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Acolhimento: uma capacidade institucional

Quando alguém vive sob ameaça, agressão ou medo, encontrar um Estado capaz de perceber, escutar, proteger e agir pode mudar a história de gerações presentes e futuras

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Acolhimento é uma palavra que ganhou força no enfrentamento à violência contra a mulher. E precisa mesmo ganhar. Quando alguém vive sob ameaça, agressão ou medo, encontrar um Estado capaz de perceber, escutar, proteger e agir pode mudar a história de gerações presentes e futuras.

Mas há uma pergunta que amplia essa discussão: e quando essa mulher trabalha para o próprio Estado? Ela pode ser professora, policial, médica, assistente social, servidora administrativa. Pode passar o dia cuidando de pessoas, tomando decisões ou prestando um serviço público enquanto enfrenta, em casa, uma realidade que ninguém conhece.

A porta do trabalho não divide a vida em duas. O medo entra. A angústia entra. O cansaço entra. E podem entrar também a dificuldade de concentração, o isolamento, as ausências e a perda de confiança. A violência aconteceu fora da organização, mas seus efeitos chegaram até ela.

Há ainda uma terceira possibilidade, menos visível: o sofrimento pode nascer do lado de dentro.

Humilhações repetidas, assédio, constrangimentos, ameaças, isolamento e relações abusivas também adoecem. A violência psicológica nem sempre deixa marcas no corpo, mas pode deixar marcas profundas nas pessoas. Não por acaso, a legislação brasileira já a reconhece expressamente como violência.

Olhar para essas três situações muda a dimensão do acolhimento. Ele continua sendo essencial para quem procura o Estado, mas passa a ser igualmente importante para quem trabalha para fazê-lo funcionar.
E aqui há uma conexão que considero fundamental.

Instituições entregam por meio de pessoas. Cuidar das condições humanas que permitem a essas pessoas trabalhar, cooperar, decidir, aprender e oferecer o seu melhor não é algo periférico à capacidade institucional. É parte dela.

O cuidado se justifica por si só. Tratar pessoas com dignidade não deveria precisar de uma justificativa econômica ou gerencial. Mas reconhecer isso não nos impede de enxergar outra verdade: cuidado e resultado não caminham em direções opostas.

Quando uma pessoa encontra apoio, pode recuperar sua capacidade de trabalhar. Quando existe confiança, problemas aparecem antes. Quando as pessoas conseguem falar, riscos deixam de permanecer escondidos. Quando uma liderança escuta, acessa informações que dificilmente chegariam a um relatório.

O contrário também acontece. Ambientes marcados pelo medo consomem energia, silenciam problemas, afastam pessoas e desperdiçam conhecimento. A instituição pode continuar funcionando e, ainda assim, perder capacidade por dentro.

É por isso que acolhimento não deveria ser visto apenas como resposta a situações extremas. Pode ser uma política estratégica de cuidado com as pessoas e, ao mesmo tempo, de fortalecimento da capacidade institucional.

Os efeitos aparecem em diferentes lugares. Na saúde e no bem-estar. Na gestão de pessoas. Na qualidade das lideranças. Na cooperação entre equipes. Na aprendizagem. Na prevenção de riscos. E também na integridade.

Integridade depende de controles, normas, canais, investigação e responsabilização. Mas depende igualmente de algo muito humano: alguém precisa ter confiança para dizer que alguma coisa não vai bem.

É difícil identificar riscos quando não existe escuta. É difícil prevenir desvios quando a informação não circula. E é contraditório exigir comportamento ético em ambientes que toleram humilhação, assédio ou medo.

Talvez seja aqui que a ética do cuidado, associada ao trabalho de Carol Gilligan, ofereça uma chave especialmente útil. A ética da justiça está ligada ao dever de não prejudicar o outro. A ética do cuidado acrescenta uma dimensão ativa: perceber o outro e agir para cuidar.

Maturidade ética é conseguir integrar as duas. Isso vale especialmente para quem lidera.

Uma liderança eticamente madura não precisa escolher entre firmeza e cuidado, cobrança e escuta, resultado e humanidade.

Sabe exigir responsabilidade e, ao mesmo tempo, perceber quando alguém precisa ser visto.

Cuidar não significa exigir menos. Significa compreender que pessoas não são uma variável externa ao resultado. São elas que fazem a estratégia acontecer, percebem riscos, compartilham conhecimento, tomam decisões e entregam políticas públicas todos os dias.

É aí que o acolhimento ganha dimensão estratégica. Não como mais um programa ou protocolo, mas como uma capacidade que atravessa áreas e conecta aquilo que os organogramas costumam separar: pessoas, liderança, saúde, riscos, integridade e resultado.

Talvez colocar as pessoas no centro exija justamente essa ampliação do olhar.

