Artigos e Opinião

CENAS

André Luiz Alvez: "O fio de cabelo no lóbulo da orelha"

André Luiz Alvez: "O fio de cabelo no lóbulo da orelha"

Redação

09/02/2017 - 03h30
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Estava com o rosto diante do espelho, contando as rugas, quando percebi algo quase invisível se movendo. Encostei o rosto até bem perto do espelho e me dei conta que havia um longo fio de cabelo no lóbulo da minha orelha direita. 

Puxei o danado, gritei de dor. Com o rosto abrasado, fiquei me perguntando por quanto tempo ele estava ali, sem que eu percebesse. Por segundos insanos, pensei em fazer com aquele fio de cabelo o mesmo que fazia com o cigarro nos tempos de fumante: puxar papo, conversar diversos assuntos. 

Puxei novamente, a dor recuou porque já não existia a surpresa e no instante seguinte me preparei para dar fim ao incômodo, apanhei a tesoura e estiquei o fio até o fim, mas eis que, reparando de perto, notei que o danado tinha um tom dourado. 

Será que alguém vai acreditar que quando criança eu era loiro dos cabelos cacheados? Talvez fosse o último remanescente dos meus tempos de cabelos cacheados e que tenha sobrevivido há mais de meio século. Senti um inesperado apego por aquele fio de cabelo e até pensei em guardá-lo numa caixa de vidro. 

Minha nossa, que louco é esse que guarda o fio de cabelo numa caixa de vidro? Depois fiquei em dúvida se devia contar isso numa crônica. Eis me aqui, decidido. Devo declarar que desde muito moço sofro com a falta de cabelos. Tenho cultivado ultimamente uma barba ralinha para disfarçar, que cuido com esmero, por vaidade e porque se tornou um motivo para eu ir a uma barbearia, costume que havia abandonado desde os anos noventa, quando os cabelos se foram e me tornei ligeiramente calvo. Foi um tempo ruim, de repente, tudo despencou. 

No começo, tentei disfarçar usando boné, mas não me acostumei, porque me pesava a cabeça e escondia os olhos. Nunca entendi o sujeito que tem cabelos e usa boné. Resolvi deixar para o outro dia o que fazer com o fio dourado.

Quando acordei, corri para frente do espelho e procurei em vão o meu precioso fio dourado, mas notei apreensivo que só existia a maciez de sempre no lóbulo da minha orelha. Será que durante o sonho puxei sem querer a ponta da orelha e o fio se soltou? O que foi que sonhei, afinal? Não me lembro de nada. Mas recordei com riqueza de detalhes uma árvore imensa que existe bem à frente do Colégio Dom Bosco, tão velha que deve ter visto de tudo, seus galhos secos insistem em abraçar em tons cinza a cidade que engoliu o vilarejo, e lá no alto, bem no canto direito, num verde tão belo que emudece, despenca um fino galho de folhas verdes. 

E me apeguei àquele galho verde para nunca mais, porque ele desperta a vitalidade que ainda pulsa na árvore antiga, talvez tal e qual o fio dourado, agora desaparecido na minha orelha.

Então pensei no amigo Marcos Estevão, que além de médico é poeta, psiquiatra dos bons, quem sabe numa boa conversa ele me indique algum remédio, ou apenas um bom gole de uísque, para pôr fim à falta que me faz aquele cabelo dourado, que sumiu sem se despedir, deixando esse inexplicável sentimento de vazio no lóbulo da minha orelha direita.

* Escritor e ator de teatro
([email protected])

Hidrovia Paraguai-Paraná

Super-El Niño ameaça principal corredor de exportação de MS

Projeções climáticas indicam risco de estiagem mais intensa entre 2026 e 2027, com impactos sobre a navegabilidade da hidrovia

26/05/2026 08h00

Foto: Rodolfo César

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O monitoramento sobre os efeitos de um El Niño mais intenso para a economia de Mato Grosso do Sul está em andamento, por conta dos riscos econômicos que podem ocasionar na hidrovia Paraguai-Paraná. Os impactos podem surgir no segundo semestre deste ano e também em 2027, principalmente, pelo risco de uma estiagem mais extrema. Como a hidrovia de 2,5 mil quilômetros é um dos maiores modais hidroviários do mundo, Paraguai, Argentina e Bolívia também podem ser afetados. 

