Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "O esforço e a recompensa"

Confira o editorial desta quarta-feira: "O esforço e a recompensa"

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As oportunidades existem, mas é preciso esforço e dedicação para alcançá-las. Assim também é com verbas públicas. Quem não procura, não consegue.

As relações cada vez mais efêmeras têm criado uma sociedade em que os poucos que conseguem ir além são muito notados. Quando falamos destas relações, não nos referimos apenas às interações entre indivíduos, mas também à relação entre as pessoas e a busca por conhecimento, ou mesmo sobre o interesse da sociedade em saber como as coisas funcionam.

Os que chegaram recentemente, e encontraram computadores funcionando, quase não escrevem com caneta e lápis, pois usam muito mais os teclados e as telas de monitores, tablets e smartphones. Os mesmos também frequentam muito menos as bibliotecas que os de outrora. Os buscadores, como o Google, ou enciclopédias virtuais colaborativas, como a Wikipédia, aparentemente contribuíram para reduzir a fixação do conhecimento.

De uma certa forma, o mundo ficou mais pragmático para algumas situações, como a operação de serviços bancários, por exemplo, e mesmo a compra de um ingresso ou de um produto sem sair de casa. Mas muito pragmatismo pode tornar o conhecimento mais efêmero, e trabalhos de pesquisa, mais cansativos. Para pesquisar, é necessário ir além.

Nesta edição, trazemos reportagem que mostra como o município de Campo Grande deixa de receber aproximadamente R$ 38 milhões por ano por não cumprir com alguns requisitos estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Nada muito complexo: algo que não deve ir além de pegar um edital, verificar suas exigências, reunir uma equipe e executar o que é pedido. É bom lembrar, sobre a tal complexidade citada há pouco, que ela só existe para os que não foram acostumados a buscar o conhecimento por meio de tarefas mais complexas e de mais resiliência.

Em meio aos muitos contingenciamentos do governo federal (um deles o corte nas bolsas de pesquisas), saber que existe uma verba significativa – R$ 38 milhões – disponível para o município, cuja liberação não depende da boa vontade dos governantes que estão na capital federal, soa como desperdício da administração por não aproveitar tal oportunidade.

O caso citado é apenas mais um entre os muitos projetos não utilizados por outros entes federativos. O mesmo vale para todos os cidadãos. Certamente, a prospecção de oportunidades no universo burocrático, seja da pesquisa, seja do poder público, não é algo muito prazeroso de se fazer. Mas o esforço sempre traz boas oportunidades.

Editorial

A oportunidade de mudar o transporte

Ao falar em intervenção, mas na prática não intervir efetivamente, o Município corre o risco de desperdiçar uma oportunidade importante de reorganizar o sistema

12/06/2026 07h15

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Nesta semana tratamos, neste espaço, da possibilidade de intervenção da Prefeitura Municipal de Campo Grande no Consórcio Guaicurus, concessionário responsável pelo transporte coletivo urbano da Capital. O tema voltou ao debate após a comissão especial criada para discutir o assunto defender uma intervenção no sistema.

O problema é que, ao menos pelo que foi apresentado até aqui, a chamada intervenção parece muito mais uma ampliação da fiscalização do que propriamente uma intervenção administrativa no serviço.

Na prática, a proposta tem caráter orientativo e fiscalizatório.

A ideia seria acompanhar indicadores, cobrar resultados e exigir mais transparência operacional do consórcio. Mas, isso já deveria ocorrer normalmente.

Fiscalizar contratos, acompanhar metas e cobrar eficiência são atribuições básicas das agências reguladoras e dos órgãos municipais responsáveis pelo transporte coletivo.

Aliás, mais do que atribuição, trata-se de obrigação do poder concedente diante de um serviço essencial e altamente subsidiado.

Quando se fala em intervenção, espera-se algo mais profundo. O instituto jurídico existe justamente para permitir ao Município assumir temporariamente o controle administrativo da concessão em situações críticas.

Isso significa nomear um interventor com poder efetivo de participar da tomada de decisões do concessionário, interferindo diretamente em questões como frequência de ônibus, definição de linhas, manutenção da frota e qualidade operacional.