Acolher a mulher que procura o Estado. Acolher também a mulher que trabalha para ele. E construir ambientes em que nenhuma pessoa precise adoecer em silêncio para que a organização continue parecendo saudável.

O cuidado se justifica por si só. Mas também fortalece a confiança, amplia capacidades e favorece resultados.

Acolher para fora e acolher para dentro são partes da mesma capacidade institucional. É assim que um Estado pode se tornar, ao mesmo tempo, mais humano e mais capaz, sem deixar ninguém para trás.

Editorial

Chuva, prevenção e planejamento

A prevenção pode parecer pequena diante da força da natureza, mas seus resultados são concretos. Alertas emitidos a tempo e equipes preparadas reduzem os prejuízos

16/10/2026 07h10

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O volume de chuva registrado neste mês em Campo Grande e em outras regiões de Mato Grosso do Sul chama a atenção pela intensidade e pelos transtornos que pode provocar. Os rios cheios são a demonstração mais evidente da quantidade de água que tem caído sobre o Estado. Em um período no qual normalmente a preocupação ainda estaria concentrada na estiagem e nas queimadas, o cenário exige atenção redobrada do poder público e da população.

A possibilidade de um fim de ano mais chuvoso já estava no radar dos meteorologistas, em razão da formação do El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial e que pode alterar os padrões de chuva em diferentes regiões do País. 

Os episódios registrados nas últimas semanas são um sinal de que é preciso acompanhar de perto a evolução das condições meteorológicas, sem perder de vista que a intensidade e a distribuição das precipitações podem variar.

Diante desse quadro, a prioridade deve ser a prevenção. Nos próximos dias, com a possibilidade de novas chuvas volumosas, cabe às autoridades reforçar o monitoramento de rios, áreas de risco, encostas e regiões sujeitas a alagamentos. 

Também é fundamental manter a população informada, orientar moradores sobre como agir em situações de emergência e preparar estruturas de acolhimento para quem eventualmente precise deixar a sua casa.

É justamente para isso que existem as defesas civis estaduais e municipais. Seu trabalho não deve se limitar a responder às ocorrências depois que os danos já ocorreram.

A capacidade de antecipar riscos, organizar equipes e mobilizar recursos antes de uma situação crítica pode fazer toda a diferença. A população, por sua vez, precisa respeitar os alertas e evitar comportamentos que aumentem a exposição a perigos, como atravessar áreas alagadas ou permanecer em locais ameaçados pela elevação dos rios.

A prevenção pode parecer pequena diante da força da natureza, mas os seus resultados são concretos. Alertas emitidos a tempo e equipes preparadas reduzem prejuízos. Mais importante ainda, podem evitar mortes. Prevenir costuma custar menos do que reconstruir depois de uma enchente.

A chuva também oferece oportunidade para planejar a infraestrutura. É quando drenagem, pontes, galerias pluviais e vias urbanas são postas à prova que suas limitações aparecem. Os pontos de alagamento devem ser avaliados para orientar obras, manutenção e investimentos.

A chuva torrencial nos coloca em alerta, mas também fornece informações valiosas para decisões futuras. Com prevenção e planejamento, é possível reduzir danos e preparar as cidades para eventos extremos a fim de proteger vidas.

Artigo

Paulo Bonavides: entre o golpe de Estado institucional e a guerra civil

É curioso notar que, diante de um cenário de crise e falência das instituições da democracia liberal, encontra-se um debate que cai na esfera da defesa ou não das pessoas que ocupam funções

15/10/2026 07h20

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No dia 30 de outubro o jurista Paulo Bonavides completaria 101 anos. No dia 25 de outubro, seu país terá de tomar uma decisão nada difícil, pois a alternativa posta é uma escolha entre a continuidade da democracia liberal parlamentar ou o fascismo.

Neste sentido, importa recordar algumas linhas de força da obra de Paulo Bonavides, um ânimo espiritual que deixou um legado para o Direito Constitucional, à ciência política e à teoria do Estado.

É curioso notar que, diante de um cenário de crise e falência das instituições da democracia liberal, encontra-se um debate que cai na esfera da defesa ou não das pessoas que ocupam funções, sendo notável o alvoroço acerca do noticiário envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e um banqueiro corrupto.

Também é curioso como para se manifestar a respeito do problema alguns comentadores digitais mobilizam uma grande quantidade de autores e autoras estrangeiros, sem dúvida muito importantes e interessantes, contudo, não aparece nenhuma linha da reflexão do professor Paulo Bonavides. Por aqui, justifica-se o objetivo destas linhas, ou seja, vejamos o alerta de Paulo Bonavides.

De saída, importa considerar uma das grandes hipóteses de Bonavides, a saber, de que no Brasil há uma crise constituinte. Em linhas gerais, a justificativa para esta afirmação se faz pela leitura atenta de uma parte do pensamento constitucional e da teoria política que não apostava no consenso e na democracia parlamentar.

