Artigos e Opinião

Artigo

Chernobyl: quarenta anos e muitas lições

O fato ocorrido em abril de 1986 no reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl alterou a forma como a humanidade lida com a produção de energia

Continue lendo...

Em abril, a tragédia nuclear ocorrida na usina de Chernobyl, na Ucrânia, completou 40 anos e deixou muitas lições para o Brasil e o restante do planeta. Além das marcas já conhecidas que a explosão do reator produziu na saúde pública, a relação entre Estado e sociedade que se descortinou ao mundo, conforme os fatos passaram a ser publicados, deve ser analisada com algum cuidado, pois, em certo grau, pode se reproduzir em diversos territórios, inclusive na atualidade.

O fato ocorrido em abril de 1986 no reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl alterou a forma como a humanidade lida com a produção de energia, mas deveria ter produzido mudanças em outros campos de modo mais profundo, como a questão da transparência com a qual dados de interesse público são transmitidos pelo ente estatal à sociedade.

Naquele momento, como o decurso dos fatos comprovou, a União Soviética, ente político que abrangia o território ucraniano, demorou para reconhecer publicamente a extensão do tétrico acontecimento, além de não ter tomado medidas adequadas com urgência, com o objetivo de proteger a população do país e, outrossim, a comunidade internacional.

A primeira manifestação oficial de Mikhail Gorbatchov, o mandatário soviético da época, aconteceu somente três semanas depois e a evacuação de Pripyat, cidade que abrigava os trabalhadores da usina, só ocorreu após 36 horas da explosão.

Ainda que a União Soviética não fosse uma democracia, a falta de transparência presente nos atos e omissões daquela entidade política, com efeitos nefastos para a população, repete-se na relação Estado-sociedade hodiernamente em diversos níveis da vida pública, independentemente da matriz ideológica do partido que esteja no poder nas democracias espalhadas pelo mundo.

O Brasil, evidentemente, não foge à regra, com diversos exemplos de comportamento dos agentes públicos que ofendem os princípios que deveriam proteger.

Atribuição de sigilo a gastos de figuras políticas relevantes sob o pretexto de interesse público, realização de encontros de autoridades com figuras sob investigação em seminários, entre outras situações, demonstram como atores relevantes da vida pública nacional parecem ter convicção de que a coletividade está a serviço do ente estatal, e não o contrário.

O contexto delineado mostra como, tanto nos Estados claramente autoritários quanto nas chamadas democracias contemporâneas, não há o exercício dos princípios que compõem a alma democrática, bastando aos países a manutenção de uma estrutura de democracia, baseada, sobretudo, em eleições periódicas e existência de algumas instituições.

É evidente que a existência de forma sem substância produz efeitos práticos deletérios para a comunidade. A democracia é um regime que deve perpassar as instituições e a vida prática da população.

O desastre de Chernobyl, portanto, mais que um evento isolado no tempo, exibe a necessidade de diligência no trato com assuntos que possam causar danos à coletividade e expõe o deficit de transparência na relação entre Estado e sociedade.

A mentira, a omissão, a incompetência e o descaso com a vida humana demonstrados na tragédia nuclear mencionada pode ter sido potencializada em um país de regime político autoritário, mas não é exclusividade de tal panorama.

As democracias contemporâneas, incluindo o Brasil, parecem ter muito a aprender com o evento histórico estudado, pois a cisão entre os interesses do ente estatal e da comunidade que o compõe fragiliza, em última análise, a existência do verdadeiro ambiente democrático.

Assine o Correio do Estado

ARTIGOS

A transformação da segurança pública

Mais do que ferramentas isoladas, drones, satélites e sistemas baseados em inteligência artificial (IA) estão formando um novo modelo operacional

30/05/2026 07h30

Continue Lendo...

A segurança pública e privada está passando por uma transformação profunda impulsionada pelo avanço tecnológico. O uso combinado de drones, satélites e sistemas baseados em inteligência artificial (IA) e machine learning está criando uma nova forma de monitorar territórios, antecipar riscos e responder a ameaças com maior eficiência.

Mais do que ferramentas isoladas, essas tecnologias estão formando um novo modelo operacional: a inteligência aérea integrada.

A geointeligência aplicada à segurança e defesa cresce em importância em todo o mundo por causa das guerras em curso. Aqui no Brasil não temos, felizmente, guerras, mas temos alto índice de criminalidade, crime organizado e fronteiras não tão bem protegidas dos traficantes.

Esse conceito integra dados geoespaciais – provenientes de satélites, drones, sensores terrestres e outras fontes – e os combina com análise avançada – incluindo IA – para gerar conhecimento acionável sobre o território.

A geointeligência permite entender “o que está acontecendo, onde, quando e por quê”, apoiando decisões estratégicas e operacionais com base em evidências.

Tradicionalmente, as operações de segurança eram baseadas em informações fragmentadas e, muitas vezes, reativas. Hoje, a integração de diferentes plataformas permite construir uma visão contínua e dinâmica do território.

Satélites oferecem cobertura ampla e monitoramento constante de grandes áreas, enquanto drones proporcionam alta resolução e capacidade de resposta rápida em nível local.

Ao mesmo tempo, algoritmos de IA e machine learning analisam grandes volumes de dados em tempo real, identificando padrões, anomalias e comportamentos suspeitos. Essa combinação marca uma mudança importante de sair da reação para a antecipação.

No combate ao crime organizado, essa evolução tecnológica é particularmente relevante. Organizações criminosas operam com alto nível de sofisticação e capilaridade, exigindo respostas igualmente estruturadas.

