Artigos e Opinião

Editorial

Infraestrutura, crédito e responsabilidade

O desafio, portanto, não está apenas em contratar crédito, mas em garantir capacidade de pagamento sem comprometer áreas essenciais como saúde, educação e segurança

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A decisão do governo de Mato Grosso do Sul de recorrer a um novo empréstimo internacional para financiar a manutenção de estradas recoloca no centro do debate um tema recorrente na gestão pública: o delicado equilíbrio entre investimento e responsabilidade fiscal.

Desta vez, o financiamento de R$ 1,2 bilhão com o Banco Mundial se soma a um conjunto já expressivo de operações de crédito voltadas à infraestrutura rodoviária, incluindo mais de R$ 3 bilhões contratados com o BNDES e quase R$ 1 bilhão com o Banco do Brasil.

Sob a ótica econômica, a estratégia não deve ser descartada. Em cenários de restrição orçamentária, recorrer ao crédito pode ser um caminho legítimo para manter o ritmo de investimentos, especialmente em áreas estruturantes.

A manutenção adequada das rodovias, por exemplo, tende a reduzir custos logísticos, melhorar a segurança viária e ampliar a competitividade da produção local.

Em um estado com forte vocação agropecuária e dependente do transporte rodoviário, esses efeitos não são marginais – eles impactam diretamente o preço final dos produtos, o escoamento da produção e a integração regional.

Além disso, há um argumento técnico relevante: investir na conservação pode ser mais barato do que arcar com os custos de reconstrução no futuro.

Estradas bem mantidas exigem menos intervenções emergenciais, o que, em tese, racionaliza o gasto público ao longo do tempo.

Nesse sentido, o novo empréstimo pode representar não apenas uma solução imediata, mas também uma tentativa de planejamento mais eficiente.

Ainda assim, é preciso cautela. O cenário fiscal atual está longe de ser confortável. Com sinais de desaceleração na arrecadação e aumento das despesas, a ampliação do endividamento exige critérios rigorosos.

Empréstimos são instrumentos úteis, mas não neutros: implicam compromissos de longo prazo que pressionam o caixa do Estado nos anos seguintes.

O desafio, portanto, não está apenas em contratar crédito, mas em garantir capacidade de pagamento sem comprometer áreas essenciais como saúde, educação e segurança.

Outro ponto central é o impacto concreto dessas obras no cotidiano da população. Infraestrutura de qualidade precisa se traduzir em ganhos perceptíveis – seja na redução do tempo de deslocamento, na diminuição de custos ou na melhoria das condições de tráfego.

Sem essa conexão direta com a vida real, o investimento corre o risco de se tornar apenas um dado contábil positivo, sem reflexo efetivo no bem-estar coletivo.

Há ainda o componente político, inevitável em um ano eleitoral. Obras públicas ganham visibilidade e passam a ser disputadas como ativos de imagem por diferentes atores. A paternidade dos projetos será reivindicada, direta ou indiretamente, em discursos e campanhas.

Nesse ambiente, cabe ao cidadão ir além da superfície: mais importante do que saber quem inaugura ou anuncia uma obra é compreender como ela foi financiada e quais benefícios concretos ela entrega.

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Editorial

Repensar o Hospital Municipal

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la

20/06/2026 07h15

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A construção de um hospital municipal em Campo Grande é uma necessidade há muito debatida e que dificilmente encontra oposição.

Em uma cidade que concentra atendimentos de alta complexidade e recebe pacientes de praticamente todas as regiões de Mato Grosso do Sul, ampliar a estrutura de saúde pública é uma demanda permanente.

O problema não está no objetivo, mas no caminho escolhido para alcançá-lo.

Nesta edição, mostramos que a licitação lançada pela Prefeitura de Campo Grande para viabilizar o Hospital Municipal ficou deserta pela segunda vez.

Nenhuma empresa apresentou proposta. O fato, por si só, merece uma reflexão mais profunda. Quando o setor privado não demonstra interesse em participar de um projeto dessa magnitude, é preciso compreender as razões.

O Município apostou no modelo BTS, sigla para built to suit. Nesse formato, a iniciativa privada constrói a estrutura e depois recebe pagamentos por meio de um contrato de aluguel de longo prazo.

