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Indicação ao STF: da técnica à política

O tema é fundamental para a democracia dada a importância da função social cumprida pelos magistrados da cúpula do Judiciário

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A rejeição da indicação do presidente Lula para completar a composição do número de ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe novamente à tona a discussão sobre a adequação da forma como ocorre a escolha de profissionais para que ocupem o referido cargo.

O tema é fundamental para a democracia dada a importância da função social cumprida pelos magistrados da cúpula do Judiciário nacional na concretização dos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

O nome indicado foi o de Jorge Messias, advogado-geral da União e, portanto, ocupa cargo relevante no campo jurídico, preenchendo supostamente o requisito de notável saber jurídico.

Note-se que tal elemento, para qualquer indicação, deve ser observado sob o prisma absoluto, não relativo, ou seja, não é necessário que os 11 integrantes do STF sejam as maiores figuras da área jurídica, mas que tenham conhecimentos aprofundados de direito.

Além disso, a despeito de debates acalorados que consideram as opções políticas do indicado, aparentemente ele também cumpria o requisito da reputação ilibada, conforme previsto no artigo 101 da Constituição da República de 1988. Assim sendo, qual o motivo da recusa?

Como é sabido por todos, a indicação não é meramente técnica, assim como a respectiva aceitação pelo Senado.

O aspecto político é, evidentemente, muito importante em tal processo. O fenômeno presente nos últimos tempos, porém, é que no processo de escolha, indicação e aceitação do nome do ministro, o fator político tem ganhado peso em relação ao aspecto técnico.

Há um marco histórico que pode ter potencializado tal processo: no Brasil anterior à investigação das denúncias de corrupção do chamado “mensalão”,  o nome dos membros do STF eram conhecidos somente na área jurídica, porém a exposição do julgamento do caso mencionado expôs sobremaneira a figura dos magistrados, algo que, embora tenha representado maior transparência para a população, pode ter produzido efeitos colaterais, como a elevação da politização de discussões técnicas e a mudança de atitude de parcela dos julgadores em relação ao entorno (imprensa e outros atores sociais).

A grande questão é que o órgão de cúpula é importante demais no bojo do regime democrático, especialmente no processo de concretização de direitos fundamentais, para que a indicação dos ministros possa ser tão influenciada por questões políticas, sem que haja consequências preocupantes para a segurança jurídica do País.

Alegar que a indicação de Jorge Messias tenha sido recusada por conflito de interesses entre figuras políticas relevantes no cenário nacional é óbvio, mas o que interessa é compreender qual será o próximo passo institucional a ser dado no País.

Cabe ao presidente atual fazer a indicação (mesmo considerado o custo político de eventual nova rejeição), mas qual será o critério da escolha?

A opção novamente incidirá sobre figura politicamente próxima ao máximo mandatário nacional que cumpra os requisitos técnicos (como era o caso de Messias) ou o chefe do Executivo escolherá o nome de alguma sumidade jurídica que, além disso, tenha visão de mundo próxima à dele (o que é direito do presidente, diga-se)?

Escolher alguém com base em característica estranha aos requisitos técnicos (como uma pessoa integrante de uma minoria, por exemplo) equivale a, mais uma vez, optar pela senda da política em detrimento da técnica como fator preponderante da indicação.

Em breve, o assunto deve voltar à pauta do debate público, dada a necessidade prática de completar a formação do STF após a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.

O presidente terá que, mais uma vez, adotar um critério para escolher alguém apto a ocupar um dos cargos mais relevantes da República, cujas decisões produzirão impacto na vida de milhões de brasileiros.

Será revolucionário se o chefe de Executivo, mesmo optando por alguém que com ele compartilhe certa ideologia, escolher um indivíduo que seja mais conhecido por ser um luminar na área jurídica que pela ligação partidária.

Assim, os argumentos para a rejeição com base em questões políticas perderiam força, pois o debate ocorreria no campo da técnica. Com a palavra, o presidente.
 