A integração entre dados orbitais, sensores aéreos e inteligência artificial permite monitorar rotas de tráfico, identificar movimentações suspeitas e detectar atividades ilegais em áreas remotas, como garimpo, desmatamento e contrabando.

Além disso, essas tecnologias apoiam operações táticas com informações em tempo real, aumentando a precisão das ações e reduzindo o tempo de resposta das forças de segurança.

No setor privado, o impacto também é significativo. Empresas que operam em grandes áreas – como mineração, energia, agronegócio e logística – estão adotando essas soluções para proteger ativos e reduzir riscos.

Drones são utilizados para vigilância perimetral e inspeções, enquanto imagens de satélite garantem monitoramento contínuo.

Com o apoio da IA, é possível detectar intrusões, falhas operacionais e situações de risco de forma automática. Assim, a segurança deixa de ser apenas vigilância e passa a ser uma gestão inteligente baseada em dados.

A defesa civil é outro campo que se beneficia diretamente dessa integração. Em situações de desastres naturais, como enchentes, deslizamentos e incêndios, a rapidez na obtenção de informações é crucial.

Satélites permitem mapear grandes áreas afetadas, drones oferecem avaliações detalhadas em campo e sistemas inteligentes ajudam a priorizar ações e otimizar o uso de recursos. Essa combinação aumenta a eficiência das operações de resposta e, sobretudo, contribui para salvar vidas.

No âmbito militar e de segurança nacional, a vigilância de fronteiras representa um dos maiores desafios, especialmente em países com extensos territórios. A integração de sensores orbitais, drones de longo alcance e sistemas de análise inteligente permite criar uma camada contínua de monitoramento.

Isso possibilita detectar movimentações ilegais, como tráfico de drogas e armas, com maior antecedência, reforçando a soberania e a capacidade de resposta do Estado.

O elemento central dessa transformação não está apenas nas tecnologias em si, mas na forma como elas são integradas. O verdadeiro valor surge quando diferentes sistemas se comunicam, compartilham dados e geram inteligência consolidada para apoiar a tomada de decisão.

É exatamente nesse ponto que a geointeligência se consolida como um pilar estratégico, conectando informação geográfica, sensores e análise avançada em um único fluxo de valor.

Mais do que reagir a eventos, o objetivo agora é antecipar riscos e agir de forma preventiva. Nesse cenário, a informação deixa de ser apenas um recurso estratégico e passa a ser um elemento central de proteção, capaz de transformar dados em decisões e tecnologia em segurança real.

EDITORIAL

Crime exige ação, não retórica

A recente decisão dos EUA de classificar organizações criminosas como grupos terroristas pouco contribui, na prática, para o enfrentamento da criminalidade no Brasil

30/05/2026 07h15

Continue Lendo...

O avanço do crime organizado nas fronteiras brasileiras não é novidade. Mato Grosso do Sul convive há décadas com a presença de facções criminosas que atuam de forma integrada com grupos instalados em países vizinhos.

O tráfico de drogas, o contrabando de armas, o descaminho e os mecanismos de lavagem de dinheiro atravessam fronteiras com uma facilidade muito maior do que a capacidade do Estado de contê-los.

Ao longo dos anos, o poder público tentou diferentes estratégias para enfrentar estas organizações. Chefões foram presos, líderes transferidos para presídios federais, rotas foram monitoradas e as apreensões de drogas aumentaram significativamente.

Ainda assim, o fluxo criminoso continua. A cada operação bem-sucedida, o crime organizado demonstra capacidade de adaptação, seja criando novas rotas clandestinas, seja utilizando tecnologias modernas e mecanismos cada vez mais sofisticados de ocultação financeira.

O combate ao crime organizado exige mais do que discursos de ocasião ou soluções simplistas. É necessário reforçar a fiscalização nas fronteiras, ampliar o efetivo policial, investir em equipamentos modernos e fortalecer o trabalho de inteligência.

Monitoramento aéreo, integração de dados, rastreamento financeiro e cooperação entre forças de segurança são ferramentas indispensáveis para enfrentar organizações que operam como verdadeiras multinacionais do crime.

Tudo isso, evidentemente, custa dinheiro. E o Brasil, assim como os Estados fronteiriços, entre eles Mato Grosso do Sul, ainda investem menos do que deveriam em segurança estratégica. A extensão territorial das fronteiras brasileiras impõe desafios logísticos enormes.

Sem recursos suficientes, sem tecnologia adequada e sem presença constante do Estado, o crime encontra terreno fértil para continuar operando.

Neste contexto, a recente decisão dos Estados Unidos de classificar organizações criminosas da América Latina como grupos terroristas pouco contribui, na prática, para o enfrentamento da criminalidade no Brasil.

A medida não altera a realidade das fronteiras brasileiras, não reduz o tráfico de drogas e tampouco enfraquece financeiramente estas facções em território nacional.

O efeito concreto mais preocupante desta classificação é abrir margem para intervenções estrangeiras sob o argumento do combate ao terrorismo.

Na prática, cria-se a possibilidade de ações militares norte-americanas em territórios de outros países, inclusive sem comunicação prévia às autoridades locais. Trata-se de uma interferência delicada e que fere princípios básicos de soberania nacional.

O combate ao crime transnacional não será vencido com rótulos políticos ou medidas de impacto midiático.

Ele depende de cooperação internacional séria, troca de informações, investimentos em inteligência, transferência de tecnologia e ampliação de recursos para os países que convivem diariamente com este problema.

O que Mato Grosso do Sul e o Brasil precisam é de apoio técnico, mais equipamentos, mais integração entre forças policiais e mais dinheiro para monitorar fronteiras e sufocar financeiramente as organizações criminosas. O crime organizado se tornou global. O enfrentamento também precisa ser.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).