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opinião

Altemir Luiz Dalpiaz: "O orgasmo do porco e o nosso espirro"

Professor

Redação

05/06/2015 - 00h00
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Existe uma informação, que sinceramente não sei se é verdadeira ou não, dizendo que o orgasmo do porco tem a duração aproximada de 30 minutos. Por outro lado, é fato que o espirro humano dura menos de um segundo. 

Nessa sequência  de raciocínio, tenho a sensação de que, na linha de evolução da natureza, fomos nós, humanos, injustiçados. Injustiça talvez somente nesse aspecto da duração de um prazer e outro, se comparado a questão do tempo, na relação homens/porcos. Somente isso. Poderia ser pior, pois alguns bichos morrem logo após o ato sexual, uns, inclusive, assassinados pelas fêmeas.

Talvez a compensação da natureza, para nosso benefício, em relação a essas diferenças, dê-se em outros aspectos. Somos, afinal de contas, na evolução da natureza, seres dominantes sobre todos os animais, embora muitos de nós poderemos morrer vitimados por microscópicos organismos, como bactérias, fungos ou vírus potentes que se alastrarão famintos pelos nossos corpos.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, comecei com uma comparação estranha para tentar nos situar em relação aos prazeres da vida que estão ligados intimamente à conquista de nossos bens de consumo. O espirro está em nossa vida desde o nosso nascimento e nos acompanha até a morte, diferentemente de outros prazeres, por isso que ele surge metaforicamente nesse texto. Mas e aí?

Aí, que trabalhamos e lutamos muito, para finalmente comprar os objetos que nos darão outro tipo de prazer. Carro, casa, viagens, celular, sapatos, chocolates, cervejas. Ao tê-los, vivenciamos micro-orgasmos até o primeiro uso que deles fazemos, logo após a inserção do cartão de plástico nas maquininhas digitais, em um viciante exercício de consumo. Depois de saciados os pequenos ou grandes desejos, continuamos as buscas por outras conquistas, sucessivamente, eternamente, que só acabam após nossos últimos suspiros.

Quem, passando por duas grandes guerras mundiais, resistindo às pestes, à AIDS, ao sarampo e ao “homem do saco”, diria que toda a luta de sobrevivência humana sucumbiria diante do que os olhos veem, a alma deseja e o coração decide, nessa eterna ilusão de satisfazer desejos, apenas comprando? Talvez nem Karl Marx, em seus agonizantes momentos vividos na miséria financeira e das coisas produzidas pelos homens, tivesse imaginado esse destino coletivo, também da classe operária, motivado pelo nosso individualismo.

A nossa relação com o trabalho, para a maioria, é de dor. Poucas vezes encontramos sujeitos delirantemente apaixonados, fazendo o que gostam ou, no mínimo, suportando suas dores e gostando de algumas poucas coisas que fazem. Daí, talvez, o desejo ardente por ter a posse das coisas que minimizam a torturante saga de sobreviver aos longos dias que vêm depois dos sábados, domingos e feriados, nesse intervalo de vida que se dá entre a entrada no mercado de trabalho e a sua saída, já na aposentadoria, em busca de um sofá para se deitar em frente à televisão (ambos comprados em 36 parcelas), esperando a morte chegar, entre um espirro alérgico e outro. 

Que destino, irmãos, nessa sociedade líquida de que fala Bauman, estarmos tão presos e apequenados em nossos desejos? Felizes foram os porcos e as porcas, antes da descoberta das ceias e dos natais, dos sanduíches e do torresmo. E, quando você espirrar; saúde!

EDITORIAL

Água tratada leva dignidade às aldeias

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul

03/04/2026 08h15

Arquivo

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O investimento superior a R$ 50 milhões para levar água tratada às aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, representa um passo civilizatório que merece ser reconhecido. Trata-se de uma iniciativa que vai além da infraestrutura básica: é uma ação que dialoga diretamente com a dignidade humana, com a saúde pública e com o respeito a uma população que, por décadas, viveu à margem de serviços essenciais. A decisão de implantar um sistema estruturado de abastecimento atende a uma demanda histórica e corrige uma lacuna que não deveria ter persistido por tanto tempo.

A direção da Sanesul e os parlamentares federais que destinaram recursos de emendas para viabilizar a obra estão de parabéns. A articulação institucional demonstrou que, quando há vontade política e coordenação entre diferentes esferas, é possível avançar em soluções concretas. Mais do que anunciar programas ou intenções, a aplicação efetiva dos recursos públicos em obras estruturantes é o que transforma realidades. E, nesse caso, o impacto será direto na vida de milhares de pessoas.