Mais do que isso, uma intervenção séria exige acompanhamento rigoroso do fluxo financeiro do sistema. O transporte coletivo de Campo Grande opera há anos em meio a sucessivos aumentos de subsídios públicos, queda no número de passageiros e constantes reclamações dos usuários.

Não há como discutir eficiência sem compreender quanto custa o serviço e de que maneira os recursos públicos estão sendo utilizados.

Ao falar em intervenção, mas na prática não intervir efetivamente, o Município corre o risco de desperdiçar uma oportunidade importante de reorganizar o sistema. Uma das discussões que poderiam surgir é justamente a formação da tarifa.

Campo Grande convive há anos com um modelo desequilibrado, no qual o subsídio cresce continuamente enquanto o serviço segue alvo de críticas.

Uma revisão transparente poderia estabelecer um preço mais justo, capaz de refletir a realidade do sistema e reduzir gradualmente a dependência de recursos públicos.

Também seria uma oportunidade para melhorar efetivamente o serviço na ponta. O usuário quer menos tempo de espera, ônibus conservados, linhas eficientes e previsibilidade.

Quer voltar a enxergar o transporte coletivo como alternativa viável de mobilidade urbana.

Campo Grande precisa dar sinais concretos de que existe um projeto de recuperação do transporte coletivo. Se houver intervenção, que ela seja real, com poder de decisão, transparência e metas claras.

Apenas fiscalizar aquilo que já deveria ser fiscalizado dificilmente mudará a realidade do transporte urbano da Capital.

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Artigo

Morrer de rir?

Luis Fernando Verissimo já brincava com isso: "Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca"

11/06/2026 07h45

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Desde muito cedo as pessoas recebem a informação de que vão morrer um dia. Mas a grande maioria vive como se a morte fosse apenas uma possibilidade.

E bem distante. Luis Fernando Verissimo já brincava com isso: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”.

Para muita gente, velhas são as pessoas com 20 anos a mais do que elas.

Mas, com o passar do tempo, é inexorável que as rodas de conversa ganhem novos assuntos.

Futebol, maquiagem, política, trabalho, filhos, vinhos e viagens continuam em cena.

Mas ganham a companhia de colesterol, glicemia, nomes de remédios, dores pelo corpo, esquecimentos, indicações de médicos e de farmácias.

De repente, percebe-se que levantar do sofá virou um movimento complexo e que já não é raro procurar os óculos que estão no topo da própria cabeça.

O relógio inteligente informa os batimentos cardíacos. Mas o joelho passa a dar a opinião mais sincera. A impressão é que o corpo abriu franquias e que cada articulação administra sua própria crise.

É quando a pessoa entra num cômodo e precisa consultar a memória como quem consulta o arquivo morto.

Tem gente que lida com o envelhecimento de forma azeda. Mas há quem consiga rir de si mesmo. Talvez façamos piadas porque sabemos que somos mortais. É como se o humor ajudasse a admitir fragilidades sem solenidade.

Em vez de dizer “estou envelhecendo”, alguém pode preferir dizer: “meu joelho prevê chuva melhor do que qualquer aplicativo”. É a autoironia funcionando como amortecedor emocional, como um idioma comum, um convite à conversa.

O envelhecimento escancara a noção de finitude, submersa por longo tempo. Ela aparece sorrateira, quando se comentam aposentadorias, perdas, limitações, afastamento de parentes.

E bate firme quando se percebe a quantidade de contemporâneos que estão morrendo. Conversar sobre isso democratiza a vulnerabilidade.

Talvez por isso haja tantos risos em hospitais e em velórios, piadas sobre idade, ironia sobre os próprios limites. O humor não elimina a morte. Mas impede que ela monopolize a conversa.

No fim das contas, envelhecer talvez seja perceber que o corpo perde vigor ao passo que o repertório ganha profundidade.

Enquanto for possível transformar tudo isso em conversa – e, de preferência, em boas risadas – quem sabe a finitude mereça um entendimento equilibrado: inevitável, sim; proibida, não.

Porque há assuntos pesados demais para serem carregados sem uma generosa dose de bom humor.

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