, permitindo uma limpeza de enclaves terroristas, enquanto os Acordos de Abraão tendem a uma expansão sem precedentes, alcançando a Arábia Saudita.

Para evitar erros do passado, a intervenção priorizou a decapitação seletiva em detrimento de ocupações terrestres massivas, preservando burocracias essenciais e removendo apenas a asfixia ideológica.

A queda da teocracia permite que o Irã retorne ao concerto das nações, abrindo espaço para que a luz da soberania popular enfim emerja sobre o planalto iraniano como o maior dividendo de paz do século 21.

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