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Qualidade de vida em uma história de 80 anos

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática o Serviço Social do Comércio

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O ano de 1946 trouxe novos ares para o Brasil. O início da redemocratização no País, marcado por uma nova Constituição, representava a esperança de progresso e dias melhores. O Serviço Social do Comércio (Sesc) foi criado nesse cenário.

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática. E foi por meio da democratização do acesso aos mais diversos serviços que o Sesc marcou sua trajetória nesses 80 anos, completos no dia 13 de setembro.

Idealizada pelos empresários do comércio, a instituição tinha como missão proporcionar qualidade de vida aos trabalhadores do setor e seus familiares. Tratava-se, na época, de um conceito incipiente, que carecia de modelos representativos.

O termo qualidade de vida era relacionado a aquisição de bens, fruto de um momento pós-guerra, quando a sociedade começava a se reestruturar economicamente.

Mas a realidade era que uma vida de qualidade precisava abranger muitos outros aspectos. O bem-estar humano necessitava de saúde física, saúde mental, relações sociais e meio ambiente.

Era preciso pensar no indivíduo de forma integral, observar o contexto em que ele vivia, as condições necessárias para que pudesse desenvolver suas habilidades e autonomia.

Uma das primeiras ações do Sesc teve como foco o momento livre do trabalhador. A ideia era transformar esse tempo em uma experiência memorável, capaz de proporcionar equilíbrio a rotina de trabalho.

Surgiram então as primeiras colônias de férias e projetos como os veraneios gratuitos, promovidos no Rio Grande do Sul, que levavam os comerciários e seus familiares para férias no litoral gaúcho.

Os trabalhadores também encontravam lazer no Sesc com as atividades esportivas. Criado em 1949, os Jogos dos Comerciários logo viraram um sucesso, com times montados em lojas e fábricas, competindo em modalidades como futebol, basquete e pingue-pongue.

Até o rei Pelé participou. Com 16 anos, ele era aprendiz em uma fábrica de botas e fez parte do torneio em Bauru.

Na área de saúde, o desafio se mostrou um pouco maior. Na década de 1940, havia uma forte incidência em doenças infectocontagiosas, além de elevada mortalidade infantil. Em resposta à questão, o Sesc construiu em Minas Gerais o Sanatório Barreiro, com 600 leitos voltados ao tratamento da tuberculose.

Também houve investimento em maternidades. Em 1949 foi inaugurada no Rio de Janeiro a Maternidade Carmela Dutra, que com apenas um ano de funcionamento já recebia o prêmio Caduceu, concedido pelo Departamento Nacional da Criança, por ser o Hospital mais eficiente no combate à mortalidade materna e perinatal.

Não poderia faltar a atuação do Sesc em educação, grande norteadora de todas as suas ações. Nos anos 1940, grande parte dos adultos brasileiros eram analfabetos ou tinham o mínimo estudo, porque necessitavam cedo trabalhar.

Em 1948, o Sesc já apoiava cursos de alfabetização de adultos e o crescimento desse trabalho culminou em um programa específico, o Sesc Ler, criado em 1998, que levou alfabetização e inclusão social a jovens e adultos que abandonaram os estudos precocemente.

Hoje, a Rede Sesc de Educação está presente em toda a Educação Básica, da Educação Infantil a Educação de Jovens e Adultos. São 234 escolas e 70 polos de Ensino à Distância da EJA.

Diversas outras ações foram desenvolvidas ao longo desses 80 anos, várias delas pioneiras e que se tornaram referência para políticas públicas e iniciativas privadas. Muitas outras estão sendo estudadas. Novos projetos, planos que são construídos no dia a dia, mediante a observação do nosso público e do contexto social.

Aos 80 anos, o Sesc não para de crescer e se adaptar. Talvez seja esse o segredo de sua longevidade: atuar no dia a dia, lado a lado com esses milhões de brasileiros que escrevem a nossa história.

Editorial

Hora certa para tocar nos intocáveis

O corte de gastos nos Poderes, por significarem peso só aos cofres estaduais, normalmente são solenemente esquecidos

04/11/2026 07h20

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A buraqueira que tomou conta de rodovias estaduais na região do Vale do Ivinhema nos últimos meses, a constante busca por empréstimos federais e internacionais para bancar novas rodovias e reformar algumas das antigas são sinais claros de que a situação financeira da administração estadual é bem mais crítica do que normalmente aparenta ser.

Mas o resultado das urnas no dia 4 de outubro, quando o governador foi reeleito com porcentual recorde de votos (67,39%), revela que a crise está longe dos radares da opinião pública.

Mas antecipar para este ano parte da receita que deveria pagar as contas do próximo ano, como é o caso do IPVA, é indício de que a situação parece ser mais grave do que até os mais pessimistas estimavam.

E, quando crises aparecem, é natural e normal que qualquer tipo de administração faça ajustes e correções de rumo.

Rever impostos e isenções fiscais estão entre as alternativas. Outra forma de melhorar a saúde financeira é a revisão dos gastos. 

Em nível federal, corte de gastos normalmente remete à contenção de desembolsos com aposentadorias, programas sociais e até com Saúde e Educação.

Os gastos de Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas e Defensoria Pública, por significarem peso significativo somente nos cofres estaduais, normalmente são solenemente esquecidos.

Para 2027, por exemplo, o projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) de Mato Grosso do Sul prevê receitas de R$ 27,99 bilhões, valor que supera em 2,95% os números relativos a este ano. O crescimento é inferior ao do índice inflacionário.

Deste montante, nada menos de R$ 3,77 bilhões, ou 13,5%, estão previstos para os Poderes. Na comparação com o ano passado, a previsão é de aumento da ordem de 4,2%, porcentual superior ao do crescimento da LOA.