As aldeias Bororó e Jaguapiru, formadas majoritariamente por indígenas das etnias guarani-kaiowá, existem há mais de 40 anos. Quando foram criadas, situavam-se em área rural, distante da expansão urbana. Com o crescimento de Dourados, porém, essas comunidades foram praticamente engolidas pela cidade, tornando-se parte de seu entorno urbano. Ainda assim, permaneceram sem acesso a um serviço básico como a água tratada, um contraste que evidencia desigualdades históricas e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

É difícil compreender que um espaço onde vivem mais de 14 mil pessoas – população superior à de muitos municípios de Mato Grosso do Sul – tenha permanecido por tanto tempo sem abastecimento adequado. A ausência de água tratada impacta diretamente a saúde, a alimentação e as condições mínimas de higiene. Ao longo dessas décadas, os moradores enfrentaram períodos de fome, dificuldades estruturais e, mais recentemente, lidam com um surto de febre chikungunya, que expõe ainda mais a vulnerabilidade sanitária da região.

Nesse contexto, o investimento não deve ser visto apenas como uma obra de saneamento, mas como uma medida preventiva de saúde pública. O acesso à água tratada reduz a incidência de doenças, melhora a qualidade de vida e cria condições para o desenvolvimento social. Trata-se de uma intervenção que dialoga com o presente, mas também com o futuro dessas comunidades, que passam a ter melhores condições para superar desafios históricos.

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul. Não apenas pelo volume de recursos, mas pelo alcance humano e simbólico da iniciativa. Garantir água tratada a milhares de indígenas é promover dignidade, reduzir desigualdades e reconhecer que todos os sul-mato-grossenses têm direito aos mesmos serviços básicos.

Que essa obra seja concluída com celeridade e que sirva de exemplo. Investimentos desse porte demonstram que políticas públicas bem direcionadas podem, de fato, transformar realidades e corrigir injustiças históricas. 

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Artigo

O custo invisível da IA

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso

02/04/2026 07h45

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Entre ganhos e perdas, o uso de inteligência artificial (IA) pelas empresas tem sido muito discutido a partir do viés financeiro. Alguns levantamentos reforçam um cenário multifacetado, como a pesquisa global da KPMG, que mostra que 57% dos líderes afirmam que o retorno sobre investimento com IA supera as expectativas, enquanto um estudo do MIT indica que 95% das implementações de IA generativa nas companhias ainda não revelam impacto mensurável no lucro e prejuízo.

Números como esses ressaltam que, mesmo com muitas organizações percebendo valor na adoção da tecnologia, a captura plena de benefícios financeiros ainda não está acontecendo.

Se por um lado a IA reduz gastos ao automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e aumentar a eficiência operacional, por outro também gera custos relevantes com infraestrutura tecnológica, processamento em nuvem, governança de dados, adequação regulatória e capacitação contínua das equipes.

A mensuração da sua eficácia, portanto, não pode ser feita levando em consideração as economias imediatas, sendo necessário analisar o valor estratégico gerado ao longo do tempo, seja na melhoria da qualidade das decisões, aceleração de ciclos de inovação, redução de riscos operacionais ou capacidade de escalar o negócio com maior previsibilidade.

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso. Por isso, os debates deveriam focar no quanto se transforma a partir dela – além de, é claro, seus custos invisíveis.

O primeiro deles ocorre antes mesmo do modelo entrar em produção, ao preparar, integrar e qualificar dados, tarefas que exigem das organizações um compromisso estratégico com governança de dados e maturidade analítica desde o início e não apenas quando surgem resultados tangíveis.

Outro impacto pouco comentado é o custo operacional contínuo dos sistemas de IA. Ao contrário de aplicações tradicionais, os modelos de IA exigem monitoramento constante, retraining para lidar com deriva de dados, ferramentas de observabilidade e atualizações de segurança.

Todas essas despesas podem corresponder a uma boa parcela do custo inicial anualmente, transformando a IA de um ativo estático em um sistema vivo que precisa de atenção contínua.

Há também gastos que surgem indiretamente, como a complexidade de governança e compliance. A ausência dessas estruturas pode comprometer confiança, exposição ao risco regulatório e até valuation corporativo, o que, paradoxalmente, pode custar mais caro do que a tecnologia em si.

Portanto, é preciso entender que governança de IA não é um “extra”, mas sim parte integrante da sustentabilidade tecnológica de longo prazo.

Ainda assim, não devemos focar apenas nos custos e ignorar as oportunidades trazidas pela tecnologia: quando bem planejada e integrada à estratégia corporativa, ela tem potencial para desbloquear valor exponencial.

Um relatório da Deloitte estima que a IA pode evitar cerca de US$ 70 bilhões em perdas anuais com desastres naturais até 2050, ao aumentar a resiliência das infraestruturas críticas.

Acredito que o verdadeiro desafio hoje é saber escolher quando vale a pena usar a inteligência artificial para ganhar vantagem competitiva. Para isso, as empresas precisam priorizar iniciativas que resolvam problemas centrais dos negócios, em vez de se deixar levar por todo novo “hype tecnológico”.

A discussão sobre o custo invisível nos leva, portanto, a uma conclusão prática: não existe IA barata, mas existe IA valiosa, e quem compreender e internalizar essa visão poderá verdadeiramente aproveitá-la de forma positiva e sustentável.

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