Em teoria, trata-se de uma alternativa capaz de acelerar investimentos sem exigir que o poder público desembolse imediatamente os recursos necessários para a obra.

Mas a realidade mostrou que algo não está funcionando. Se duas tentativas consecutivas terminaram sem interessados, é sinal de que o mercado não enxerga, nas condições atuais, uma oportunidade suficientemente atrativa para assumir os riscos do empreendimento.

Diante desse cenário, insistir no mesmo modelo sem promover ajustes pode significar apenas mais atraso. O momento exige que a administração municipal reavalie a estratégia adotada e examine outras possibilidades.

Uma delas é seguir um caminho semelhante ao utilizado pelo governo do Estado em empreendimentos hospitalares.

Em vez de limitar a parceria à construção do prédio, seria possível estruturar uma parceria público-privada mais ampla, envolvendo também a gestão de atividades-meio e a operação de serviços de apoio.

Esse formato pode aumentar o interesse dos investidores e melhorar a sustentabilidade econômica do projeto.

Outra alternativa é buscar recursos federais, emendas parlamentares e linhas de financiamento específicas para executar diretamente a obra.

Embora seja improvável que o Município disponha de recursos próprios suficientes para construir sozinho um hospital desse porte, existem mecanismos institucionais que podem ajudar a viabilizar o empreendimento.

O que não pode acontecer é a paralisação da ideia. Campo Grande continua precisando ampliar sua rede pública de saúde.

A população não está preocupada com a modalidade contratual adotada, o cidadão quer mais leitos, atendimento mais rápido e serviços de qualidade.

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta, e não como um ponto final. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la.

O importante não é defender um modelo específico, mas encontrar a solução mais eficiente para entregar à população uma estrutura que há anos é considerada necessária.

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Artigo

Velhices no plural: combater o etarismo começa pelo olhar

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações

19/06/2026 07h45

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Quais são os lugares dos velhos na nossa sociedade? Sim, lugares, pois não há uma única forma de se viver a velhice, mas diversas: são velhices.

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações.

Têm também um futuro, no qual podem constituir projetos e viver a velhice com uma potência criativa. Ser quem se é, a partir do que se constituiu ao longo da vida, e poder se recriar mantendo a sua autenticidade.

Vou perguntar de outro jeito, mais pessoal: O que é a velhice para você? Qual é o seu olhar destinado aos velhos? As suas respostas foram positivas? Ou foram estereotipadas e generalizadas, a partir de concepções negativas? Lá no fundinho, você encontra em si uma série de preconceitos que se manifestam nas piadas, olhares de pena ou de intolerância, uma falta de paciência, uma grosseria, uma violência? A isso chamamos etarismo: estereótipos, preconceitos e discriminação em relação à idade, segundo o Relatório Mundial sobre o Idadismo (2022) e o Relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre Conexão Social (2025).

O que parecem ser somente ideias inofensivas, bobagens, produzem efeitos reais deletérios para os velhos: adoecimento, isolamento, sentimentos de exclusão e de solidão (OPAS, 2022; OMS, 2025). As ideias se propagam em ações discriminatórias às quais os velhos se identificam.

E então, por onde ir? Como mudar essa situação? Temos algumas alternativas. Diante o desrespeito, a mudança pelo reconhecimento, nas relações pessoais mais próximas, da família, dos amigos e dos amores; na inclusão de pertencimento comunitário e social, pois a ideia de que os velhos querem descansar é errônea, não se confirma na vida real.

E, por fim, o espaço de reconhecimento pelo acolhimento, pela escuta, pelo diálogo e pelas trocas de experiências entre todas as gerações.

Enfrentar o etarismo exige, antes de tudo, torná-lo visível. É um fenômeno que se sustenta em práticas cotidianas e, por isso mesmo, precisa ser reconhecido, nomeado e compreendido para que possa ser efetivamente combatido.

O caminho passa pela educação, pelo desenvolvimento da empatia e pela construção de relações que favoreçam a convivência entre as gerações e a troca de experiências.

Não se trata apenas de uma mudança individual, mas de um compromisso coletivo com uma sociedade que reconheça a velhice em sua diversidade, potência e dignidade. 

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