Artigos e Opinião

Editorial

Avanço estratégico para o Brasil

Investir na produção interna de fertilizantes é uma estratégia que dialoga diretamente com a ideia de soberania produtiva

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Mato Grosso do Sul recebeu nesta semana uma boa notícia e tem perspectiva de receber uma ainda melhor nos próximos meses. A primeira foi o anúncio da Petrobras de que as obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3 (UFN3), em Três Lagoas, serão retomadas. A segunda, conforme detalhado nesta edição, é a previsão de que os trabalhos sejam efetivamente reiniciados até o fim de junho.

Depois de anos de paralisação e incertezas, trata-se de um sinal concreto de que o projeto pode, enfim, sair do papel e cumprir o papel estratégico para o qual foi concebido.

A relevância da UFN3, no entanto, vai muito além das fronteiras de Mato Grosso do Sul. Trata-se de uma planta com capacidade para atender cerca de 15% da demanda nacional por fertilizantes, o que a coloca como peça importante na engrenagem do agronegócio brasileiro.

Em um país cuja economia depende fortemente da produção agrícola, garantir insumos essenciais em escala nacional não é apenas desejável, é uma questão de segurança econômica.

O momento internacional reforça essa percepção. Em tempos de instabilidade geopolítica, conflitos regionais e rupturas nas cadeias globais de suprimentos, a dependência externa de fertilizantes se torna um risco evidente.

O Brasil, que importa parcela significativa desses insumos, fica exposto a variações de preço, disponibilidade e condições logísticas. Investir na produção interna, portanto, é uma estratégia que dialoga diretamente com a ideia de soberania produtiva.

Mais do que isso, há uma dimensão estrutural nesse movimento. O Brasil se consolidou como uma potência mundial na exportação de alimentos, mas ainda carrega vulnerabilidades importantes em etapas fundamentais da cadeia produtiva.

Reduzir essa dependência não significa isolamento, mas sim maior capacidade de enfrentar oscilações externas com menos impacto interno. Em um cenário global cada vez mais imprevisível, essa resiliência faz diferença.

Para Mato Grosso do Sul, os efeitos são ainda mais diretos. A retomada das obras da UFN3 representa a perspectiva de geração de emprego em larga escala – são mais de 8 mil postos de trabalho previstos apenas na fase de construção –, além da dinamização de cadeias produtivas locais e da agregação de valor à economia regional.

Não se trata apenas de um empreendimento industrial, mas de um vetor de desenvolvimento com potencial para transformar a realidade econômica de Três Lagoas e de seu entorno.

Ainda assim, é impossível ignorar o histórico do projeto. A UFN3 tornou-se, ao longo dos anos, símbolo de promessas interrompidas e expectativas frustradas.

Por isso, o anúncio da retomada precisa ser acompanhado de execução consistente, prazos cumpridos e transparência na condução das obras.

A expectativa, desta vez, é clara: que o projeto avance sem novos sobressaltos e que, finalmente, seja concluído. Porque, mais do que uma boa notícia, o Brasil precisa de resultados concretos.

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Artigo

Sobre a redução do salário da magistratura

Decidiu fazer um ataque onde dói mais: no bolso, com a redução dos salários da magistratura e por conseguinte de toda carreira pública da Justiça

15/04/2026 07h30

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É um verdadeiro show assistir aos microssistemas das instituições digladiarem-se internamente, como franca demonstração de força e poder, só para o vencedor desfilar ao lado do chefe máximo e ser alçado publicamente como o maioral.

De fato, isso invariavelmente acontece no mundo corporativo em que os péssimos líderes criam um verdadeiro inferno entre os seus, como forma de despertar a ira, a competitividade e, claro, terem mais poder.

A desgraça começa quando o assunto da competitividade de poder atinge a coisa pública, ou melhor, a res publica, em que os seus digladiadores, ou melhor, seus agentes são ludibriados, começam a competir entre si e se esquecem de que são apenas gerentes de um bem maior que não pertence a eles, mas sim ao povo. 

A etimologia da palavra graça ironicamente é engraçada, porque a sua origem é grega (charis) e significa “favor imerecido”, então, a desgraça acaba sendo a pena merecida a quem não teve capacidade de fazer por merecer o seu favor que lhe outorgaram.

Mas não quero parar por aqui, porque quando assistimos a medição de força entre os poderes da República, a cada dia que passa assistimos à República ir de mal ao péssimo. 

Dentro de cada poder da República existem as disputas internas como forma de sacudir os discursos e enaltecer quem vence a dialética, porém o único poder republicano que sempre funcionou como o seu bastião era a Justiça.

Não falo aqui apenas do Poder Judiciário, mas sim em todo o sistema que faz o seu funcionamento: advocacia, Ministério Público, Magistratura, defensorias públicas e procuradorias de autarquias.

Nunca se viu na história da República brasileira tamanha exposição da Justiça e de seus membros (propositalmente ou não), e agora a própria magistratura passa a ser um sensor dos seus membros e como forma de querer acalmar os ânimos do povo, o Supremo Tribunal Federal, em autossalvação (assim como Jesus foi tentado pelo diabo) decidiu fazer um ataque onde dói mais: no bolso, com a redução dos salários da magistratura e por conseguinte de toda carreira pública da Justiça.