São mais de 9,5 milhões de toneladas de minérios de ferro e manganês, soja, terras e pedras, ferro e aço, além de castanhas, que acabam transportadas pelo Rio Paraguai, somente por conta do Brasil. No trecho brasileiro, ainda há a movimentação boliviana de combustível e gás.

Em termos de nível para navegação comercial do rio, na sexta-feira, a régua em Ladário marcava 2,24 metros, abaixo do nível registrado na mesma data de 2025, de 2,72 m. No ano de pior estiagem em mais de 100 anos, em 2024, o nível estava em 1,43 m. 

O prognóstico elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), divulgado neste mês, apontou possível atraso no início da estação chuvosa em todo o Centro-Oeste. 

“Historicamente, o Brasil apresenta uma média de 8 a 14 ondas de calor por ano, com destaque para as Regiões Sul e Sudeste. Contudo, dados recentes mostram o crescimento das ocorrências em todos os estados. Além disso, os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes já registrados globalmente e com os maiores quantitativos de ondas de calor no Brasil. Em 2024, por exemplo, Mato Grosso do Sul detém a maior média histórica nacional de ondas de calor, com 14,3 eventos anuais desse tipo entre 1979 e 2025”, divulgou o Cemaden na sexta-feira.

O centro de monitoramento pontuou que o El Niño interage com o aquecimento global e há sinais de que possa contribuir para que este ano e o ano que vem sejam mais quentes do que 2023 e 2024. 

O Cemaden pondera que essa previsão ainda não está confirmada, mas os dados apresentados geram necessidade de planejamento estratégico dos setores público e privado.

TRANSPORTE

O principal produto transportado pela hidrovia Paraguai-Paraná para exportação em Mato Grosso do Sul é o minério de ferro, com 8,8 milhões de toneladas consolidadas em 2025 (crescimento de 185% em relação a 2024). Essa commodity é altamente dependente das condições de navegação no Pantanal, a partir de Corumbá.

A LHG Mining, que promove a maior parte da exportação, divulgou no site especializado Discovery Alert que está se preparando para adversidades ambientais. 

Entre as estratégias estão o uso de 400 barcaças que podem transportar entre 1,5 mil e 3 mil toneladas cada, combinado com até 12 áreas de estocagem e regiões de transferência de carga para utilizar também o modal ferroviário.

Com essa quantidade de barcaças disponível para transporte, a mineradora tem a possibilidade de trabalhar com volumes menores em cada uma, mas garantindo maior capacidade total de transporte, que corresponde a até 1,2 milhão de toneladas.

Essas iniciativas da mineradora atendem a uma demanda privada, enquanto a promessa de concessão da hidrovia segue ainda em tramitação. Conforme já informado pelo Correio do Estado, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que foi adiado o leilão para concessão de 600 km de hidrovia (Corumbá-Porto Murtinho) para 2027. A informação foi divulgada pelo secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier. 

CENÁRIO

Na Argentina, duas multinacionais belgas estão competindo para assumir trecho da hidrovia Paraguai-Paraná. No dia 18, as empresas Jan De Nuv NV, que já realiza dragagem no país vizinho, e Dredging Environmental & Marine Engineering (Deme) foram aprovadas para seguir na concorrência pública. A empresa brasileira DTA Engenharia não foi aprovada para continuar na disputa.

O próximo passo para haver uma decisão dessa licitação, que foi lançada no fim de 2025, é a apresentação das ofertas econômicas pelas duas multinacionais.

Em território argentino, onde está o Rio Paraná, vem ocorrendo problemas de navegação na hidrovia, entre eles, acidentes recorrentes, que fizeram o Sindicato de Conductores Navales de la República Argentina emitir comunicado para questionar as políticas de flexibilização sobre a navegação no país. 