Em 2025, ocorreu fenômeno parecido: a LOA previu alta de 2,9%, mas o repasse aos Poderes teve alta de 7,9%. Essa previsão de aumento ocorreu mesmo depois de a administração estadual ter ligado a luz amarela e ter baixado decreto determinando corte generalizado de gastos, já que a receita estava patinando. 

Em torno de 90% daquilo que é repassado a título de duodécimo é destinado ao pagamento de salários. É natural que a iniciativa para um possível corte de gastos jamais venha dos beneficiados, por isso, há muito deveria ter partido dos chefes dos Executivos estaduais, que jamais quiseram enfrentar a elite do funcionalismo.

Em março deste ano, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) impôs um freio na gastança com supersalários.

Em tese, somente no salário de juízes e promotores de MS isso significa economia de quase meio bilhão de reais por ano.

Mas, se não houver revisão dos valores a serem repassados, todos sabem que este dinheiro acabará sendo gasto de outras formas, já que “pertence” aos Poderes.

E meio bilhão de reais é o equivalente a praticamente tudo o que os cofres estaduais recebem a título de IPVA, já que metade desta receita cabe às prefeituras. 

Artigo

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações

03/11/2026 07h35

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Seiscentas oliveiras chegaram à Justiça francesa na forma de queixa judicial. Árvores libanesas, plantadas ao norte do Litani. Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações. A família as cultivava havia 250 anos. Dois séculos e meio.

De oito a dez gerações. Tataravós e seus antepassados colheram, podaram, acompanharam. Contudo, entre 29 de junho e 20 de julho, imagens de satélite denunciam que elas foram arrancadas dos seus berços seculares, inclusive com as raízes. Crime de guerra. Mais um.

O Pnat, Ministério Público Nacional Antiterrorista francês, em Paris, recebeu a denúncia. A instituição, que começou a funcionar em 2019, tem competência também para crimes de guerra e crimes contra a humanidade. É um órgão da Justiça francesa, encarregado da investigação e da acusação perante os tribunais competentes.

O denunciante, franco-libanês, pediu anonimato e atribuiu ao Exército israelense o arrancamento das oliveiras familiares no distrito de Nabatiyé.

A AFP informa ter consultado a queixa. A suspeita de que as árvores tenham sido levadas para Israel ainda não está comprovada, mas as 600 árvores não estão em solo libanês. Onde estariam?

Como se descreve a perda de uma árvore que já estava de pé quando os avós dos nossos avós ainda não tinham nome?

Uma contabilidade pode avaliar a produção, a madeira, o custo de reposição. A memória familiar precisa de outras medidas. Precisa contar quem plantou, quem podou, quem esperou a primeira colheita.

Precisa reconhecer o trabalho que um homem deixou para outro continuar. Uma árvore antiga oferece à família algo que poucos bens conseguem oferecer: a presença material de quem já morreu.

No Líbano, a oliveira participa da vida real. Dá azeitonas e azeite; seu óleo entra na fabricação tradicional de sabão. O aproveitamento alcança o que permanece depois da prensagem: o bagaço, chamado jift, pode ser seco e utilizado como combustível para o aquecimento doméstico. As famílias armazenam esse material para enfrentar o inverno, que é rigoroso.

A mesma colheita pode, portanto, alimentar a casa e ajudar a aquecê-la. Quando o olival desaparece, essa cadeia cotidiana se rompe. O prejuízo entra pela cozinha, pelo trabalho, pela preparação do inverno. E permanece no lugar vazio onde a família reconhecia sua história.

Além da Bíblia, o Talmud judaico e o Alcorão valorizam sobremaneira a oliveira. Portanto, a árvore extrapola o símbolo religioso, posto que pertence às três correntes mais significativas da região, constituindo um patrimônio civilizacional.

Arranadas. As 600.

No Brasil, que abriga a maior diáspora libanesa do mundo, com ditos mais de oito milhões de libaneses e descendentes, essa situação merece profunda reflexão.

Quem manifesta simpatia por práticas atribuídas às forças israelenses deveria examinar concretamente o que está disposto a defender. O apoio a um Estado exige discernimento diante dos atos de seus governantes e de seus militares.

A quem invoca a Bíblia como fundamento de suas escolhas públicas, cabe ler também suas advertências sobre as árvores. Cabe lembrar o estrangeiro, o órfão e a viúva, a quem Deuteronômio 24:20 deixa os frutos restantes da oliveira.

Cabe reconhecer que o sofrimento de uma família libanesa tem valor próprio, independentemente da bandeira que o eleitor brasileiro prefira.

Menciono as árvores para não falar das gentes, das mulheres e jovens, dos sonhos, todos oriundos da mesma raiz de que provenho.

Como posso olhar com simpatia um grupo político que acena para a bandeira de um inimigo meu? Que enaltece as práticas genocidas condenadas pelo mundo inteiro? Como é possível um libanês bater no peito com orgulho de sua origem e apoiar no Brasil um governo que é conivente com a destruição dos seus patrícios?

Agora, mais do que nunca, compreendo Gibran Khalil Gibran quando sentenciou: “Vós tendes o vosso Líbano, e eu tenho o meu”.

Mas, voltando às árvores, se a investigação confirmar o arrancamento denunciado, terá de identificar seus autores e examinar sua responsabilidade. A família, porém, já colocou diante de nós uma questão que ultrapassa o processo: como reparar o tempo?

Uma muda pode ser plantada. Cinco séculos não podem ser replantados.

Ao mencionar as seiscentas oliveiras, que o artigo, o tribunal e o eleitor brasileiro consigam enxergar também as mãos que as cuidaram. A justiça começa pela disposição de olhar, em qualquer lugar do mundo.

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