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Pode um senador da República pedir dinheiro a banqueiro?

O problema surge quando uma das partes deixa de ser apenas um agente privado e passa a ocupar posição de relevo institucional na estrutura da República

25/05/2026 07h30

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A recente admissão por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de que celebrou robusto contrato de “patrocínio” com o diretor-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro – que, não de hoje, está no centro de investigações de indiscutível repercussão nacional – reacende uma discussão fundamental para qualquer democracia madura: até onde vai o direito ao sigilo contratual quando estão em jogo agentes centrais da República?

Segundo compartilhou o próprio parlamentar, a negociação envolveria cifras vultosas (fala-se, inicialmente, em R$ 64 milhões) destinadas ao financiamento de uma cinebiografia do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Contudo, os detalhes do ajuste permaneceriam, em tese, protegidos por cláusulas de confidencialidade, possivelmente estruturadas sob a lógica de um Non Disclosure Agreement (NDA), que, traduzindo para a língua portuguesa, significa Acordo de Não Divulgação – instrumento comum no ambiente empresarial privado.

À luz do Direito e sob o prisma estritamente civil e contratual, não há anormalidade em cláusulas desta natureza. Até porque o sigilo negocial integra a autonomia privada e constitui ferramenta legítima de proteção estratégica, comercial e patrimonial. Contratos existem, afinal, para serem cumpridos, respeitados e protegidos.

O problema surge quando uma das partes deixa de ser apenas um agente privado e passa a ocupar posição de relevo institucional na estrutura da República.

A lógica desta engrenagem impõe diferenciação inevitável entre o cidadão comum e o homem público. Presidentes, ministros, governadores, parlamentares (deputados, senadores e vereadores), prefeitos, magistrados e demais figuras centrais do aparelho estatal não vivem mais exclusivamente sob a esfera privada, da intimidade. Ao assumirem funções de poder, tornam-se destinatários de um regime mais severo do escrutínio social.

Ora, a República é lastreada por figuras públicas e instituições que devem funcionar para além da legalidade formal. É preciso compreender que transparência, governança e responsabilidade são inerentes ao poder que tais autoridades exercem. Neste contexto, sim, há um preço a se pagar.

Não se trata de relativizar direitos fundamentais ou de se abolir garantias individuais. O que está em jogo é reconhecer que a própria preservação da confiança institucional exige padrões mais elevados de transparência. Órgãos e mandatários, no final das contas, vivem de credibilidade.

Nesta esteira de análise, e diante do episódio do suposto incentivo econômico do Banco Master à cinebiografia de Jair Bolsonaro, sistemas democráticos sólidos abarcam rígidas regras para agentes públicos.

Até mesmo porque a sociedade tem legítimo interesse em compreender relações financeiras, vínculos empresariais, créditos privados e estruturas contratuais que orbitam em torno de figuras de prestígio partidário e político.

Resumindo: quanto maior o poder exercido, menor deve ser a blindagem do sigilo pessoal em temas com potencial repercussão institucional, como o aparente financiamento de um banco liquidado para um filme sobre a trajetória de um ex-presidente da República – que, hoje, cumpre pena por suposta tentativa de golpe de estado.

Veja bem: não estamos a tratar de uma relação comercial e jurídica simples e rasa. Não é só um civil ligando para um empresário, para pedir recursos para bancar o filme sobre o pai.

É um senador da República solicitando aporte a uma instituição que, à época, já estava na mira da Justiça por crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, fraude e corrupção.

A vida pública exige renúncias. Entre elas, a abdicação parcial à lógica absoluta da privacidade negocial. Não consiste em punição ao agente político – é consequência natural da função que ele mesmo optou desempenhar no aparato da República.

Quem ocupa posição central no cenário institucional brasileiro administra não apenas interesses individuais, mas, sobretudo, capital político, influência e confiança coletiva. E reputação pública depende, necessariamente, de probidade.