Há algumas décadas a advocacia privada vem reclamando daquilo que se chama de uniformização das decisões e o Poder Judiciário acaba não distinguindo, ou melhor, confunde aquelas ações chamadas de demandas de massa, das ações propriamente particulares e individualizadas que merecem a análise caso a caso, isto por uma criação do Poder Legislativo, como forte atuação do Executivo, do Conselho Nacional de Justiça, pela Emenda nº 45, no ano de 2004, que visava dar transparência ao Poder Judiciário, mas que duas décadas depois de sua criação o que se vê é a diminuição da livre consciência das decisões da magistratura, justamente por receio de alguma advertência ou punição de seus membros por não seguirem uma orientação já (pré) concebida.

De fato, a Justiça é um organismo vivo e essa diminuição da livre consciência para uniformizar as decisões que era considerada um remédio, já era um veneno anunciado pela advocacia privada.

Hoje, o efeito colateral bateu no bolso e está doendo na alma das carreiras do funcionarismo público da Justiça, e como consequência o afugentamento de profissionais com excelência.

Quem perde com tudo isso? O povo. 

Realmente, por um discurso maniqueísta lá nos anos de 2004 em que Legislativo e Executivo diziam que precisavam dar transparência ao Poder Judiciário, acabaram colocando “fogo no parquinho” e conseguiram enfraquecer o único poder da República que tinha função precípua de julgar e eventualmente de legislar. E hoje parece que essas funções do Poder Judiciário se inverteram com a quase obrigação da uniformização jurisprudencial.

Resumo da ópera: com a redução do salário da magistratura ou se devolve a livre consciência plena às decisões dos membros do Poder Judiciário, sem nenhuma interferência da opinião pública, ou além de termos a debandada dos profissionais com excelência da magistratura, teremos o nivelamento por baixo das carreiras do funcionarismo público da Justiça que estão por vir.

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Editorial

Infraestrutura, crédito e responsabilidade

O desafio, portanto, não está apenas em contratar crédito, mas em garantir capacidade de pagamento sem comprometer áreas essenciais como saúde, educação e segurança

15/04/2026 07h15

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A decisão do governo de Mato Grosso do Sul de recorrer a um novo empréstimo internacional para financiar a manutenção de estradas recoloca no centro do debate um tema recorrente na gestão pública: o delicado equilíbrio entre investimento e responsabilidade fiscal.

Desta vez, o financiamento de R$ 1,2 bilhão com o Banco Mundial se soma a um conjunto já expressivo de operações de crédito voltadas à infraestrutura rodoviária, incluindo mais de R$ 3 bilhões contratados com o BNDES e quase R$ 1 bilhão com o Banco do Brasil.

Sob a ótica econômica, a estratégia não deve ser descartada. Em cenários de restrição orçamentária, recorrer ao crédito pode ser um caminho legítimo para manter o ritmo de investimentos, especialmente em áreas estruturantes.

A manutenção adequada das rodovias, por exemplo, tende a reduzir custos logísticos, melhorar a segurança viária e ampliar a competitividade da produção local.

Em um estado com forte vocação agropecuária e dependente do transporte rodoviário, esses efeitos não são marginais – eles impactam diretamente o preço final dos produtos, o escoamento da produção e a integração regional.

Além disso, há um argumento técnico relevante: investir na conservação pode ser mais barato do que arcar com os custos de reconstrução no futuro.

Estradas bem mantidas exigem menos intervenções emergenciais, o que, em tese, racionaliza o gasto público ao longo do tempo.

Nesse sentido, o novo empréstimo pode representar não apenas uma solução imediata, mas também uma tentativa de planejamento mais eficiente.

Ainda assim, é preciso cautela. O cenário fiscal atual está longe de ser confortável. Com sinais de desaceleração na arrecadação e aumento das despesas, a ampliação do endividamento exige critérios rigorosos.

Empréstimos são instrumentos úteis, mas não neutros: implicam compromissos de longo prazo que pressionam o caixa do Estado nos anos seguintes.

O desafio, portanto, não está apenas em contratar crédito, mas em garantir capacidade de pagamento sem comprometer áreas essenciais como saúde, educação e segurança.

Outro ponto central é o impacto concreto dessas obras no cotidiano da população. Infraestrutura de qualidade precisa se traduzir em ganhos perceptíveis – seja na redução do tempo de deslocamento, na diminuição de custos ou na melhoria das condições de tráfego.

Sem essa conexão direta com a vida real, o investimento corre o risco de se tornar apenas um dado contábil positivo, sem reflexo efetivo no bem-estar coletivo.

Há ainda o componente político, inevitável em um ano eleitoral. Obras públicas ganham visibilidade e passam a ser disputadas como ativos de imagem por diferentes atores. A paternidade dos projetos será reivindicada, direta ou indiretamente, em discursos e campanhas.

Nesse ambiente, cabe ao cidadão ir além da superfície: mais importante do que saber quem inaugura ou anuncia uma obra é compreender como ela foi financiada e quais benefícios concretos ela entrega.

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