Artigos e Opinião

Hidrovia Paraguai-Paraná

Super-El Niño ameaça principal corredor de exportação de MS

Projeções climáticas indicam risco de estiagem mais intensa entre 2026 e 2027, com impactos sobre a navegabilidade da hidrovia

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O monitoramento sobre os efeitos de um El Niño mais intenso para a economia de Mato Grosso do Sul está em andamento, por conta dos riscos econômicos que podem ocasionar na hidrovia Paraguai-Paraná. Os impactos podem surgir no segundo semestre deste ano e também em 2027, principalmente, pelo risco de uma estiagem mais extrema. Como a hidrovia de 2,5 mil quilômetros é um dos maiores modais hidroviários do mundo, Paraguai, Argentina e Bolívia também podem ser afetados. 

São mais de 9,5 milhões de toneladas de minérios de ferro e manganês, soja, terras e pedras, ferro e aço, além de castanhas, que acabam transportadas pelo Rio Paraguai, somente por conta do Brasil. No trecho brasileiro, ainda há a movimentação boliviana de combustível e gás.

Em termos de nível para navegação comercial do rio, na sexta-feira, a régua em Ladário marcava 2,24 metros, abaixo do nível registrado na mesma data de 2025, de 2,72 m. No ano de pior estiagem em mais de 100 anos, em 2024, o nível estava em 1,43 m. 

O prognóstico elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), divulgado neste mês, apontou possível atraso no início da estação chuvosa em todo o Centro-Oeste. 

“Historicamente, o Brasil apresenta uma média de 8 a 14 ondas de calor por ano, com destaque para as Regiões Sul e Sudeste. Contudo, dados recentes mostram o crescimento das ocorrências em todos os estados. Além disso, os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes já registrados globalmente e com os maiores quantitativos de ondas de calor no Brasil. Em 2024, por exemplo, Mato Grosso do Sul detém a maior média histórica nacional de ondas de calor, com 14,3 eventos anuais desse tipo entre 1979 e 2025”, divulgou o Cemaden na sexta-feira.

O centro de monitoramento pontuou que o El Niño interage com o aquecimento global e há sinais de que possa contribuir para que este ano e o ano que vem sejam mais quentes do que 2023 e 2024. 

O Cemaden pondera que essa previsão ainda não está confirmada, mas os dados apresentados geram necessidade de planejamento estratégico dos setores público e privado.

TRANSPORTE

O principal produto transportado pela hidrovia Paraguai-Paraná para exportação em Mato Grosso do Sul é o minério de ferro, com 8,8 milhões de toneladas consolidadas em 2025 (crescimento de 185% em relação a 2024). Essa commodity é altamente dependente das condições de navegação no Pantanal, a partir de Corumbá.

A LHG Mining, que promove a maior parte da exportação, divulgou no site especializado Discovery Alert que está se preparando para adversidades ambientais. 

Entre as estratégias estão o uso de 400 barcaças que podem transportar entre 1,5 mil e 3 mil toneladas cada, combinado com até 12 áreas de estocagem e regiões de transferência de carga para utilizar também o modal ferroviário.

Com essa quantidade de barcaças disponível para transporte, a mineradora tem a possibilidade de trabalhar com volumes menores em cada uma, mas garantindo maior capacidade total de transporte, que corresponde a até 1,2 milhão de toneladas.

Essas iniciativas da mineradora atendem a uma demanda privada, enquanto a promessa de concessão da hidrovia segue ainda em tramitação. Conforme já informado pelo Correio do Estado, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que foi adiado o leilão para concessão de 600 km de hidrovia (Corumbá-Porto Murtinho) para 2027. A informação foi divulgada pelo secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier. 

CENÁRIO

Na Argentina, duas multinacionais belgas estão competindo para assumir trecho da hidrovia Paraguai-Paraná. No dia 18, as empresas Jan De Nuv NV, que já realiza dragagem no país vizinho, e Dredging Environmental & Marine Engineering (Deme) foram aprovadas para seguir na concorrência pública. A empresa brasileira DTA Engenharia não foi aprovada para continuar na disputa.

O próximo passo para haver uma decisão dessa licitação, que foi lançada no fim de 2025, é a apresentação das ofertas econômicas pelas duas multinacionais.

Em território argentino, onde está o Rio Paraná, vem ocorrendo problemas de navegação na hidrovia, entre eles, acidentes recorrentes, que fizeram o Sindicato de Conductores Navales de la República Argentina emitir comunicado para questionar as políticas de flexibilização sobre a navegação no país. 

Apesar de a situação ocorrer na Argentina, há reflexos para a exportação brasileira.

ARTIGOS

Por que estamos pagando para fazer amigos?

Empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez

20/07/2026 07h45

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Em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo e, com a aproximação da data, uma pergunta incômoda começa a ecoar nos debates sobre o comportamento contemporâneo: você pagaria para fazer amigos? A maioria das pessoas certamente de pronto diria que não, mas essa resposta tem funcionado apenas na teoria, pois já tem quem lucre com esse novo nicho de mercado.

Nos Estados Unidos, esse fenômeno vem ganhando força, e o cenário é alarmante. Segundo informações do Magnet ABA Therapy, um a cada cinco adultos americanos apresenta um estado mental de solidão crônica.

Globalmente, a geração Z é a mais afetada, com 24% das pessoas de 15 anos ou mais relatando sentimentos significativos de solidão. Diante desse deserto afetivo, o mercado encontrou uma oportunidade: a criação da chamada “economia da conexão”.

