Neste ano, o Brasil descobriu um lado macabro e descontrolado da adolescência que ocorre dentro de redes sociais desreguladas. Uma adolescente de Mato Grosso do Sul, de Naviraí, morreu por suicídio durante um desafio em um grupo de adolescentes na rede social Discord.
O caso, que será detalhado nesta edição, é lamentável por diversos aspectos e precisa servir de alerta para toda a sociedade.
O primeiro deles diz respeito às plataformas. Redes sociais precisam ter mecanismos mais eficientes para controlar quem entra e quem sai de seus ambientes, verificar a idade dos usuários e impedir a prática de violência e de crimes dentro de suas comunidades.
Não se trata de impedir a liberdade de expressão ou a interação entre pessoas, mas de reconhecer que liberdade não significa ausência de limites.
O crime e a violência são inerentes à condição humana. É justamente por isso que a vida em sociedade é organizada por leis que limitam a liberdade individual. Ninguém é livre para roubar, matar, sequestrar ou cometer qualquer outro crime. Se o fizer, deverá responder por seus atos.
As leis da vida real precisam valer também para o mundo virtual. Esse é o ponto central. A internet não pode ser transformada em um território sem regras, no qual criminosos e pessoas dispostas a praticar violência encontrem um espaço protegido pelo anonimato e pela dificuldade de fiscalização.
Crianças e adolescentes, principalmente, não podem ficar desprotegidos diante de ambientes virtuais nos quais desconhecidos podem estabelecer contato, criar grupos e estimular comportamentos perigosos.
As empresas de tecnologia têm responsabilidade sobre aquilo que acontece em suas plataformas e precisam desenvolver ferramentas capazes de identificar e interromper situações de risco.
Mas há também uma responsabilidade que não pode ser transferida às empresas ou ao Estado: a das famílias.
A nova versão da velha “babá eletrônica” é muito mais perigosa. O celular não apenas entretém a criança. Ele conversa com ela, apresenta desconhecidos, permite a entrada em grupos e oferece acesso praticamente ilimitado a conteúdos que os pais, muitas vezes, sequer conhecem.
É preciso que pais e responsáveis saibam quais aplicativos os filhos utilizam, com quem conversam e de quais grupos participam. Não significa transformar a relação familiar em vigilância permanente, mas acompanhar aquilo que faz parte da vida dos filhos.
Entregar um celular conectado ao mundo inteiro a uma criança e não acompanhar o que acontece naquela tela é um risco que não pode ser ignorado.
A tragédia de Naviraí deve servir de alerta. As plataformas precisam assumir suas responsabilidades, o Estado deve fiscalizar e fazer cumprir as leis, e as famílias precisam reassumir o seu papel de proteção e acompanhamento.
No mundo real, ninguém aceitaria deixar uma criança sozinha em um ambiente desconhecido, sem saber com quem ela está ou o que pode acontecer. O mundo virtual não pode ser tratado de maneira diferente apenas porque cabe dentro de uma tela.