Paulo Bonavides era um leitor cauteloso de juristas conservadores e, não obstante, que nutriam simpatia pelo fascismo, como, por exemplo, Carl Schmitt, na Alemanha, bem como Francisco Campos, no Brasil.

A leitura destes autores não se faz por reconhecimento laudatório, mas, isto sim, para evitar o erro de parte da filosofia política e do constitucionalismo liberal, uma vez que estes últimos negligenciaram atenção a esta linhagem de pensamento, isto é dizer, o objetivo é um diálogo crítico com estes pensadores.

Neste sentido, Paulo Bonavides, ao se defrontar com esta linhagem intelectual, também vai levar a sério a presença do conflito na política e no pensamento constitucional.

De tal modo, o primeiro movimento da hipótese de leitura da crise constituinte, ao considerar a presença do conflito, diz respeito ao destaque de que a história constitucional do Brasil, em realidade, conta-se em uma sucessão de golpes de Estado.

Assim, um argumento crítico a Bonavides afirma que há certa desconsideração pela luta popular por direitos no Brasil, o que parece um equívoco, uma vez que Bonavides considera que os golpes de Estado visam justamente barrar o momento constituinte revolucionário, isto é, são reações contrarrevolucionárias à soberania popular.

Neste horizonte de perspectiva, em que pese a máscara de neutralidade de alguns juristas conservadores, o ponto central e acertado de Paulo Bonavides é reconhecer que o conservadorismo é força política contrária à soberania popular e ao reconhecimento de direitos.

Por aqui, é possível ao professor nordestino afirmar que o projeto constitucional brasileiro está inacabado, em que pese alguns séculos de esforços e sacrifícios, sendo, talvez, adequado dizer que se trata de um projeto bloqueado incontáveis vezes, haja vista a longa sombra da casa grande projetada pela classe dominante e escravocrata do Brasil, insensível e indiferente ao agravamento das desigualdades sociais e regionais, o que pode ser bem ilustrado pela imagem decadente (presente nas redes de internet) do balcão do Copacabana Palace quando da manifestação popular ocorrida no Rio de Janeiro, no dia 12 de outubro, bom afirmar, dia dedicado ao feriado da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.

 A partir deste diagnóstico de conjuntura interna, Paulo Bonavides faz uma leitura aprimorada dos impactos da globalização neoliberal no Brasil.

Em sua compreensão, há uma espécie de fé na globalização do capital que constitui um aperfeiçoamento em sua forma de ser, isto é dizer, há uma espécie de mutação, o que permite uma ampliação de sua violência em perspectiva neocolonial que, em silêncio, porque não dizer, nas sombras – agora digitais –, articula e desfere golpes de Estado institucionais.

Por aqui, nota-se alguma atenção à questão da teologia política, pois esta última vem de longe e é parte importante das reflexões de Schmitt e Campos, como bem conhece Bonavides.

O golpe silencioso, sem tanques nas ruas, constrói-se por dentro da sala de máquinas institucional, sem fechamento por decreto de veículos de mídia (que estão sob controle não só de oligarquias tradicionais, mas também dos oligarcas do Vale do Silício), sem cerrar as portas da Casas do Congresso, mas, isto sim, com inoculação de desinformação que serve para alcançar cargos e coagir, anestesiar a sociedade, significa dizer “sufocar a consciência do País”.

Portanto, o golpe de Estado institucional, conforme Paulo Bonavides, não remove apenas governos, mas regimes, não pretende reconhecer direitos, mas, isto sim, privilégios, com afirmação unilateral de valores pretensamente superiores.

Dessa forma, o golpe de Estado institucional se faz no silêncio, na clandestinidade, o golpista, com a máscara da neutralidade, muitas vezes não declara em público suas intenções, que fluem em favorecimentos com medidas provisórias, destinação sem controle público de verba parlamentar, opressão tributária, arrocho de salários, reformas administrativas contra os servidores e os serviços públicos, desmoralização da classe média e submissão passiva ao imperialismo.

De tal modo, o golpe de Estado institucional, dirá Paulo Bonavides, é a modalidade de golpe dos “chamados ditadores constitucionais”, sendo, também, “o golpe que Hitler aplicou na Alemanha contra a Constituição de Weimar”.

Esta hipótese foi levantada no início dos anos 2000 e, ao que parece, tem algo a nos dizer, pois, ao fim, Paulo Bonavides afirma que há uma marcha sem retorno para o status de colônia, isto é, o projeto neoliberal-fascista é o retorno à colônia, o que sem dúvida vai ocasionar um agravamento das desigualdades sociais e regionais, “cujo quadro é sobressaltante enquanto prelúdio de uma tragédia de sangue e guerra civil, de consequências imprevisíveis”.

Assim alertou Paulo Bonavides.

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