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Geopolítica da transição

Nova arquitetura geopolítica deixa a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos serem meros temas econômicos e passam a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados

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O sistema internacional atravessa uma reconfiguração estrutural profunda. A crescente disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, aliada ao imperativo de transição energética e à corrida pela soberania em inteligência artificial, redefiniu os eixos do poder global.

Nessa nova arquitetura geopolítica, a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos deixaram de ser meros temas econômicos e passaram a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados.

O Brasil se encontra diante de uma encruzilhada histórica: não como espectador passivo, mas como um ator pivotal.

A questão premente que se impõe à diplomacia e às elites políticas do País é saber se teremos a maturidade estratégica para negociar nosso futuro com altivez ou se repetiremos o erro histórico do alheamento diante das grandes transformações internacionais.

As evidências empíricas e geoeconômicas demonstram que o Brasil reúne condições ímpares para alterar qualitativamente sua inserção no cenário global.

Enquanto os centros tradicionais de poder enfrentam complexos dilemas para descarbonizar suas matrizes e suprir a crescente demanda computacional dos centros de dados de inteligência artificial, o Brasil apresenta um ativo de inestimável valor diplomático: aproximadamente 88% de sua geração elétrica provêm de fontes limpas e renováveis, contra uma média global que mal supera o patamar de 30%.

Essa assimetria positiva confere ao País uma vantagem competitiva e negociadora sem paralelo para a atração de indústrias de ponta e infraestrutura de tecnologia crítica.

No plano geológico, a convergência entre transição tecnológica e segurança de suprimentos transforma nosso subsolo em um vetor de projeção de poder.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras – estimada em mais de 21 milhões de toneladas –, além de deter mais de 90% das reservas globais de nióbio e depósitos altamente estratégicos de lítio de alta pureza no Vale do Jequitinhonha, além de expressivas jazidas de níquel e cobre.

Insumos dessa natureza constituem o cerne das cadeias de valor dos semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de última geração. Deter a posse desses recursos significa possuir as alavancas do novo arranjo produtivo mundial.

Sob a ótica da diplomacia econômica, o desafio fundamental é superar de forma definitiva o modelo tradicional de exportador primário.

Negociar com Washington, Pequim ou Bruxelas exige abandono da passividade em favor de uma estratégia soberana e pragmática: o acesso aos recursos e ao mercado brasileiro deve estar condicionado à transferência efetiva de tecnologia, ao adensamento das cadeias produtivas locais e ao processamento de valor agregado em território nacional.

Trata-se de instrumento político para consolidar a autonomia industrial e tecnológica do País.

O Brasil dispõe dos elementos necessários para sentar-se à mesa das grandes potências não como fornecedor de commodities, mas como formulador geopolítico.

Infelizmente, cabe aos nossos líderes políticos, que estão muito aquém desta tarefa, desenhar um projeto de Estado denso e articulado, capaz de converter nosso potencial estratégico em influência diplomática concreta e desenvolvimento real.

Neste ponto reside o grande desafio das próximas gerações. Sem lideranças de qualidade, perderemos a corrida geopolítica desta transição, tornando-nos mais uma vez expectadores da nova ordem que se desenha.

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Capacidade institucional: como transformar potencial em resultados

Ampliar capacidade não significa apenas contratar mais pessoas, adquirir tecnologia, criar estruturas ou aumentar recursos, significa mobilizar melhor aquilo que a organização já tem

02/09/2026 07h35

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Nos últimos meses, aqui no Correio do Estado, tenho escrito sobre temas diferentes: confiança, liderança, segurança psicológica, saúde organizacional, pesquisa de clima, comunicação eficaz, gestão de pessoas e aprendizagem organizacional.

Mas, no centro de todos eles, está a mesma questão: capacidade institucional. Quero voltar a ela, num esforço de síntese.

Resultados importam. Mostram onde uma organização conseguiu chegar. Capacidade institucional revela até onde ela ainda pode ir.

Logo, entre aquilo que uma organização realiza e aquilo que ela é capaz de realizar pode existir uma distância enorme.

O que explica esse fosso? Por que algumas organizações conseguem mobilizar melhor o talento, o conhecimento, a criatividade e a energia das pessoas? E por que conseguem gerir melhor a incerteza e transformar tudo isso em resultado?

Parte importante da resposta está nas lideranças. No plural.

Não apenas naquela que ocupa o topo, mas nas muitas lideranças diretas que, diariamente, ampliam ou reduzem o espaço para que outras pessoas pensem, proponham, questionem e assumam responsabilidades.

É nesse nível que a cultura institucional deixa de ser discurso e adquire expressão prática. Confiança, integridade, inovação e valorização das pessoas podem ocupar documentos e discursos institucionais. Mas são as lideranças que mostram, no cotidiano, quanto esses valores realmente valem.

A forma como reagem a uma ideia diferente, a um erro ou a um problema ensina às pessoas se vale a pena falar, contribuir, questionar, experimentar e assumir responsabilidades ou se é mais seguro permanecer em silêncio.

Por isso escrevi que “o maior desafio da liderança é ampliar, continuamente, a capacidade da organização de continuar tendo sucesso”.

Ampliar capacidade não significa apenas contratar mais pessoas, adquirir tecnologia, criar estruturas ou aumentar recursos. Significa mobilizar melhor aquilo que a organização já tem.

Talvez um dos maiores desperdícios esteja aí: no conhecimento que não circula, na boa ideia sem espaço, no talento não desenvolvido, no risco percebido mas não comunicado e nas pessoas capazes de oferecer muito mais.