Apesar de a situação ocorrer na Argentina, há reflexos para a exportação brasileira.

Artigo

Indicação ao STF: da técnica à política

O tema é fundamental para a democracia dada a importância da função social cumprida pelos magistrados da cúpula do Judiciário

26/05/2026 07h30

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A rejeição da indicação do presidente Lula para completar a composição do número de ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe novamente à tona a discussão sobre a adequação da forma como ocorre a escolha de profissionais para que ocupem o referido cargo.

O tema é fundamental para a democracia dada a importância da função social cumprida pelos magistrados da cúpula do Judiciário nacional na concretização dos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

O nome indicado foi o de Jorge Messias, advogado-geral da União e, portanto, ocupa cargo relevante no campo jurídico, preenchendo supostamente o requisito de notável saber jurídico.

Note-se que tal elemento, para qualquer indicação, deve ser observado sob o prisma absoluto, não relativo, ou seja, não é necessário que os 11 integrantes do STF sejam as maiores figuras da área jurídica, mas que tenham conhecimentos aprofundados de direito.

Além disso, a despeito de debates acalorados que consideram as opções políticas do indicado, aparentemente ele também cumpria o requisito da reputação ilibada, conforme previsto no artigo 101 da Constituição da República de 1988. Assim sendo, qual o motivo da recusa?

Como é sabido por todos, a indicação não é meramente técnica, assim como a respectiva aceitação pelo Senado.

O aspecto político é, evidentemente, muito importante em tal processo. O fenômeno presente nos últimos tempos, porém, é que no processo de escolha, indicação e aceitação do nome do ministro, o fator político tem ganhado peso em relação ao aspecto técnico.

Há um marco histórico que pode ter potencializado tal processo: no Brasil anterior à investigação das denúncias de corrupção do chamado “mensalão”,  o nome dos membros do STF eram conhecidos somente na área jurídica, porém a exposição do julgamento do caso mencionado expôs sobremaneira a figura dos magistrados, algo que, embora tenha representado maior transparência para a população, pode ter produzido efeitos colaterais, como a elevação da politização de discussões técnicas e a mudança de atitude de parcela dos julgadores em relação ao entorno (imprensa e outros atores sociais).

A grande questão é que o órgão de cúpula é importante demais no bojo do regime democrático, especialmente no processo de concretização de direitos fundamentais, para que a indicação dos ministros possa ser tão influenciada por questões políticas, sem que haja consequências preocupantes para a segurança jurídica do País.

Alegar que a indicação de Jorge Messias tenha sido recusada por conflito de interesses entre figuras políticas relevantes no cenário nacional é óbvio, mas o que interessa é compreender qual será o próximo passo institucional a ser dado no País.

Cabe ao presidente atual fazer a indicação (mesmo considerado o custo político de eventual nova rejeição), mas qual será o critério da escolha?

A opção novamente incidirá sobre figura politicamente próxima ao máximo mandatário nacional que cumpra os requisitos técnicos (como era o caso de Messias) ou o chefe do Executivo escolherá o nome de alguma sumidade jurídica que, além disso, tenha visão de mundo próxima à dele (o que é direito do presidente, diga-se)?

Escolher alguém com base em característica estranha aos requisitos técnicos (como uma pessoa integrante de uma minoria, por exemplo) equivale a, mais uma vez, optar pela senda da política em detrimento da técnica como fator preponderante da indicação.

Em breve, o assunto deve voltar à pauta do debate público, dada a necessidade prática de completar a formação do STF após a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.

O presidente terá que, mais uma vez, adotar um critério para escolher alguém apto a ocupar um dos cargos mais relevantes da República, cujas decisões produzirão impacto na vida de milhões de brasileiros.

Será revolucionário se o chefe de Executivo, mesmo optando por alguém que com ele compartilhe certa ideologia, escolher um indivíduo que seja mais conhecido por ser um luminar na área jurídica que pela ligação partidária.

Assim, os argumentos para a rejeição com base em questões políticas perderiam força, pois o debate ocorreria no campo da técnica. Com a palavra, o presidente.
 

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