Hoje, empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez. Há clubes privados que oferecem uma verdadeira “curadoria” de amizades.

E se você pensa que isso é uma realidade apenas para quem mora fora do Brasil, está enganado.

Em Curitiba, por exemplo, já se multiplicam anúncios de aplicativos com convites como “jantares com desconhecidos” ou “transforme desconhecidos em amigos” – iniciativas desenhadas para ajudar pessoas a romperem o isolamento e a construírem novos laços.

Mas como chegamos a esse ponto? Culpar a pandemia, as telas ou o home office é a saída mais fácil, mas a verdade é mais profunda. Estamos imersos em uma cultura que estimula o sujeito a se desvincular do coletivo.

Sob a ilusão de que “você pode ser o que quiser” e amparados pela promessa de felicidade imediata que vem em cápsula, desaprendemos a conviver e criamos uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração.

Afinal, fazer amigos de verdade exige paciência, concessões e o risco de se machucar, habilidades que fomos desaprendendo a usar em nossa busca por uma vida sem atritos. Assim, o efeito colateral tem sido nos isolarmos em nossas próprias bolhas de autossuficiência.

É aí que a lógica do mercado entra: se você não tem tempo ou habilidade para cultivar laços organicamente, o sistema monetiza essa carência, transformando a vulnerabilidade humana em mais um serviço por assinatura.

O problema é que, ao fazer a amizade seguir a lógica mercantil, passamos a tratá-la sob a regra do descarte: “se der problema”, eu simplesmente cancelo.

O resultado são relações voláteis, sem consistência e sem capacidade de superar dificuldades, o oposto da real condição humana, que é caótica e imperfeita, mas profundamente viva e transformadora.

Ao terceirizarmos nossa sociabilidade para algoritmos e jantares pagos, estamos anestesiando o sintoma sem curar a doença. Estamos trocando o calor do afeto espontâneo pela conveniência de um produto com garantia de satisfação.

Se o afeto vira mercadoria, o outro deixa de ser um igual para se tornar um bem de consumo.

Diante desse cenário em que até o carinho tem preço e a solidão virou modelo de negócios, resta uma última e incômoda reflexão: se passarmos a pagar para que as pessoas nos ouçam e nos aceitem, o que nos garante que o que estamos comprando é mesmo amizade, e não apenas o fim temporário da nossa solidão?

ARTIGOS

A odisseia eleitoral brasileira

Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento

20/07/2026 07h30

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A estreia de “A Odisseia”, adaptação do clássico de Homero, convida a refletir sobre a permanência dos grandes arquétipos da civilização ocidental. Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento.

Conceitos como democracia, política, cidadania, justiça e oikos continuam estruturando a forma como compreendemos o Estado e o exercício do poder, permitindo que a política brasileira também seja interpretada a partir de uma atualização do que vem a ser um novo épico político.

Após a prisão de Jair Bolsonaro, a direita iniciou uma longa travessia em busca de uma nova centralidade política.

Nesse percurso, Flávio Bolsonaro se tornou o personagem encarregado de conduzir essa jornada. Como Ulisses, seu desafio não consiste apenas em derrotar adversários externos, mas, sobretudo, em sobreviver às próprias tempestades internas.

A campanha atravessa disputas regionais, conflitos entre lideranças, divergências sobre candidaturas ao Senado e dificuldades para consolidar um projeto nacional unificado.

As tensões envolvendo Michelle Bolsonaro, os desgastes provocados pelas denúncias que atingiram seu entorno político e a fragmentação crescente do campo conservador funcionam como os monstros da narrativa homérica: obstáculos que retardam a chegada ao destino.

Seu maior desafio, porém, é retornar ao oikos político. Na tradição grega, o oikos não representa apenas a casa física, é o lugar da legitimidade, da autoridade reconhecida e da ordem restaurada. Enquanto Flávio enfrenta sua travessia, Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição distinta.

Diferentemente do filho de Jair Bolsonaro, que ainda percorre o caminho tortuoso da legitimidade, Lula já habita o espaço do poder. Seu maior ativo político, neste momento, talvez não seja a expansão de sua força, mas a incapacidade de seus adversários de concluir a própria jornada.

É justamente nesse ponto que a analogia com Homero revela sua principal inversão. Na epopeia, Ulisses retorna, derrota os pretendentes e restaura a ordem de Ítaca.

Na política, contudo, não existe destino garantido. Quanto mais longa se torna a travessia da direita, maiores são as possibilidades de permanência daquele que já ocupa o oikos. A demora transforma-se em vantagem estratégica para quem governa.

Essa talvez seja a principal contradição do atual cenário político brasileiro. A cultura política parece conservar uma inclinação mais favorável ao campo de centro-direita em temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e valores conservadores, entretanto, essa maioria cultural ainda não conseguiu se converter em unidade política.

A dialética se torna evidente: existe uma tese social favorável à direita, mas uma antítese produzida pela fragmentação de suas lideranças. Sem uma síntese capaz de reorganizar esse campo, o resultado tende a favorecer justamente aquele que ocupa a posição que muitos pretendem conquistar.

Talvez a principal lição de Homero permaneça atual: antes de vencer o adversário, é preciso concluir a própria viagem.

Na política, muitas vezes, o maior obstáculo não está do lado de fora, mas na incapacidade de construir unidade antes de alcançar o destino. E, enquanto a travessia continua, quem já está em casa permanece, ao menos por enquanto, senhor do próprio oikos.

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