Confiança e segurança psicológica são condições para que as pessoas cooperem e comuniquem problemas antes que se transformem em crises. Saúde organizacional amplia esse olhar: é uma infraestrutura estratégica para que as pessoas possam oferecer o seu melhor.

A participação das pessoas nas decisões melhora sua qualidade e legitimidade, produz aprendizado e fortalece a motivação.

A efetividade de um sistema de integridade, por exemplo, depende de fazer com que essas condições existam na prática.

Isso amplia a capacidade da organização de compreender o ambiente, identificar riscos e fragilidades e escolher respostas mais adequadas. Sem um bom diagnóstico, corre-se o risco de investir recursos e esforços em respostas que não enfrentam as causas reais do problema.

Duas organizações podem ter profissionais igualmente qualificados, recursos semelhantes e acesso às mesmas tecnologias e, ainda assim, alcançar resultados muito diferentes. A diferença pode estar menos no que têm e mais no que conseguem mobilizar.

Lideranças podem ser decisivas para construir os resultados de um ciclo. Mas fortalecer capacidade institucional também exige reconhecer quando as competências que trouxeram a organização até aqui já não são suficientes para levá-la além.

Isso não significa desconsiderar o que foi construído nem mudar por mudar. Significa compreender que preservar resultados e ampliar capacidade são desafios diferentes. Em alguns momentos, desenvolver lideranças será suficiente.

Em outros, renovar competências e responsabilidades pode ser necessário para abrir espaço a novas capacidades.

Fortalecer capacidade institucional significa transformar mais do potencial existente em melhores decisões, aprendizagem, inovação, cooperação e entregas.

Talvez, então, a pergunta mais importante diante de bons resultados não seja apenas quanto conseguimos realizar até aqui.

É outra: quanto da capacidade que já existe dentro da nossa organização ainda não conseguimos colocar em movimento?

Porque organizações fortes não vivem apenas do sucesso alcançado. Reconhecem o que funciona, preservam o que merece ser preservado e têm a coragem de desenvolver, renovar e transformar o necessário para ampliar sua capacidade de fazer melhor.

EDITORIAL

Justiça eleitoral deve ser sempre célere

Equilibrar a disputa e evitar que as regras sejam violadas é a razão de existir da Justiça Eleitoral; quanto mais acirrada fica uma eleição, maior é a responsabilidade de quem fiscaliza o processo

02/09/2026 07h15

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Nesta eleição, como já era esperado, as denúncias de possíveis crimes eleitorais começaram a crescer e, com elas, aumenta também a demanda sobre o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS).

O movimento é natural em um período no qual candidatos, partidos e coligações disputam não apenas votos, mas também espaço, visibilidade e vantagem sobre os concorrentes.

Pudera. Eleição não é competição da qual alguém participa com o objetivo de perder. Quem entra em uma disputa eleitoral entra para ganhar. E, entre as estratégias utilizadas para alcançar esse objetivo, está justamente a denúncia de eventuais abusos cometidos pelo concorrente ou adversário.

Cabe à Justiça Eleitoral, portanto, separar aquilo que é efetivamente uma infração daquilo que é apenas uma disputa política travestida de denúncia. Essa tarefa exige equilíbrio, independência e, sobretudo, agilidade.

O que se espera da Justiça Eleitoral é que examine as representações com rigor, mas também com objetividade, atendo-se preferencialmente à letra da lei e evitando que interpretações excessivamente amplas acabem interferindo no processo eleitoral para além do que as próprias regras determinam.

A rapidez, nesse contexto, não é mero detalhe. É uma característica essencial da Justiça Eleitoral.

Diferentemente de outros tipos de processos, nos quais o tempo pode permitir que uma decisão tardia ainda produza seus efeitos, no processo eleitoral o calendário corre contra todos. Uma propaganda irregular, uma informação falsa, um abuso de poder ou qualquer outra conduta proibida pode alcançar milhares de eleitores em poucas horas.

Um crime eleitoral julgado com morosidade, mesmo que posteriormente reconhecido pela Justiça, pode já não produzir o efeito esperado.

O dano à disputa pode ter ocorrido, o eleitor pode ter sido influenciado e o resultado das urnas, eventualmente, pode carregar as consequências de uma violação que não foi interrompida a tempo. Nesse caso, a decisão correta chega quando sua capacidade de reparar o equilíbrio já foi reduzida.

Isso não significa, evidentemente, defender decisões precipitadas ou baseadas apenas na pressão de candidatos e grupos políticos. Rapidez não pode ser confundida com açodamento.

É preciso garantir o contraditório, analisar provas e respeitar o devido processo legal. Mas é igualmente necessário reconhecer que a Justiça Eleitoral tem uma dinâmica própria e que sua efetividade depende da capacidade de agir enquanto os fatos ainda podem ser corrigidos.

A Justiça Eleitoral deve arbitrar as eleições e coibir abusos. Não deve ser instrumento de qualquer candidatura, tampouco transformar toda divergência política em infração.

Seu papel é estabelecer os limites dentro dos quais a disputa pode acontecer de maneira legítima, impedindo que quem desrespeita as regras obtenha vantagem indevida.

Equilibrar a disputa e evitar que as regras sejam violadas é a razão de existir da Justiça Eleitoral. Quanto mais acirrada fica uma eleição, maior é a responsabilidade de quem fiscaliza o processo.

E, quanto maior o número de denúncias, maior deve ser também a capacidade institucional de distinguir o abuso real da estratégia política.

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