No fundo, este debate não é apenas jurídico, ou cultural – é civilizatório. Uma República saudável não se constrói apenas com contratos válidos, firmados em três vias em cartório.

Constrói-se, acima de tudo, com legitimidade, com a verdade dos fatos e com a clareza de contrapartidas – o que, com relação ao patrocínio do Banco Master para a cinebiografia de Jair Bolsonaro – e com os filhos políticos intermediando repasses na casa dos milhões – não está, ao menos, até o momento, oportunamente decifrada.

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Editorial

Trânsito inseguro e o Maio Amarelo

Nesta série de reportagens vamos tratar das contradições do trânsito na Capital e em MS: o número de multas aumenta, a arrecadação cresce, mas o trânsito continua perigoso

25/05/2026 07h15

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O trânsito de Mato Grosso do Sul se transformou, há muito tempo, em um dos principais retratos da insegurança cotidiana vivida pela população.

Em um Estado que frequentemente exibe indicadores econômicos comparáveis aos de países desenvolvidos, além de avanços importantes em setores como educação e agronegócio, é inadmissível conviver com um cenário viário tão desorganizado, perigoso e ineficiente.

Basta circular por Campo Grande ou percorrer algumas rodovias estaduais para perceber que o trânsito se tornou uma ameaça permanente.

Não se trata apenas de imprudência individual. O problema é estrutural. O próprio ecossistema urbano e rodoviário contribui diretamente para o caos.

Há ruas esburacadas, sinalização precária, cruzamentos inseguros e vias que parecem abandonadas pelo poder público.

Soma-se a isso uma frota crescente de motocicletas em situação irregular, motoristas sem habilitação, veículos sem condições mínimas de circulação e um ambiente generalizado de desrespeito às regras.

Em Campo Grande, atravessar um cruzamento semaforizado durante a noite, mesmo com o sinal verde, virou exercício de sobrevivência.

O cidadão correto aprendeu a desconfiar do próprio direito de passagem. O receio de que alguém avance o sinal vermelho é permanente.

E, infelizmente, com razão. O trânsito deixou de ser apenas um espaço de circulação para se transformar em um território de tensão e medo.

Diante desse quadro, é evidente que o Estado precisa agir com rigor. A fiscalização severa é necessária. A presença ostensiva dos órgãos de trânsito também.

O problema é que, na prática, a chamada “mão pesada” do poder público parece atuar quase exclusivamente para arrecadar.

Ela costuma alcançar justamente o motorista regularizado, documentado e com capacidade financeira para pagar multas e impostos. Enquanto isso, grande parte da informalidade e da ilegalidade segue circulando livremente pelas ruas.

É impossível ignorar a sensação crescente de seletividade. O cidadão que cumpre as regras percebe radares, notificações e cobranças.

Já aqueles que trafegam sem habilitação, sem documentos ou em veículos irregulares, muitas vezes, permanecem invisíveis ao sistema. Não por acaso, as estatísticas de acidentes, mortes e insegurança continuam alarmantes.

Estamos no Maio Amarelo, campanha nacional voltada à conscientização no trânsito. Mas conscientização sem eficiência prática se transforma apenas em discurso publicitário.

Nesta série de reportagens que iniciamos, mostramos justamente essa contradição: o número de multas aumenta, a arrecadação cresce, mas o trânsito continua perigoso.

Isso revela que as políticas públicas adotadas até aqui falharam em seu objetivo principal, que deveria ser salvar vidas.

Não basta multar. É preciso organizar o trânsito, recuperar vias, melhorar a sinalização, combater a informalidade e fiscalizar de verdade os focos de insegurança.

Segurança viária não se mede pela quantidade de notificações emitidas, mas pela redução de acidentes e pela capacidade de garantir tranquilidade à população.

E, neste aspecto, Mato Grosso do Sul ainda está muito distante do padrão de desenvolvimento que tanto ostenta em outras áreas.

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